terça-feira, 31 de agosto de 2010

De volta à realidade.

Foto: Google
Boas tardes.

Decidi deixar aqui no vazadouro um inevitável (mas espectável) desabafo.
O motivo não será profundo, transcendente, brilhante, ou sequer interessante. No entanto, se até mentes brilhantes têm pensamentos prosaicos, também eu, mero escriba (escravo) das imposições do sentir, tenho aflições do mais vulgar que pode haver.

Ser ou não ser... Pensar ou nem por isso... Tudo isso é, momentanemente, secundário porquanto o mau estar é mais premente do que o raciocínio.

Pronto, deixo-me de subterfúgios.

O problema é:
Acabaram as férias...
Acabou o ócio...
Acabou o prazer de ser dono da totalidade do meu tempo, de ser senhor insubstituível da minha vontade.

Regresso amanhã, bem cedo, à labuta.

Pensamentos como "Trabalho para viver?" ou " Vivo para trabalhar? surgem sem convite.
Deixando-me aprisionar pela dicotomia, trabalho, seguramente, para viver.
Seria necessário sequer pensar para responder? Para alguns não tenho dúvidas que a questão imporia reflexão e dúvida.

Confúcio disse, (ou escreveu...) "Escolhe um emprego que ames e não terás que trabalhar um único dia!"

Sagaz, este Confúcio...

No primeiro impacto estas palavras quase que nos tolhem a concordar de tão definitivas que soam.
"Tem razão, o diabo do homem!!"

Terá, isto é, teria.

Nos dias de hoje a escolha efectiva do emprego que se deseja acarreta as dificuldades que todos conhecemos.

Nos dias de hoje a possibilidade de emprego afigura-se cada vez mais como um bem de obrigação imediata e não passível de grande escolha. Afinal, sempre é melhor comer logo a maçã do que esperar pela picanha que dificilmente será servida...

É certo que Confúcio não vive entre nós e, sobretudo, não vive(u) em Portugal...

É certo que nenhum argumento nega a verdade de raiz, inerente ao pensamento do "diabo do homem".

É certo... que amanhã não quero ir trabalhar.

Bem hajam.

André Couto.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O Adeus, definitivo.

Foto: Google.
Ocorreu-me dizer adeus. Lavar os cestos, arrumar as alfaias. Fazer a perene despedida. Apagar o blogue e não mais aqui vir.

Escrever neste espaço traz-me, ocasionalmente, alguns contratempos de ordem pessoal sobre os quais não desejo nada explicitar. Seria, sem dúvida, uma solução simples e fácil, ainda que apenas aparentemente.

Voltar as costas às dificuldades é uma saída que, por vezes, se torna, para mim, demasiado atraente. Afinal de contas não estar perante um problema não será o mesmo do que tê-lo como resolvido?
Não. De todo, evidentemente. Será uma solução confortável mas acaba por nunca ser definitiva. As adversidades existem e fazem parte dos nossos dias. Voltar-lhes as costas apenas faz com que, momentaneamente, não as vejamos, mas por não estarem no nosso campo de visão não quer, minimamente, dizer que tenham desaparecido. É certo, e deveria ser, sabido que voltarão, talvez nas alturas mais importunas, juntar-se a tantas outras contrariedades, com um novo fôlego, uma nova pujança, encontrando-me com cada vez menos energia e, por isso, cada vez mais fragilizado.

Além de tudo o que escrevi juntam-se outras razões, mais profundas e mais fortes, que determinaram que não tenha terminado com este espaço e, provavelmente, tenham determinado uma ainda maior resolução a mantê-lo, cada vez mais amiúde e de modo progressivamente mais natural, gutural e poderoso: Necessito de partilhar o que sinto.

Sou um ser extremamente complexo e sanguíneo. Controverso e paradoxal. Analista de mim, dos outros e do mundo. Incapaz de conter no vaso que me sustenta esta enormidade de entidades que me habitam e, simultâneamente, me formam, condicionam e, muitas vezes, confundem.

Necessito deste lugar de reflexão, desabafo, exteriorização, expiação, extravaso e partilha.
Necessito do sentimento de totalidade e unicidade que escrever, ainda que por instantes apenas, me traz.
Preciso de me esvaziar para ser capaz de absorver o mundo que me rodeia.
Preciso de me libertar para me deixar prender à vida.
Preciso que, com o vosso ponto de vista, seja nesta casa ou na vossa, mudem o ângulo da luz que sobre mim incide e melhor consiga enxergar.

É então de um “Olá”, de um “Cá estou e estarei” que versa este artigo.
Não é uma despedida, mas uma chegada.
Não um “Adeus, definitivo”, mas um “Até já, breve.”

Bem hajam.
André Couto.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Ir para dentro, cá dentro.


Saudações, pessoas esquisitas.

Encontro-me de férias. Estou a desfrutar desta porção de terra inglesa em pleno território luso: o Allgarve. (Noto que a correcção automática de texto não reconhece este vocábulo como pertencente à Língua Portuguesa. Deixem-me tentar em Inglês… não, o resultado continua a ser um sublinhado a vermelho. Talvez este computador não esteja actualizado ao novo acordo ortográfico ou não identifique palavras em Socratês. Decididamente vou comprar um Magalhães na esperança que situações destas não se repitam. Adiante.)

Nos tempos dedicados ao ócio dou por mim a questionar a minha existência. Os meus actos, frutos do meu temperamento. Analiso-me ao milímetro. Cada segundo de reacção esmiuçado em minutos de divagações introspectivas. Tempo não me falta. Reagir é uma inevitabilidade. Pensar a vida, para mim, uma incontornável obrigação.

Ao vasculhar-me descubro uma perene coerência de comportamento que tento diagnosticar a origem. Surgem-me várias possibilidades, no entanto, no que a análise comportamental diz respeito, é difícil empregar o método científico da experimentação para obtenção de resultados e respectivas conclusões, mormente quando somos cobaia e cientista, médico e paciente. O emaranhado é de angustiante densidade tendo como obstáculo a impossibilidade de distanciação, tão necessária para as almejadas ilações.

Desbravando a virgem floresta do meu âmago noto que desde que a memória me habita vivo em função de terceiros. Cresci tentando agradar aos pais, aos professores, aos colegas, à namorada. Sinto que sempre busquei aprovação de todos para me sentir bem comigo mesmo, receando que se assim não fosse algum deles me reprovaria. Com medo de ser colocado de parte por não ser suficientemente bom acabei por me anular incontáveis vezes. Como se receasse ser aniquilado por não agradar, acabei por me ir apagando.

Este modo de proceder teve influências no meu desenvolvimento que me moldaram de tal forma que ainda hoje dou por mim a fazer exactamente a mesma coisa. Em situações quotidianas, de maior ou menor dimensão, o certo é que a falha está lá, manifestando-se em pequeninas coisas que vão crescendo dentro de mim até se tornarem insuportáveis. São pensamentos abafados, opiniões silenciadas, risos forçados, simpatias fingidas, antipatias disfarçadas. E tudo se acumula em mim até não mais ser capaz conter. Mesmo aí, ao invés de explodir completamente, refugio-me em mim e procuro afastar-me. Digamos que não suporto a situação mas não consigo enfrentá-la e por isso fujo. Porquê? Porque ainda assim é, para o meu filtro comportamental mais aceitável que me sintam afastar, ainda que não gostem nem percebam, do que levarem com anos de situações e opiniões numa singela mas brutal explosão de raiva. Ou seja, no centro de tudo, continua sempre presente o medo de que não aceitem a minha opinião, a minha forma de ser.
Porquê tanto medo?

Essa é a resposta que procuro. Busco para mim uma segurança que me permita expressar na realidade e na totalidade o que penso a cada momento sem me preocupar com a resposta que dos outros irei obter. Até hoje não consegui a encontrar. Não sou capaz de alcançar algo que para muitos é tão prosaico que nem lhes passa pelo espírito pensar nisso, no entanto, reitero, simplesmente não sei como fazê-lo. Não obstante, sou da opinião que o primeiro passo para a resolução de um problema é identificá-lo como tal. Veremos se assim será.

Lúcia Etxebarria escreveu no seu romance intitulado “O visível e o invisível” uma passagem que traduz o que tenho pensado, sentido e vivido por estes dias, embora partindo de um outro ponto de partida:

A fama é um labirinto de espelhos deformantes: se uma pessoa se define consoante os outros, se se vê a si própria consoante a reacção que provoca nos outros, como será possível ver-se multiplicada em milhões de espelhos diferentes que se cegam uns aos outros com os seus reflexos?


Bem hajam.

André Couto.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Missiva




Trofa, 10 de Agosto de 2010

Meus queridos ledores,

espero que esta missiva vos encontre de boa saúde. Que estejam satisfeitos com o modo como decorrem os vossos dias. Bem sei que nunca tudo corre de feição, mas assim é a vida. Umas vezes mais satisfeitos do que outras. Desejo mormente que o balanço se salde positivo no que à vossa satisfação diz respeito.

Faz tempo que não vos dirijo qualquer palavra. Esta circunstância não traduz nenhum estado de desilusão, aborrecimento ou ira contra qualquer um de vós. Não significa que da vossa parte tenha chegado o mais pequeno contributo para vos ter abandonado. Não pressupõe, em suma, nenhuma falha de comportamento ou carácter da vossa parte que me tenha de vós afastado. Confesso, de peito aberto, que amiúde me lembrei de muitos de vós e que de alguns tive, e tenho, verdadeira saudade. Não sou, como nunca fui e aspiro não ser jamais, hipócrita, o que significa que de vários outros nem sequer me lembrei. Lamento, ainda que não sinta muita pena. Não só aqui não coloquei palavra, pensamento ou sentimento algum, como dos vossos espaços não fui visita. Com pena, lamento. Também essa ausência a vós não cabe responsabilidade. Apenas à minha pessoa.

Por feitio mais do que por defeito tenho a tendência de me afastar. Não porque não vos queira. Talvez até precisamente por vos querer...

Um destes dias ao abrir o meu correio electrónico apercebi-me da nostalgia que a falta de correio me traz. Não os habituais e-mails que entopem a minha "Caixa de Entrada" e a minha paciência e que acabo mais tarde ou mais cedo, habitualmente mais tarde do que cedo, por "Varrer" (obrigadinho ao Gates pela funcionalidade). Não me quero referir à impessoalidade de passar e-mails de uns para outros como se de obrigatoriedade estivessemos a falar (excepção feita aos "emílios" que o meu papá com tanto carinho e real interesse me dirige). Falo-vos da correspondência clássica. Das Cartas de familiares e amigos que deixaram de ser enviadas e consequentemente recebidas. Da espera pelo carteiro. Da ânsia de ouvir a voz dos que nos são queridos nas suas palavras escritas.
Dir-me-ão que basta pegar no telemóvel e falar. Ou então dirão que, já que gosto da escrita, posso sempre enviar uma SMS. Pois... e já agora peço ao carteiro para a ir entregar, não?

Falta a tinta, o papel, o selo, o fechar do sobrescrito, o levar a carta aos Correios e, mais importante, o tempo de dedicação à redacção, à caligrafia, à escolha da frase que melhor traduza o nosso sentimento e, em todo este ritual, a dedicação ao destinatário da missiva. Sinto que apesar de tecnologicamente estarmos todos tão perto, não conseguimos, verdadeira e efectivamente, chegar uns aos outros.

Daí que, encontrando-me nessa nostalgia, quis enviar uma carta a cada um de vós. Quis que sentissem a minha dedicação e disponibilidade através da dedicação que coloco em cada vocábulo que vos dirijo. Quero que saibam que vos estimo e que anseio pela vossa resposta na volta do correio como um faminto que pelo sustento desespera.

Bem sei que estou em paradoxo, porquanto o meio que utilizo para vos chegar é o que menos admiro. No entanto não disponho do vosso endereço. A única forma de entrar na vossa morada é através do vosso computador. Não me desconsiderem por isso.


Despeço-me com um fraterno abraço, na esperança que em breve receberei notícias vossas.
Sempre vosso,


André Couto.