domingo, 22 de março de 2009

Sem destino


Sinto o lúgubre lamento que a treva me trouxe sem que nada lhe pedisse.
A sua sombra gela-me a alma e cega-me a possibilidade de fuga.
Esconder-me. Preciso desesperadamente de me esconder.
Esconder-me como?

Não vejo.
Um só milímetro desta escuridão é mais denso do que toda a minha coragem.
Avançar às cegas é mais desconfortável do que permanecer imóvel.
Deixo-me ficar. Obrigo-me a ficar.

E para onde fugiria eu?
O frio que me invade
é já terrivelmente familiar.
Não se afugentam velhos amigos.

Para onde quer que fosse nunca seria
capaz de escapar de mim mesmo.
Levaria comigo a treva porque ela faz parte
do que sou e eu faço parte dela.
Irmãos.
Um só.

Sei lá eu bem.
Se sou tantos como sei qual deles sou eu?
Se mil vidas habitam a minha história,
novecentas e noventa e nove inexoráveis mortes
me acompanham perenemente.

Uma mais para equilibrar a balança.
Uma mais para que possa renascer e
novamente o desiquilíbrio se iniciar.

Terei mil mortes mas mil e uma vidas.
Todas elas me seguirão.
Todas em um só.
Serei todas elas a todo o tempo.

Pesam-me todas estas vidas.
Esmagam-me todas estas almas.

Porque corre o parvo hamster na sua estúpida roda?
Para quê??

Abro os olhos.
A luz volta com o nascer da manhã.
Os raios solares iluminam e aquecem toda a praia.

Gaivotas barulhentas buscam uma nova refeição.
A primeira deste dia.
Talvez a primeira da vida delas.

São já horas de me mover.
Sacudo a areia e calço as sapatilhas.

Olho em meu redor.
Para onde ir?

Talvez o destino não tenha assim tanta importância.

Recomeço a correr.
Talvez o destino não tenha assim tanta importância.


Até já.


terça-feira, 17 de março de 2009

Tempo


Respondendo à solicitação da Sofia Loureiro dos Santos aqui publico o poema sobre o Tempo que escolhi de um livro de Miguel Torga.
De facto, cara Sofia, não seria possível esperar pela pág. 161...


"Tempo — definição da angústia.
Pudesse ao menos eu agrilhoar-te
Ao coração pulsátil dum poema!
Era o devir eterno em harmonia.
Mas foges das vogais, como a frescura
Da tinta com que escrevo.
Fica apenas a tua negra sombra:
— O passado,
Amargura maior, fotografada.



Tempo...
E não haver nada,
Ninguém,
Uma alma penada
Que estrangule a ampulheta duma vez!



Que realize o crime e a perfeição
De cortar aquele fio movediço
De areia
Que nenhum tecelão
É capaz de tecer na sua teia!"


Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'
Coimbra Editora, Lda.


Um enorme bem haja.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Slumdog Millionaire


O último filme que vi foi o "Slumdog Millionaire", "Quem quer ser Bilionário" na tradução que entenderam fazer e que não percebi porquê. Mas adiante.

Estava com receio de não gostar do filme. Foi muito badalado, andava nas bocas do mundo e tinha ganho imensos Óscares, o que nem sempre é sinónimo de filme que aprecie.

Mereceu cada uma daquelas estatuetas douradas e por mim ganhava mais ainda!

Adorei o argumento aparentemente simples mas que era simplesmente genial.
Não tenho o intuito de revelar grandes pormenores da película uma vez que podem desejar vê-la e se forem como eu não iriam achar grande piada a conhecer partes do filme, no entanto aconselho-o convicto de que irão gostar tanto como eu.
Basicamente é uma história de vida com um concurso como pano de fundo. Cada pergunta um episódio. Cada resposta um reviver de todo o atribulado passado do personagem.
Quem gostar de cinema de consumir e deitar fora pode perfeitamente visionar o filme que não se arrependerá.
Quem gostar de ficar a pensar e decorridos alguns dias lembrar uma vez mais um ou outro aspecto, por vezes elaborando ainda conclusões que lhe tinham escapado, deve também assistir.

Quem aceitar a minha sugestão e não achar a mínima piada... Temos pena!!

Eu adorei.

Um enorme bem haja.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Uma História Verdadeira (de verdadeiro amor)

Recebi um mail de um colega meu sobre a relação entre um pai e o seu filho.
Ao ler o texto fiquei com uma óptima opinião sobre a disponibilidade do senhor para com o seu rebento.

Ao ver o vídeo, com as lágrimas tentando forçar passagem, testemunhei um amor que roça muito de perto o incomparável.

Esta história será até conhecida por vós mas como me tocou bastante não deixo de a publicar.


Um dia o filho pergunta ao pai:
"Papá, vens correr comigo a maratona?" O pai responde que sim, e ambos correm a primeira maratona juntos.
Um outro dia, volta a perguntar ao pai se quer voltar a correr a maratona com ele, ao que o pai responde novamente que sim.
Correm novamente os dois.

Certo dia, o filho pergunta ao pai:
"Papá, queres correr comigo o Ironman?
(O Ironman é o mais difícil...exige nadar 4 km, andar de bicicleta 180 km e correr 42km)
E o pai diz que sim.
Isto é tudo muito simples...até que se vejam estas imagens...
http://www.youtube.com/watch?v=VJMbk9dtpdY

Até já...

quinta-feira, 12 de março de 2009

Poema do Silêncio



"Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.

Foi em meu nome que fiz,
A carvão, a sangue, a giz,
Sátiras e epigramas nas paredes
Que não vi serem necessárias e vós vedes.

Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
-Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
Eis a razão das épi trági-cómicas empresas
Que, sem rumo,
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo...

O que buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.

Que só por me ser vedado
Sair deste meu ser formal e condenado,
Erigi contra os céus o meu imenso Engano
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!

Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
Procurei fugir de mim,
Mas sei que sou meu exclusivo fim."

José Régio


Não fossem começar todos a perguntar pela poesia a que já vos habituei, aqui fica a escolha de hoje.

Um enorme bem haja!

quarta-feira, 11 de março de 2009

Homicídio múltiplo seguido de suicídio.

Tive hoje conhecimento de que na Alemanha um jovem muniu-se de uma arma de fogo e achou bem por termo à vida de 15 pessoas tendo seguidamente cometido o suicídio.

Este tipo de notícias tem, infelizmente, sido cada vez mais frequente.
O crime quase tipicamente americano está a sofrer uma globalização muito indesejável.

É evidente que este tipo de crimes me choca e tenho sérias dificuldades em entender como alguém pode fazer algo deste tipo.
Dir-me-ão que cada pessoa tem os seus motivos...
Pois.

Mas e se...
neste tipo de situações, uma vez que o culminar é sempre o mesmo,
porque não se suicidam primeiro e matam os outros depois??

Ia dar no mesmo e seria bem mais benéfico para a sociedade.
Não acham?

Um enorme bem haja...

terça-feira, 10 de março de 2009

Mil visitas


Só agora notei que este meu/vosso espaço recebeu já mais de 1000 visitas.

O facto nada tem de substancial, é verdade. No entanto gostaria de o assinalar.

Assinalo-o porque no início nunca pensei que alguém tivesse interesse em ler algo que eu tivesse para dizer.

Assinalo-o porque 1000 visitas para muitos de vós são muito poucas mas para mim são sobretudo muito gratificantes.


Obrigado a todos por terem paciência para me aturar.


(Se já estou com estas coisas com 1000 visitas quando o blogue fizer um ano vou chorar baba e ranho.)

Confiança


"A confiança é um acto de fé, e esta dispensa raciocínio."
Carlos Drummond de Andrade



"A vida, para os desconfiados e os temerosos, não é vida, mas uma morte constante."
Juan Vives





Nestes últimos dias fui impelido a debruçar-me sobre o significado da palavra "confiança".

Como não podia deixar de ser fui ao dicionário e encontrei o seguinte:
"ânimo; ousadia; segurança íntima ou convicção do próprio valor;
bom conceito de pessoa estranha; crédito (...)"

Ora bem, sendo esta a definição de "confiança", o que será "confiar"?

No mesmo dicionário (Dicionário da Língua Portuguesa, 8ª edição revista e actualizada da Porto Editora, pág.404) podemos encontrar:
"(...) entregar ou comunicar alguma coisa a alguém sem receio de a perder ou sofrer dano;"


Em suma não posso dizer que tenha encontrado nada de novo.
O conceito está bem inculcado em todos nós e não me parece difícil entender o que é confiar e como se faz.

Tendo em mente esta aparente simplicidade e transpondo-a para algo prático e que conheço bem como por exemplo..... a minha vida, consigo ainda ficar surpreendido com algumas atitudes.

Como já todos pudemos ver, e concerteza concordamos, confiar em alguém implica dar-lhe algum crédito.
Implica que em caso de dúvida a confiança faça pender os braços da balança para um dos lados.
Implica inexoravelmente que não se julgue alguém sem uma justificação forte.
Implica o princípio subjacente ao ideal de justiça da nossa sociedade de que alguém é de facto inocente até prova em contrário.

Confiar implica acreditar em alguém mais do que o natural receio de ser enganado.


Consigo perceber que a confiança tenha limites e que haja casos em que não seja possível dar-se mais crédito a outrem.
No entanto há uma questão de inultrapassável importância:
Quanto maior for a proximidade com a pessoa em quem confiamos, mais cuidado temos de ter quando, por algum motivo, começamos a colocar em causa a confiança dada.

Penso que o passo correcto será sempre tirar qualquer dúvida com o próprio.
Dar-lhe a oportunidade de se explicar.
Dar-lhe a hipótese de restaurar a confiança depositada.

Parece-me razoável... ou não?

Um alerta para as pessoas que se achem muito expeditas:
Quando considerarem que em quem confiam não merece mais e decidirem "ir à volta", tentar fazer investigações de iniciativa própria e fazer tudo sem olhar a meios, certifiquem-se que não o dão a entender à outra pessoa.

É que...
ela pode estar a ser julgada por algo que não fez e ficar aborrecida.

Diria mesmo... ficar fula da vida,
por estarem a desconfiar dela e não terem a coragem de o admitir.

Chegaria a acrescentar...
ficar muito, mas mesmo muito, lixado por, mais uma vez, não lhe darem qualquer benefício de dúvida e estarem a cometer uma, só mais uma, injustiça.


Peço desculpa por estar a ocupar o vosso espaço intelectual com desabafos corriqueiros e evidentemente pessoais, mas tinha mesmo de ser.
Além disso, se não posso aqui, posso onde?

Um enorme bem haja.

Resposta ao desafio


Caro Daniel,

Caso tenhas pensado que me esqueci do teu repto cá estou eu a provar o contrário.

Solicitaste-me que dissesse 9 coisas sobre a minha pessoa, sendo 6 delas verdade e falsas as restantes 3.


Deturpando o objectivo da coisa (peço desculpa mas em minha casa faço destas coisas que não lembra ao Mafarrico) e como compensação pelo tempo que demorei na resposta passo a enumerar nove verdades sobre mim:

- Sou casado

- Não tenho filhos

- Sou reservado

- Sou impulsivo

- Gosto de fazer rir os outros

- Tenho um talento inato para detectar tiques nos outros

- Tenho talento de igual calibre para imitar esses tiques

- Adoro ler

- Detesto hipocrisias e contradições


Continuando na senda da vil deturpação da tua ilustríssima solicitação, não irei pedir a ninguém que continue a corrente, desde já pedindo desculpa por esse facto.


Um abraço.