sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Ir para dentro, cá dentro.


Saudações, pessoas esquisitas.

Encontro-me de férias. Estou a desfrutar desta porção de terra inglesa em pleno território luso: o Allgarve. (Noto que a correcção automática de texto não reconhece este vocábulo como pertencente à Língua Portuguesa. Deixem-me tentar em Inglês… não, o resultado continua a ser um sublinhado a vermelho. Talvez este computador não esteja actualizado ao novo acordo ortográfico ou não identifique palavras em Socratês. Decididamente vou comprar um Magalhães na esperança que situações destas não se repitam. Adiante.)

Nos tempos dedicados ao ócio dou por mim a questionar a minha existência. Os meus actos, frutos do meu temperamento. Analiso-me ao milímetro. Cada segundo de reacção esmiuçado em minutos de divagações introspectivas. Tempo não me falta. Reagir é uma inevitabilidade. Pensar a vida, para mim, uma incontornável obrigação.

Ao vasculhar-me descubro uma perene coerência de comportamento que tento diagnosticar a origem. Surgem-me várias possibilidades, no entanto, no que a análise comportamental diz respeito, é difícil empregar o método científico da experimentação para obtenção de resultados e respectivas conclusões, mormente quando somos cobaia e cientista, médico e paciente. O emaranhado é de angustiante densidade tendo como obstáculo a impossibilidade de distanciação, tão necessária para as almejadas ilações.

Desbravando a virgem floresta do meu âmago noto que desde que a memória me habita vivo em função de terceiros. Cresci tentando agradar aos pais, aos professores, aos colegas, à namorada. Sinto que sempre busquei aprovação de todos para me sentir bem comigo mesmo, receando que se assim não fosse algum deles me reprovaria. Com medo de ser colocado de parte por não ser suficientemente bom acabei por me anular incontáveis vezes. Como se receasse ser aniquilado por não agradar, acabei por me ir apagando.

Este modo de proceder teve influências no meu desenvolvimento que me moldaram de tal forma que ainda hoje dou por mim a fazer exactamente a mesma coisa. Em situações quotidianas, de maior ou menor dimensão, o certo é que a falha está lá, manifestando-se em pequeninas coisas que vão crescendo dentro de mim até se tornarem insuportáveis. São pensamentos abafados, opiniões silenciadas, risos forçados, simpatias fingidas, antipatias disfarçadas. E tudo se acumula em mim até não mais ser capaz conter. Mesmo aí, ao invés de explodir completamente, refugio-me em mim e procuro afastar-me. Digamos que não suporto a situação mas não consigo enfrentá-la e por isso fujo. Porquê? Porque ainda assim é, para o meu filtro comportamental mais aceitável que me sintam afastar, ainda que não gostem nem percebam, do que levarem com anos de situações e opiniões numa singela mas brutal explosão de raiva. Ou seja, no centro de tudo, continua sempre presente o medo de que não aceitem a minha opinião, a minha forma de ser.
Porquê tanto medo?

Essa é a resposta que procuro. Busco para mim uma segurança que me permita expressar na realidade e na totalidade o que penso a cada momento sem me preocupar com a resposta que dos outros irei obter. Até hoje não consegui a encontrar. Não sou capaz de alcançar algo que para muitos é tão prosaico que nem lhes passa pelo espírito pensar nisso, no entanto, reitero, simplesmente não sei como fazê-lo. Não obstante, sou da opinião que o primeiro passo para a resolução de um problema é identificá-lo como tal. Veremos se assim será.

Lúcia Etxebarria escreveu no seu romance intitulado “O visível e o invisível” uma passagem que traduz o que tenho pensado, sentido e vivido por estes dias, embora partindo de um outro ponto de partida:

A fama é um labirinto de espelhos deformantes: se uma pessoa se define consoante os outros, se se vê a si própria consoante a reacção que provoca nos outros, como será possível ver-se multiplicada em milhões de espelhos diferentes que se cegam uns aos outros com os seus reflexos?


Bem hajam.

André Couto.

5 comentários:

Daniel Silva (Lobinho) disse...

Olá André

As palavras que deixaste no meu canto são efectivamente isso. Nao tens de agradecer. É mérito teu. Quanto ao teu intrsopectivo texto, fazes-me lembrar alguém: eu mesmo. Existe um paralelismo enorme em muitas das coisas que desabafas na tentativa de te "encontrares". A excepção é o medo. Nessa tua demanda pela tentativa de aniquilação do medo, não ando eu. Mas uma possível resposta ou abordagem, será, talvez, o receio de falhar camuflado na insegurança que sentes como medo. Think about it.

Um abraço

Libertya... disse...

É curioso como há imenso tempo que não ia aos meus blogs,(os do Sonhos/Pesadelos pelo menos) e ao entrar algo me disse para vir ao teu, terá sido pelo espelho onde acabei de me "ver"?

Também eu faço essas análises, constantemente, também eu sempre vivi para os outros e não para mim,paguei facturas que não as minhas, mas com uma diferença... A reprovação, por mais que me desdobrasse e pintasse de cor de burro quando foge, estava sempre lá. Quer queiramos quer não, a ruptura dá-se um dia... Nem sempre de forma explosiva, mas dá-se, por vezes de forma camuflada a olho nu, mas avassaladora para quem a sente...

Deixei de procurar a resposta, aprendi a ser eu mesma, ainda com resquicios de um âmago cansado, desgastado, mas em constante mudança... Nem sempre é fácil, nem sempre é imediato, mas é inato.

"Não procuro saber as respostas, procuro entender as perguntas."
Confucio

Beijo Libertyo... ou direi antes endiabrado?
;)


Andas pelas minhas terras... :)

The scientist disse...

Out of words...

Beijo

André Couto disse...

Daniel,
de facto encontro também sensação similar quando visito o teu blog.
I think about it, but just can't find the answer!!
Abraço.

Libertya,
Procurar respostas é, dolorosamente, aquilo que sei fazer. Quanto a aquilo que sou... é apenas uma das respostas que busco.

Beijo. Volta sempre que quiseres.

Scientist,
Do come back. Don't loose your words to me. That way you leave me not knowing your thoughts, and as you can imagine, they are important to me.

Beijinho.

sonhos/pesadelos disse...

Volto sempre, porque gosto do teu canto, como Libertya ou não.

Beijo endiabrado