segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Fragmentos de Inverno



Nada resulta.
Não há como escapar à armadilha de ser eu mesmo.
Não sou capaz de rir.
Não tenho mais a capacidade de chorar.

Paulatinamente o frio nuclear do rochedo metálico em que me torno esmaga o remanescente calor do que um dia foi um sol incandescente.
Inefavelmente o meu âmago definha com a minha respiração como lúgubre e inexorável metrónomo.

Sempre fui vítima do inconformismo para com a multiplicidade de entidades que me habitam mas com a vinda deste aparentemente perene Inverno nada mais sofro:

Nada mais sinto.

Num destes hojes estive num 8º andar a olhar de cima a realidade que me prende e sufoca, enquanto fumava um cigarro pacificador.
O fumo voava em meu redor como uma materna e acolhedora nuvem.
Quando terminei, atirei o resto moribundo do cigarro com a sua aflita centelha para o abismo do seu eterno descanso.
Voou ziguezagueando até ao fim. Até ao preciso momento em que esbarrou violentamente o negro solo asfaltado.

- Apagou-se... - disse, sorrindo com ironia.

Recebi com mórbido prazer a fresca brisa que me afagava o rosto enquanto olhava a vida lá em baixo, num mundo que estava algures que não ali.
Aquele fugaz mas tremendamente libertador voo estava a tornar-se tão apelativo...

Saí para o elevador.

Não é ainda a hora de abrir as asas.


Vulnerant omnes, ultima necat

Sejam felizes.

3 comentários:

Morgaine disse...

é sempre hora de abrir as asas... talvez não para o voo que se mostrou tão apelativo... mas há por aí tantos voos que merecem ser experimentados... é sempre hora de abrir as asas :)

magna disse...

oie andré belo texto homem abra as casa e vá ver o mundo apenas não se mate mas voe pra vida e viva tudo o que poder com poder em qualquer hora do dia e da noite!!!bjussss

Daniel Silva (Lobinho) disse...

Só uma palavra: BELÍSSIMO

Conseguiste massajar-me a alma pela leitura tao prazeirosa apesar de negra... periclitante...

Voa... mas de outra forma.

LINDO

Abraço grande