terça-feira, 10 de agosto de 2010

Missiva




Trofa, 10 de Agosto de 2010

Meus queridos ledores,

espero que esta missiva vos encontre de boa saúde. Que estejam satisfeitos com o modo como decorrem os vossos dias. Bem sei que nunca tudo corre de feição, mas assim é a vida. Umas vezes mais satisfeitos do que outras. Desejo mormente que o balanço se salde positivo no que à vossa satisfação diz respeito.

Faz tempo que não vos dirijo qualquer palavra. Esta circunstância não traduz nenhum estado de desilusão, aborrecimento ou ira contra qualquer um de vós. Não significa que da vossa parte tenha chegado o mais pequeno contributo para vos ter abandonado. Não pressupõe, em suma, nenhuma falha de comportamento ou carácter da vossa parte que me tenha de vós afastado. Confesso, de peito aberto, que amiúde me lembrei de muitos de vós e que de alguns tive, e tenho, verdadeira saudade. Não sou, como nunca fui e aspiro não ser jamais, hipócrita, o que significa que de vários outros nem sequer me lembrei. Lamento, ainda que não sinta muita pena. Não só aqui não coloquei palavra, pensamento ou sentimento algum, como dos vossos espaços não fui visita. Com pena, lamento. Também essa ausência a vós não cabe responsabilidade. Apenas à minha pessoa.

Por feitio mais do que por defeito tenho a tendência de me afastar. Não porque não vos queira. Talvez até precisamente por vos querer...

Um destes dias ao abrir o meu correio electrónico apercebi-me da nostalgia que a falta de correio me traz. Não os habituais e-mails que entopem a minha "Caixa de Entrada" e a minha paciência e que acabo mais tarde ou mais cedo, habitualmente mais tarde do que cedo, por "Varrer" (obrigadinho ao Gates pela funcionalidade). Não me quero referir à impessoalidade de passar e-mails de uns para outros como se de obrigatoriedade estivessemos a falar (excepção feita aos "emílios" que o meu papá com tanto carinho e real interesse me dirige). Falo-vos da correspondência clássica. Das Cartas de familiares e amigos que deixaram de ser enviadas e consequentemente recebidas. Da espera pelo carteiro. Da ânsia de ouvir a voz dos que nos são queridos nas suas palavras escritas.
Dir-me-ão que basta pegar no telemóvel e falar. Ou então dirão que, já que gosto da escrita, posso sempre enviar uma SMS. Pois... e já agora peço ao carteiro para a ir entregar, não?

Falta a tinta, o papel, o selo, o fechar do sobrescrito, o levar a carta aos Correios e, mais importante, o tempo de dedicação à redacção, à caligrafia, à escolha da frase que melhor traduza o nosso sentimento e, em todo este ritual, a dedicação ao destinatário da missiva. Sinto que apesar de tecnologicamente estarmos todos tão perto, não conseguimos, verdadeira e efectivamente, chegar uns aos outros.

Daí que, encontrando-me nessa nostalgia, quis enviar uma carta a cada um de vós. Quis que sentissem a minha dedicação e disponibilidade através da dedicação que coloco em cada vocábulo que vos dirijo. Quero que saibam que vos estimo e que anseio pela vossa resposta na volta do correio como um faminto que pelo sustento desespera.

Bem sei que estou em paradoxo, porquanto o meio que utilizo para vos chegar é o que menos admiro. No entanto não disponho do vosso endereço. A única forma de entrar na vossa morada é através do vosso computador. Não me desconsiderem por isso.


Despeço-me com um fraterno abraço, na esperança que em breve receberei notícias vossas.
Sempre vosso,


André Couto.


2 comentários:

Daniel Silva (Lobinho) disse...

André

Escrever-te-ia uma carta, se ainda houvesse esse hábito ou tivesse a tua morada. Também eu já escrevi sobre esta parte num post, como que a "lamentar" exactamente o que escreves: "Falta a tinta, o papel, o selo, o fechar do sobrescrito, o levar a carta aos Correios e, mais importante, o tempo de dedicação à redacção, à caligrafia, à escolha da frase que melhor traduza o nosso sentimento e, em todo este ritual, a dedicação ao destinatário da missiva. Sinto que apesar de tecnologicamente estarmos todos tão perto, não conseguimos, verdadeira e efectivamente, chegar uns aos outros".

Não o podias ter escrito melhor se eu tentasse pedir-te que ilustrasses o meu sentir.

Quanto às ausências, também eu por vezes simplesmente não estou. E não estou por nenhum motivo em particular, apenas não estou. A caligrafia, o cheiro do papel, o padrão ou o conteúdo, o selo e o (in)esperado da carta em papael, superam qualquer e-mail. Mas também me ausente porque sim. A blogosfera deve ser um meio onde nos cruzamos com outras pessoas que tornamos (ou nao) amigas, mas nao devemos fazer dela uma obrigação. Isso seria desvirtuar o propósito, e onde devia haver autenticidade passaria a haver esforço.

Conto, porém, ter-te mais por cá... desde que o sintas.

Abraço

André Couto disse...

Obrigado Daniel. Pela presença e pelas gentis palavras.

Também eu conto estar por cá. Desde que o sinta, claro. Só assim faz sentido.

Abraço.