quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Derradeira Viagem

"Sinto na minha alma o aproximar dos teus passos.
Estremeço paralizado e incapaz de reagir com o temor que a tua vinda traz.
Preciso escapar mas o teu lúgubre arfar roça-me já o peito.


Força... tenho que ter força. Tenho que mover-me e fugir desenfreadamente.
Correr.. tenho que correr...
Mas porque não me mexo? Porque não reagem as pernas??


Chegas-te cada vez mais a mim. O teu fétido hálito inunda-me já de um incomportável vómito.
Tenho medo. Oh, como tenho medo!
Arde-me mais a pele por te saber chegar do que por saber que terei de te acompanhar.
Vem de uma vez, maldita! Nunca mais me alcanças??


Mas porque não me mexo???
Espera. Espera!! Não quero ir...
Não já. Não ainda.
Volta para trás! Recua no teu caminho e na tua resoluta intenção de me levar!!
Ainda não fiz o que devia. Ainda não vi tudo o que me estava destinado.
Ainda não abri os olhos... Sai daqui, por favor!!


Movimento... Uma brisa... O meu âmago estremece.
Estarei a evadir-me? Estarei a escapar??
Estarei cheio de vida novamente?
Terrível miséria. Estou gelado. A brisa é putrefacta.
Consciencializo o motivo do movimento e soluço um indizível choro.


A tua foice arrasta-me pela lama e com ela os restos daquilo que me tornei.

Desisto de lutar.

Até outro dia, Mundo.

Voltarei, talvez, e brilharei mais forte do que nunca. Mais intensamente do que fui desta feita capaz.




Um meu colega de trabalho está a morrer.

Foi-lhe diagnosticado algo que lhe tirará a vida porque o nosso conhecimento não chega ainda para nos livrar da morte sempre que ela se lembra que chegou a nossa vez.

Eu sei-o e ele também.

Hoje visitou a empresa onde trabalho e fiquei absolutamente desolado.
Não consegui dizer-lhe nada de relevante. Basicamente não fui capaz de articular mais do que meia dúzia de palavras.

Todos sabemos que a vida é a prazo. Não nos pertence.
Como imaginamos que a sua validade está onde a vista não alcança abstraímos-nos quase completamente da nossa finitude. Temos o fim traçado mas não anunciado.

Mas...

Como muda a perspectiva quando agendam a hora para o fim do que conhecemos por vida!
Nesta tomada de consciência não há qualquer libertação.

Como gostaria de ter dito o quanto lamento e o quanto desejo que tudo amanhã não fosse mais que uma terrível recordação de um terrífico pesadelo que afinal já passou..

Como gostaria de lhe ter incutido coragem, uma vez que a esperança é também já defunta..

A minha voz prendeu-se e a minha garganta fechou.

De nada fui capaz.

A vida é fodida.

Bem hajam."


Estas linhas foram a transcrição de um post de Setembro do ano passado.
Foi uma reflexão em forma de homenagem que aqui reitero.
Após o post transcrito tive oportunidade de estar com o meu colega algumas vezes e fui já, a custo, confesso, capaz de articular algumas palavras de ânimo e conforto que me haviam primeiramente faltado.

O sofrimento do meu colega foi definitivamente terminado, soube-o hoje, no passado dia 23 de Agosto de 2010.

R.I.P., caro Freitas.

AC.

3 comentários:

sonhos/pesadelos disse...

Deixo-te um beijo, e força para os seus familiares, amigos e quem dele gostava...

.l disse...

há tanta coisa que apetece dizer aqui, e falar do que há tão pouco tempo me sucedeu... mas vou resistir de me expor e evitar ter de aprender de novo a mesma lição que me fez parar de publicar tanto tempo...
basta-me apenas que saiba do tanto que me fez lembrar, do tanto que me deu vontade de falar...

André Couto disse...

Obrigado, L. e Sonhos pela força.
Não éramos muito íntimos, mas a presença da morte e, sobretudo, do sofrimento pré mortal em pessoas próximas é avassalador. Esmagador.

Uma palavra de carinho também ao meu amigo que privadamente me enviou condolências de forma tão bela. Abraço.