terça-feira, 8 de setembro de 2009

Derrota


Sinto na minha alma o aproximar dos teus passos.
Estremeço paralizado e incapaz de reagir com o temor que a tua vinda traz.
Preciso escapar mas o teu lúgubre arfar roça-me já o peito.
Força... tenho que ter força. Tenho que mover-me e fugir desenfreadamente.
Correr.. tenho que correr...

Mas porque não me mexo? Porque não reagem as pernas??

Chegas-te cada vez mais a mim. O teu fétido hálito inunda-me já de um incomportável vómito.
Tenho medo. Oh, como tenho medo!
Arde-me mais a pele por te saber chegar do que por saber que terei de te acompanhar.
Vem de uma vez, maldita! Nunca mais me alcanças??

Mas porque não me mexo???

Espera. Espera!! Não quero ir...
Não já. Não ainda.
Volta para trás! Recua no teu caminho e na tua resoluta intenção de me levar!!
Ainda não fiz o que devia. Ainda não vi tudo o que me estava destinado.
Ainda não abri os olhos... Sai daqui, por favor!!

Movimento... Uma brisa... O meu âmago estremece.
Estarei a evadir-me? Estarei a escapar??
Estarei cheio de vida novamente?

Terrível miséria. Estou gelado. A brisa é putrefacta.
Consciencializo o motivo do movimento e soluço um indizível choro.
A tua foice arrasta-me pela lama e com ela os restos daquilo que me tornei.

Desisto de lutar.

Até outro dia, Mundo.

Voltarei, talvez, e brilharei mais forte do que nunca. Mais intensamente do que fui desta feita capaz.


Um meu colega de trabalho está a morrer.

Foi-lhe diagnosticado algo que lhe tirará a vida porque o nosso conhecimento não chega ainda para nos livrar da morte sempre que ela se lembra que chegou a nossa vez.

Eu sei-o e ele também.

Hoje visitou a empresa onde trabalho e fiquei absolutamente desolado.
Não consegui dizer-lhe nada de relevante. Basicamente não fui capaz de articular mais do que meia dúzia de palavras.

Todos sabemos que a vida é a prazo. Não nos pertence.
Como imaginamos que a sua validade está onde a vista não alcança abstraímos-nos quase completamente da nossa finitude. Temos o fim traçado mas não anunciado.
Mas...
Como muda a perspectiva quando agendam a hora para o fim do que conhecemos por vida!
Nesta tomada de consciência não há qualquer libertação.

Como gostaria de ter dito o quanto lamento e o quanto desejo que tudo amanhã não fosse mais que uma terrível recordação de um terrífico pesadelo que afinal já passou..

Como gostaria de lhe ter incutido coragem, uma vez que a esperança é também já defunta..

A minha voz prendeu-se e a minha garganta fechou.
De nada fui capaz.


A vida é fodida.


Bem hajam.

6 comentários:

Morgaine disse...

o texto está lindo... bem... lindo não é bem o termo... talvez... poderoso...
quanto ao tema... para esse também me faltam as palavras...

lia disse...

Nunca existirá palavra que adie a despedida e no momento da partida terá sempre ficado algo por dizer.

Socrates daSilva disse...

A morte, apesar de existir desde que existe vida, é o maior dos mistérios. Talvez não a morte em si, mas o que pensamos sobre ela e como lidamos com ela. É estupida, incoerente e sem sentido. Justa - dirão alguns porque não liga a riqueza, posição social ou egos. Injusta, penso eu, porque morrem pessoas que fazem falta a outros, pessoas boas e chefes de familia; deixa cá, por vezes, gente que até pagava para morrer e gente má.

A culpa se calhar não é da morte, é mesmo da vida!

Mesmo que não de saiba o que dizer a quem perdeu um ser querido na morte, ou a quem tem uma doença terminal, aprendi o valor de estar presente, de dar um aperto de mão ou um abraço. Mesmo sem palavras. Por que pior do que enfrentar a morte deve ser fazê-lo sózinho...
(Desculpa a extensão)

Abraço!

Daniel Silva (Lobinho) disse...

Nsetas circunstâncias, André, tal como tu no meu blog, tenho dificuldade em dizer seja o que for. As palavras não ajudam, mas deixa-me dizer-te isto, a única coisa que poderá ajudar: estou aqui. Sim, eu estarei aqui.

E se me permitires ir mais longe, dir-te-ia isto: ja que o teu colega está a chegar ao fim que todos chegaremos só nao sabemos quando, tenta dizer-lhe que viva cada dia e cada minuto de forma livre, simples e feliz... se por mais que te custe, por favor, tenta ajuda-lo nessa eventual tarefa.

nao basta ja a consciencia da morte proxima, por isso que se use de uma maneira bonita o tempo que anda tiver. Ajuda-o nisso, André, e "terminará" mais feliz...

OnMyOwn Project disse...

Arrepiante...

André Couto disse...

A todos vocês em geral e a cada um de vós muito particularmente, obrigado pelas gratificantes palavras.

Beijos e abraços.