domingo, 18 de outubro de 2009

Obama Nobel

"Barack Obama é alguém que admiro profundamente, um Homem bem intencionado, correcto, competente e, sem sombra de dúvida no local certo.
Admiro-o tanto que chego a recear que os interesses instalados nos EUA acabem por o tirar do cargo que ocupa, ou pior ainda, do mundo onde vive...
Obama é alguém com um potencial imenso e, quem sabe, daqui a alguns anos poderá vir a ser um Ghandi dos tempos modernos.
O que discordo, então?
Da altura para o laurear. Em nove meses de mandato Obama deu já indicações óptimas do que pretende para a América e, por arrasto, para o resto do mundo. No entanto considero que um prémio Nobel da paz deve distinguir quem tenha objectivamente contribuído para a paz mundial.
O actual presidente dos EUA numa análise pragmática ainda não tem obra terminada nessa matéria. Reconheço-lhe os fortes alicerces mas, na minha óptica, não se inauguram projectos, apenas obras terminadas.
Em suma nada tenho contra Obama, antes tudo a favor. Penso por isso que esta atribuição peca por precoce e, nessa medida, assente no sonho do que por Obama poderá vir a ser feito e não ainda pelo que realizou.
Este conceito está, na minha modesta opinião, errado."


Quando Barack Obama foi eleito presidente dos EUA dei a minha opinião aqui.
Após ter colocado o comentário, que acima transcrevo, num post que defendia a atribuição do Prémio Nobel da Paz a Obama, tive conhecimento da notícia seguinte:


"Terça-feira, 6 de Outubro de 2009 09:52

EUA: Obama adia encontro com Dalai Lama.

Ao contrário do que aconteceu com os seus antecessores, o actual presidente norte-americano Barack Obama não vai encontrar-se com o líder espiritual tibetano Dalai Lama, durante a visita que este dirigente está a realizar a Washington.
De acordo com a informações apuradas pela agência noticiosa Reuters e difundidas pela brasileiro UOL, Obama prefere esperar pelo seu encontro com o presidente chinês Hu Jintao, em Novembro, antes de se reunir com o Dalai Lama. Reunião que poderá ter lugar, possivelmente, em Dezembro."

Quando soube que o Presidente dos EUA não tinha recebido Dalai Lama desconhecia que isso se deveu ao intuito de, antes, se reunir com o Presidente da China, que, por sinal, é chinês.

O facto de Obama não ter recebido o líder espiritual tibetano não é, por si, grave.

O facto de Obama pretender encontrar-se com Hu Jintao não é, por si, grave.

O facto de não receber Dalai Lama para, porventura, poder tirar dividendos junto do Presidente da China desse facto, parece-me lamentável. Na minha óptica trata-se de um trunfo negocial paupérrimo. Não concordo minimamente que, eventualmente, se procure aproximar de um país, mesmo que seja a China, à custa do esquecimento de causas tão essenciais como os Direitos Humanos.

- Oh Jintao, podemos ser amigos? Afinal o Lama foi a Washington e nem recebi o gajo!!

- Claro, Barack... E podes tratar-me por Hu. E olha, gosto tanto de ti que te vou mandar erigir uma estátua!

- A sério?? Onde, Huzinho querido?

- Vai ser nuns planaltos que temos ali a um canto. É uma zona belíssima e não vive lá quase ninguém. Existe espaço e só precisamos deitar abaixo alguns templos que não têm interesse nenhum.

- Mas será que não irá incomodar?

- Tranquilo, Obama. Nesses planaltos é tudo gente pacífica que só se preocupa com meditação e paz.

- PORREIRO!!! Já agora podias pôr uma vitrina na estátua...

- Para quê, Barack?

- Oh pá, num sítio desses, tão pacífico, é que era apropriado colocar o meu Prémio Nobel!!!

- Claro que sim. Entre amigos não há problemas dessa índole.

- Jintao, só mais uma coisa.

- Sim.

- Como se chama essa região? Para poder divulgar ao mundo a tua fantástica homenagem e comprar um animal de estimação oriundo de lá?

- Ah... Claro. A tua estátua ficará no Tibete...

Passando o exagero da brincadeira, continuo a achar que Barack Obama parece ser um homem bom.

E continuo a considerar que foi muito prematuro terem-lhe atribuído o Prémio Nobel da Paz.

Bem hajam.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Intervalo II



"Dai-me um dia branco, um mar de beladona
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.
Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.
Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.

Um dia em que se possa não saber."


Sophia de Mello Breyner Andresen

Fragmentos de Inverno



Nada resulta.
Não há como escapar à armadilha de ser eu mesmo.
Não sou capaz de rir.
Não tenho mais a capacidade de chorar.

Paulatinamente o frio nuclear do rochedo metálico em que me torno esmaga o remanescente calor do que um dia foi um sol incandescente.
Inefavelmente o meu âmago definha com a minha respiração como lúgubre e inexorável metrónomo.

Sempre fui vítima do inconformismo para com a multiplicidade de entidades que me habitam mas com a vinda deste aparentemente perene Inverno nada mais sofro:

Nada mais sinto.

Num destes hojes estive num 8º andar a olhar de cima a realidade que me prende e sufoca, enquanto fumava um cigarro pacificador.
O fumo voava em meu redor como uma materna e acolhedora nuvem.
Quando terminei, atirei o resto moribundo do cigarro com a sua aflita centelha para o abismo do seu eterno descanso.
Voou ziguezagueando até ao fim. Até ao preciso momento em que esbarrou violentamente o negro solo asfaltado.

- Apagou-se... - disse, sorrindo com ironia.

Recebi com mórbido prazer a fresca brisa que me afagava o rosto enquanto olhava a vida lá em baixo, num mundo que estava algures que não ali.
Aquele fugaz mas tremendamente libertador voo estava a tornar-se tão apelativo...

Saí para o elevador.

Não é ainda a hora de abrir as asas.


Vulnerant omnes, ultima necat

Sejam felizes.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Um abraço na Web


O titular do blog Sair das Palavras... deu-me um terno e edificante abraço que exibirei com reconhecimento ali ao lado.
"E o significado dado pelo próprio é: "A imagem lá em cima é um gatafunho meu. Um auto-retrato figurado de como o Gato abraça.
Com dois braços tão grandes tão mas tão grandes, capazes de engolfar o mundo, e um coração que não cabe lá dentro".
O desafio consiste em responder a estas perguntas:

1 - Quem mais gostas de abraçar no presente?
2 - Quem nunca abraçarias?
3 - Quem davas tudo para poder abraçar?"


O Daniel é alguém que vai enchendo a blogoesfera de carinho e amizade. Sentimentos verdadeiros de alguém genuíno nesta realidade paralela a que chamam virtual.

O reconhecimento que desejo que sinta nada tem de virtual.

Como já, no teu blogue, tive a oportunidade de fazer, pretendo também aqui agradecer-te. Não o abraço da figura, mas a presença, estímulo, carinho e amizade que sempre estás pronto a dar e nem todos prontos a receber.

Obrigado, Daniel.


Tentarei dar, então, resposta ao desafio lançado:

1 - A pessoa que mais gosto de abraçar no presente é o meu pai. É um grande Homem. Amo-o imenso e quanto mais cresço enquanto pessoa mais parecido fico com ele, o que me deixa incomensuravelmente satisfeito. Todos temos defeitos e o meu pai não é excepção, mas ainda bem que assim é. Seria deprimente ter alguém perfeito como exemplo e saber que nunca conseguiria igualar. Além disso a ideia de que se, no evoluir da vida, os seus defeitos passarem a ser os meus não me assusta minimamente. Pelo contrário. Ficaria muito grato por tamanha benesse.


2- Dizer qual a pessoa que nunca abraçaria é um desafio complicado. Bastante mais do que o que parece...
Talvez tivesse muita dificuldade em abraçar quem consciente e propositadamente me tenha causado dor. Não sou rancoroso, notem. No entanto, embora esqueça muitas coisas más, tenho dificuldade em verdadeiramente perdoar algumas delas.


3- Dar tudo para poder abraçar entendo como força de expressão, pelo menos no meu caso.
Quem eu adoraria abraçar e não posso teria de ser, inevitavelmente, Fernando Pessoa.
Seria, para mim, absolutamente delicioso poder com ele trocar ideias e argumentos. Ter o privilégio de trocar correspondência (daquela que já não se usa muito, em papel...) com alguém cujas ideias partilho e sinto tanto seria algo de inanarravelmente impagável.


Penso que cumpri, minimamente, o âmbito do objectivo que me foi proposto, o que, nestes casos, nem sempre faço.


O abraço do Daniel gostaria de o estender apenas, uma vez que primeira e sentidamente já lho retribuí, ao "Sócrates da Silva" do Castelo d'Areia:

Caríssimo amigo, como em privado já tive a oportunidade de to comunicar, tenho por ti imensa estima e não posso deixar passar a oportunidade de te enviar um muito grande, verdadeiramente fraterno e mais que merecido, abraço.


Bem hajam.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Deixem passar o homem invisível


"Eu sou cego, não gosto de ser cego. Eu não pedi a Deus, nem a Nossa Senhora, para ser cego. Eu tenho desgosto de ser cego, eu tenho desprezo de ser cego, é de onde tenho esta raiva, o nojo de ser cego!"


"Só depois os olhos de António começaram a atrofiar, por falta de uso, porque a luz do mundo entrava e não sabia para onde ir..."



"A vida dá trabalho

não é pôr o dedo no cu e cheirar"



"Quem precisa da explicação não merece ouvi-la."



São apenas algumas passagens que me ficaram na retina desta história sobre um cego e a sua vida. (Perdoem-me a piadola óbvia...)

A vida numa aventura. Os obstáculos até ao fim. Esperança. Muita reflexão. Minha também. Uma reviravolta final e o desaguar num mar (rio) que ansiamos com todas as forças que seja benevolente para que uma justa segunda oportunidade tenha lugar. Tudo em Lisboa.

Rui Cardoso Martins é o autor do livro que tem por título o que está no cabeçalho do post e cujo gosto que tive ao ler foi aumentando à medida que diminuia o nº de páginas que faltavam ser lidas.

Obrigado ao Sócrates pela interessante dica.


Bem hajam.




domingo, 27 de setembro de 2009

Legislativas

Está cumprido o dever.

Notei bastante afluência. Tanta que, quando quis introduzir o boletim de voto na urna, ele não quis entrar de tão cheia que estava. Oxalá seja indiciador de que os cidadãos optaram por não renunciar a mostrar a sua opinião.

A reflexão foi o mais fundamentada que me foi possível. Li vários programas de governo (ou eleitorais?) e acabei por depositar a cruz na quadrícula do partido que entendi ser mais merecedor, sem me preocupar com vitórias ou derrotas.
Não embarco nessas campanhas de votos úteis em que nos tentam condicionar a opinião com base em bens maiores ou males menores. O meu voto é sempre útil. É a manifestação do resultado da avaliação que faço de quem governou, dos que desejam governar, e daqueles que pretendem ter mais voz apenas para fazerem mais barulho.

Como gosto de silêncio, optei pelo ruído.
Gosto mais de paradoxos do que de silêncio.

Bem hajam.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Porque não te dou ouvidos, avó?


Há algum tempo decidi que seria muito inteligente da minha parte adquirir "O Processo" de Franz Kafka numa edição "low price". Dado que os livros são, para mim, bem essencial considerei tratar-se de uma boa oportunidade comprar um clássico da literatura e logo por um valor irrisório.

Quando trouxe o livro para casa coloquei-o na lista de espera até que chegasse a sua vez de ser devorado. É algo que acontece com regularidade devido ao facto de ser extremamente impulsivo na compra de livros, e depois tenho-os, literalmente, aos "montinhos" na ordem pela qual os tenciono ler. Esta minha faceta compulsiva já me tem causado alguns dissabores, como neste caso.

Comecei a ler, cheio de vontade, essa obra-prima das letras e logo pensei na minha avó.
E até nem é algo que aconteça amiúde, embore eu goste muito dela.

- "Olha que o barato sai caro!!!", diria a D. Alzira acerca de tudo o que seja demasiado barato.

O busílis reside nesse ponto: demasiado barato.
Só consegui deglutir 50 páginas e mesmo assim foram precisos vários dias de muito bocejo, frustração e maledicência.
O livro está nojentamente traduzido!

As duas cavalgaduras que assinam a sua tradução deviam ter vergonha na cara.
Fiquei com a sensação clara que utilizaram uma versão inglesa da obra e colocoram-na num programa de tradução. Agora imaginem todos aqueles rebuscados floreados tipicamente "british" traduzidos à letra!

- "Ah, e tal, por €4,90 não podias esperar muito..."

Podia. Esperava pelo menos um livro que se conseguisse ler.

Bem hajam.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Amanhã



Amanhã neste espaço colocarei algo magnífico. Hoje não.
Amanhã versarei sobre incontornáveis e profundas questões que a todos farão reflectir de modo incomparável. Não hoje.

Amanhã será o dia de colocar algo no blogue que valha a pena aqui voltar. Hoje nem por isso.
Podem ir e vilipendiar a modorra que me envolve desde segunda-feira que não vos censurarei. Pelo menos hoje...

Amanhã respirarei, pensarei e viverei. Hoje encontro-me suspenso da existência.
Não estou aqui. Desliguei os sentidos e vegeto em piloto automático.

No meu cérebro encontra-se um aviso daqueles que se podem encontrar nas lojas das esquinas da nossa terra onde a D. Augusta avisa não estar, mas em breve voltar.

Amanhã voltarei. A mim.

Nil novi sub sole.

Bem hajam.

domingo, 13 de setembro de 2009

O despertar da visão


Ontem fui ao Porto.
Poderão estar a pensar que, para quem vive tão perto dessa cidade, não fiz nada de transcendente. Terão a vossa razão, mas...
Ontem olhei o Porto.
Estive plenamente na urbe sem hora de chegada ou partida, qual criança admirada com algo que nunca tinha visto ou imaginara ser possível ver num lugar tão distante como o seu quintal.

Ansioso por saber mais sobre cada esquina, delirante por cada novo recanto que descobria, numa terra que só ontem foi dada a conhecer ao mundo. Quero dizer, só ontem o meu mundo a quis para si guardar.

Passei pelos mesmo locais que dezenas de vezes passo mas que nunca tinha visto.
Passeando a pé pela invicta cidade descobri a sua verdadeira beleza, a sua grandiosidade, a sua alma.

Cada monumento, cada edifício, cada aresta.
Cada uma das inúmeras centelhas que só para mim ganharam ontem vida.

" - Parece uma cidade estrangeira!!", cheguei a exclamar, excitado, de tanta novidade.

Para mim era. E por esse motivo fiquei com medo.
Será que abri os olhos onde já estive?
Será que vi, de facto, alguma coisa?
Ou ter-me-ei limitado a voar sobre os lugares e os objectos sem nada ter conhecido?

A napoleónica angústia iniciou a sua invasão sem aviso.
A dúvida acercou-se de mim:
Será que passei a correr e perdi o melhor de tudo o que para trás ficou?
Terei de revisitar todos os locais novamente?
Terei de viver outra vez, desta feita tendo atenção ao básico, não me esquecendo de respirar?
E terei tempo para ver tudo, não novamente, mas de novo???

Vou começar pelo jardim da minha casa porque desconfio que, verdadeiramente, nunca o vi...

Bem hajam.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Tempo (Reposição)



Nasci depois do tempo.
Vim ao mundo numa época a que não pertenço.
Colocaram-me num lugar que me é estranho e ao qual não me adapto porque desconheço as regras deste faz-de-conta.

Tenho saudades das manhãs de "sport" no Grémio.
Dos "shake-hands", dos formalismos e das tipóias reles cheias de pó cinzento.
Sinto falta dos repastos no Ramalhete e no Hotel Central. Das escapadelas até Sintra...
Que nostalgia a lembrança das noites no camarote do S. Carlos...
Lembro as vozes adoçicadas de roliças donzelas com as suas indumentárias espartilhadas.
Os seus sorrisos maliciosos disfarçados por leques de ocasião. Os seus quentes aromas que quebravam o ar sério e fidalgo dos cavalheiros fumadores de charuto...

Quanta circunstância, é facto! Quanto cochicho e troça!!
No entanto... quanta simplicidade... quanta inocência! Quanta vida!!
E que vida...

Tenho saudades do que o tempo me roubou só pelo triste infortúnio...
de nascer depois do tempo.


Reponho um texto que em "tempos" escrevi.
Uma vez que o reli, não resisto a voltar a publicá-lo.
Realmente há dias em que gostaria de ter vivido noutra época.
Paradoxalmente hoje não é um deles. Porque... não.

Bem hajam.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Derrota


Sinto na minha alma o aproximar dos teus passos.
Estremeço paralizado e incapaz de reagir com o temor que a tua vinda traz.
Preciso escapar mas o teu lúgubre arfar roça-me já o peito.
Força... tenho que ter força. Tenho que mover-me e fugir desenfreadamente.
Correr.. tenho que correr...

Mas porque não me mexo? Porque não reagem as pernas??

Chegas-te cada vez mais a mim. O teu fétido hálito inunda-me já de um incomportável vómito.
Tenho medo. Oh, como tenho medo!
Arde-me mais a pele por te saber chegar do que por saber que terei de te acompanhar.
Vem de uma vez, maldita! Nunca mais me alcanças??

Mas porque não me mexo???

Espera. Espera!! Não quero ir...
Não já. Não ainda.
Volta para trás! Recua no teu caminho e na tua resoluta intenção de me levar!!
Ainda não fiz o que devia. Ainda não vi tudo o que me estava destinado.
Ainda não abri os olhos... Sai daqui, por favor!!

Movimento... Uma brisa... O meu âmago estremece.
Estarei a evadir-me? Estarei a escapar??
Estarei cheio de vida novamente?

Terrível miséria. Estou gelado. A brisa é putrefacta.
Consciencializo o motivo do movimento e soluço um indizível choro.
A tua foice arrasta-me pela lama e com ela os restos daquilo que me tornei.

Desisto de lutar.

Até outro dia, Mundo.

Voltarei, talvez, e brilharei mais forte do que nunca. Mais intensamente do que fui desta feita capaz.


Um meu colega de trabalho está a morrer.

Foi-lhe diagnosticado algo que lhe tirará a vida porque o nosso conhecimento não chega ainda para nos livrar da morte sempre que ela se lembra que chegou a nossa vez.

Eu sei-o e ele também.

Hoje visitou a empresa onde trabalho e fiquei absolutamente desolado.
Não consegui dizer-lhe nada de relevante. Basicamente não fui capaz de articular mais do que meia dúzia de palavras.

Todos sabemos que a vida é a prazo. Não nos pertence.
Como imaginamos que a sua validade está onde a vista não alcança abstraímos-nos quase completamente da nossa finitude. Temos o fim traçado mas não anunciado.
Mas...
Como muda a perspectiva quando agendam a hora para o fim do que conhecemos por vida!
Nesta tomada de consciência não há qualquer libertação.

Como gostaria de ter dito o quanto lamento e o quanto desejo que tudo amanhã não fosse mais que uma terrível recordação de um terrífico pesadelo que afinal já passou..

Como gostaria de lhe ter incutido coragem, uma vez que a esperança é também já defunta..

A minha voz prendeu-se e a minha garganta fechou.
De nada fui capaz.


A vida é fodida.


Bem hajam.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A Terra continua a girar

Não tenho por hábito repetir ilustrações das minhas ideias.
O que digo, escrevo ou penso tento não impingir a ninguém através do cansaço da repetição porque para mim se não despertar o interesse ou concordância logo de início não vale a pena insistir.

Talvez seja por isso que raramente discuto, ou falo sequer, de qualquer questão ideológica de base.
Certos princípios de vida são-nos intrínsecos.
Da mesma forma que as minhas convicções profundas são, precisamente pelo seu enraizamento, difíceis de alterar, respeito que o mesmo aconteça a todos e nesse sentido não me sinto no direito de desiquilibrar o mundo de ninguém.

Na minha forma de encarar o mundo a minha atitude traduz o respeito que sinto pela individualidade do outro. A alguns, aqueles para quem viver só faz sentido se tentarem redimir e salvar todos os outros que vivem afogados no oceano da ilusão e do erro, parecerá desinteresse, arrogância ou mania da superioridade.

Enganam-se cabalmente.

Também eu os poderia acusar da arrogância de tomar a sua opinião por tão certa que seja imprescindível trocar os olhos de todos os outros. Também eu os poderia rotular de pseudo-superiores manientos.

Mas não o faço.

Acredito que esse é o seu paradigma por algum motivo e que cada um é como cada qual devido a algo que não consegue controlar. Dessa impossibilidade de moldar até à exaustão todos os pormenores da nossa vivência nasce o respeito que lhes tenho e que a eles por mim falta.

Paradoxalmente esses um dia tomarão para si que a Terra não é quadrada e que no fim do oceano não existe qualquer abismo.

Então partirão à descoberta do Mundo.
Então descobrirão que o Mundo está errado.

Mas, alegria!! Haverá imensas novas almas para converter e salvar...



Bem hajam.

domingo, 6 de setembro de 2009

Aniversário do Muro

Fez ontem, 05 de Setembro, um ano que este blogue começou a sua existência.
Como qualquer bebé de um ano já sabe gatinhar e diz algumas palavras.

Regra geral não gosto muito de celebrar aniversários. Não por qualquer motivo em particular, apenas fico nostálgico nessas datas mas neste caso tal não aconteceu.
Poderá para isso ter contribuído o facto de ontem ter pensado que a data do meu primeiro post seria só daqui a alguns dias? Talvez, não sei. No entanto gostaria de assinalar que inconscientemente escolhi um dia festivo para fazer as alterações ao aspecto do Muro, dessa forma ficando ligadas a algo que melhor lhe suportará a memória.

Não por ser da praxe mas porque desejo, gostaria de agradecer ao meus leitores.
Não são muitos, eu sei, mas sem falsas ideologias prefiro ter poucos e genuínos, que coloquem comentários verdadeiros, interessantes e construtivos em vez de muita gente aqui vir colocar opiniões de circunstância, apenas para mostrar que comentam um blogue conhecido e com isso, quem sabe, conseguir mais algum leitor para a sua própria publicação.
Quando dei vida, a minha vida, a este espaço foi por necessidade interior e não por procura de protagonismo vaidoso. Quando publico é porque há algo em mim que me impele a isso. Mas é evidente que gosto de saber que alguém lê as minhas palavras e nesse sentido também um pouco por todos, eu, a necessidade da vossa opinião e por vós, neste blogosférica santa trindade, este espaço existe.
A vocês, por tudo isso, muito obrigado.

Bem hajam.

sábado, 5 de setembro de 2009

Retoque pequenino (quase nem se vê...)


- LABAREDAS ENORMES!!
- Labaredas?

- SIM, LABAREDAS ENOOORMES!!
- Enormes?

- ESTÁ TUDO ALTERADO!!
- Tudo?

Não mudem de "canal" que só fiz umas pequenas alterações estéticas. Assim, tipo de letra e pouco mais...

Até já...

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Haruki Murakami


Não, não é o Jackie Chan.
Este senhor é Haruki Murakami, escritor japonês natural de Quioto.
Que têm a ver com isso? Se gostam de ler, provavelmente tudo.
Durante muito tempo senti uma raiva mal contida sempre que lia um autor estrangeiro. Adoro ler romances de várias temáticas e influências mas amiúde deparava-me com um problema complexo de índole, para mim, absolutamente incontornável: Aquilo não prestava.
O meu desagrado prendia-se com uma questão bifurcada mas que redundava sempre no mesmo fim: não conseguia ler o livro.
Porquê?
Pelas traduções idiotas que faziam. Era-me penoso e intransponível ler palavras traduzidas à letra e cuja tradução desvirtuava aquilo que parecia ser o óbvio desejo de escrita e transmissão de mensagem por parte do autor. Estou a falar de um trabalho muito pouco profissional, tão pobre que qualquer aluno médio do secundário com hábitos razoáveis de leitura faria incomensuravelmente melhor. Considero vergonhoso que alguém sem qualquer formação em técnicas de tradução consiga perceber que o resultado do trabalho do tradutor não é suficiente para atingir o medíocre.
Outras vezes ocorria que o texto em si era tão execrável que ficava na dúvida se o livro teria passado por fracas mãos ou se seria já uma bosta mal escrita antes de ser passado para português.
De qualquer forma não conseguia continuar a ler e isso causava-me a tal raiva.
O que tem o Haruki a ver com o assunto?
Tudo.
É um escritor fenomenal e está divinamente traduzido.
Assumo sem pejo que não percebo nada de japonês mas ou o Sr. Murakami escreve muito bem, ou a D. Maria João Lourenço é uma tradutora de se lhe tirar o chapéu.
Gosto de romances com o final inequívoco. Nos livros do Haruki (Rukinho, para os amigos) isso nunca acontece porém amei qualquer um dos 6 ou 7 seus livros que já tive a oportunidade de ler.
É uma escrita viciante, desprendida, crua, descritiva q.b. mas sem se tornar maçuda.
O termo que me parece mais acertado será desconcertante.
Regra geral foca a história no trajecto de um personagem onde tudo o que se passa o afecta das formas, por vezes, mais triviais, por mundanas, mas simultâneamente das formas mais profundas, dando-nos a conhecer a alma do sujeito que rapidamente é substituído por nós mesmos e onde tudo o que acontece nos abala inefavelmente.
Os seus livros são uma ode ao indivíduo e a todos os "eus" que estão nele contidos.
É impossível não encontrar numa sua obra algo que não nos faça pensar:
"- É verdade. Claro! Mas porque nunca parei para pensar nisso?"
Apesar de elementos comuns vadiarem por vários dos seu textos nunca terminei um seu livro pensando que tinha desperdiçado o meu tempo. E isto não é muito habitual.
Espero que vos tenha atiçado a curiosidade.
Não recebo comissões, creiam-no, mas é tão recompensador ler as obras do Sr. Murakami que gostaria que sentissem o mesmo...
Caso já o tenham lido façam o favor de deixar opinião!
Bem hajam.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Para ti, Tina


Faz hoje 9 anos que comecei a namorar com a minha mulher.
Entretanto casámos e poder-se-ia pensar que esta data não seria já de comemorar, apenas celebrando o aniversário do matrimónio. No entanto para mim este dia é muito especial. Sem a sua existência tudo o mais não teria jamais acontecido e portanto faz, para mim, todo o sentido recordar o dia da partida desta viagem.
Este post tem como intenção ser um tributo à minha namorada, hoje minha esposa, por todos os momentos que já vivemos e por todos aqueles que sonhamos ainda viver.
Desejo agradecer-te, Tina, por tudo. A parte mais fácil será lembrar as alegrias e os dias felizes, que os houve e há muitos, mas sobretudo quero enaltecer a capacidade que tivemos de ultrapassar os momentos menos bons, aqueles que nos poderiam ter feito derivar o rumo e acabar noutras paragens, com outras vistas e outras vidas.
Quero que saibas que estou reconhecido pela tua capacidade tolerar os meus defeitos (sim, porque eu sei que não sou fácil..), os meus amuos, as minhas (tantas) más disposições, as minhas intolerâncias e todas as "paneleirices" a que sou tão afoito.
A rotina do dia a dia por vezes é a árvore que não deixa ver a floresta, mas tu és todo o meu planeta e hoje quero relembrar-to de forma absolutamente inequívoca.
Obrigado, meu amor.
Amo-te!




segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Simpatia que não mereço...


Só quando regressei de férias me entreguei à sempre desgastante tarefa de abrir a minha caixa de correio electrónico. Há já umas boas 3 semanas que nem o computador ligava...
Verifiquei que a Fada do Bosque do http://oficinadobosque.blogspot.com/ simpaticamente tinha atribuído um título a este meu/nosso espaço.
Naturalmente agradeço a atenção mas com a minha periodicidade de publicação dificilmente posso considerar que alguém me ache viciante... no entanto deixo um absolutamente sincero: Obrigado.
Será suposto que eu eleja 10 blogues que sejam merecedores desta estampa, portanto cá vai a minha escolha:
e...
Sem ter a intenção de ser politicamente correcto havia de facto um sem número mais de blogues aos quais seria absolutamente merecido o título de viciante, basta ver a minha lista de blogues que leio com alguma regularidade. No entanto, estando limitado a 10 deles, elegi aqueles que considero terem uma marca que a todos une e inefavelmente os separa:
Todos eles são únicos e pessoais. Em qualquer um deles se vislumbram lampejos da alma de quem os escreve e isso para mim é admirável. Viciante, até.
Bem hajam.

Acabaram-se as férias

Olá a todos.

Hoje é o meu último dia de férias e estou com a correspondente depressão que terminar as férias e regressar à vida real traz.
Será um motivo modernamente fútil para ficar deprimido... mas não posso desperdiçar a oportunidade! Sei lá quando terei outro motivo!! ;)

Este ano passei as férias em Mallorca, no Arenal, juntamente com esposa e família.
A foto é da zona onde estivemos, embora não seja uma das fotos tiradas por mim ou pelo grupo que me acompanhou.
Ficámos num hotel que não tinha ar condicionado, facto bastante relevante para uma simpática ilha onde a temperatura máxima ronda simpaticamente, em Agosto, os 35ºc e a mínima dificilmente baixa dos 20ºc. Isto permitiu longos e aprazíveis banhos no mediterrâneo com a água a 28-30ºc mas também longas e não tão aprazíveis noites cheio de calor.

Para além das temperaturas elevadas descreveria o mais comum habitante sazonal da zona que escolhemos:
Alto, loiro, alemão e, evidentemente, podre de bêbedo.
Nunca em toda a minha curta vida tinha visto tanta gente alemã e bêbeda junta!!
O meu objectivo de férias é descansar e recarregar baterias num sítio o mais agradável que o dinheiro me permita visitar. O daqueles gajos era beber e cantar como se não houvesse amanhã!!
A princípio confesso que ainda achei uma certa piada mas nos últimos dias já só via a parte degradante do seu modo de "repousar".

Apesar de tudo isto não me estou a queixar do sítio escolhido.
Diverti-me bastante e os aspectos positivos suplantam largamente os negativos (e neste momento já só gostaria de voltar).

Durante a estadia fizemos uma visita à capital, Palma, onde para além de conhecer a cidade na sua generalidade detivémo-nos no seu ex-libris: a Catedral de Palma.
Muito bonita e interessante.

Num outro dia fizemos uma viagem de barco pelo mediterrâneo onde pudemos mergulhar em alto mar e comer paella.
Vimos vários sítios de interesse e observar a ilha do oceano é algo de muito agradável.

Como sugestão final deixaria ainda a visita à loja da Calzedonia onde poderão comprar uns fantásticos calções de banho a € 24,95.

Bem hajam e bom trabalho a todos.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Afinal são três...



"Alegres camponeses, raparigas alegres e ditosas,
Como me amarga n'alma essa alegria!

Nem em criança, ser predestinado,
Alegre eu era assim; no meu brincar,
Nas minhas ilusões da infância, eu punha
O mal da minha predestinação.

Acabemos com esta vida assim!
Acabemos! o modo pouco importa!
Sofrer mais já não posso. Pois verei —
Eu, Fausto — aqueles que não sentem bem
Toda a extensão da felicidade,
Gozá-la?

Ferve a revolta em mim
Contra a causa da vida que me fez
Qual sou. E morrerei e deixarei
Neste inundo isto apenas: uma vida
Só prazer e só gozo, só amor,
Só inconsciência em estéril pensamento
E desprezo [...] Mas eu como entrarei naquela vida?
Eu não nasci para ela."
Fernando Pessoa,
in Primeiro Fausto
Bem hajam.

Elisa candidata ao Porto (via Estrasburgo)


Olá a todos.
Dois posts no mesmo dia... Estou hiperactivo!!
Vou já deitar-me e esperar que passe a vontade de colocar mais alguma posta!

Quem me lê sabe que a política não é o mais comum dos temas acerca do qual publico e prometo que continuará a não ser.

Apesar disso, e na ressaca da eleição que decorreu ontem, não posso deixar de manifestar algo que notei e desejo de forma ardente e libidinosa partilhar convosco.

A Srª Elisa Ferreira, aquela que será a candidata do PS à Câmara Municipal do Porto, a tal que quer ser Presidente da Câmara portuense por amor ao Porto e aos seus habitantes foi ontem uma das eleitas para o Parlamento Europeu.

Isso é que é confiança numa vitória nas autárquicas!

Isso é que é o amor e o respeito pelas pessoas do Porto!


Pronto. Já passou.

Bem hajam.

Europeias 2009



Olá a todos.

Ontem decorreram as votações para a eleição dos representantes portugueses ao Parlamento Europeu.

Não pertenci ao grupo verdadeiramente vencedor das eleições, a abstenção, uma vez que fiz parte dos menos de 40% que exerceram o seu direito de voto.

Inicialmente tinha a ideia de votar em branco, uma vez que nenhum dos partidos me convence muito, mas acabei por dar o meu voto a um partido do contra.

Após o fecho das urnas acompanhei a emissão televisivas com vista a tomar conhecimento do resultado eleitoral. Foi sem dúvida interessante constatar que, com base nas declarações dos representantes partidários, de uma forma ou de outra, todos consideraram ter saído vencedores do escrutínio.

O PSD venceu porque, de facto, ganhou as eleições.

O BE venceu porque teve uma subida fantástica e duplicou (com possibilidade ainda de triplicar) a sua representação em Estrasburgo.

O PCP, desculpem, a CDU venceu porque não perdeu.

O CDS venceu porque conseguiu ganhar não aos seus principais rivais, mas às empresas de sondagens.

O PS também ganhou porque, embora tendo sido derrotados, perderam umas eleições pouco participadas, em condições muito difíceis e que no fundo não lhes interessava para nada. (basta atentar na escolha Kamikaze do candidato, o Avô Cantigas) Além do mais só votaram 40% dos portugueses, todos anti-socialistas e tudo pessoas que não compraram o Magalhães!

O que mais dizer?

Nós por cá todos bem... Sempre.

Bem hajam.

sábado, 6 de junho de 2009

Aparecer dois meses depois não dá direito a título...

Olá a todos.

Parecia que ainda há pouco cá tinha escrito qualquer coisa e só quando cá vim notei que dois meses passaram.

Em todo este tempo que decorreu não senti nunca a vontade de actualizar 0 blogue e vocês que já me vão conhecendo sabem que não faço fretes a ninguém. ( já pareço o Marinho Pinto. Não posso dizer que adore o senhor bastonário mas confesso que foi absolutamente delicioso poder ver a Manuela Moura Guedes ter de fechar a sua boca (lol) e engolir em seco)

Por várias vezes pensei em terminar o blogue mas nunca fui capaz. Senti saudades do que perderia se o fizesse e sabia que algum dia voltaria a vontade de partilhar algo connvosco.

É estranho como ganhamos ligações emocionais com pessoas que nunca vimos. Não sei muito sobre cada um de vós que me lê, no entanto sinto uma gratidão e um carinho por tê-los desse lado que por vezes não consigo conter.

GOSTO DE VOCÊS, PRONTO!

Nada na minha inconstante existência interior mudou e continuo o mesmo incompleto ser de sempre.

Nestes dois meses ocupei o meu tempo com coisas banais e que envolveram pouca actividade cerebral. Os momentos de alguma (e mesmo assim pouca) elevação de espírito resumiram-se aos livros que fui lendo.

Mesmo no campo da leitura não foi uma tarefa fácil. Vários foram os livros começados, mas poucos os terminados.


Amanhã são as eleições para o parlamento europeu e hoje está a chover.
Destas duas saliento a chuva...

Neste preciso instante sinto que passarei a vir cá com mais regularidade mas não o prometo...
Não controlo a minha vontade e já desisti de a dominar.
Passei a voar a favor do vento em vez de lutar contra ele.

Desejo muito sentidamente que tenha vontade e inspiração para voltar nos próximos dias.

A todos vós um sentido beijo e um apertado abraço.
Bem hajam.

sábado, 4 de abril de 2009

Sinal de Vida

Olá a todos.

Estou há tempo a tentar publicar qualquer coisa magnânimo mas nenhuma ideia digna desse nome me visita hoje.

Está a chover lá fora.
As gotas escorrem pela vidraça da janela da mesma forma que escorreriam noutro sítio qualquer: de cima para baixo.

Estamos a chegar à Páscoa (à época e não à ilha, evidentemente).
Noutros anos estaria afoitamente a procurar flores para entregar à minha madrinha, ao que ela retribuiria com um magnífico folar. É um costume desta zona, desconheço se nas vossas áreas de residência existe igual tradição.
Uma vez casado a tradição dá-se por terminada.

Continua a chover. As gotas desempenham perfeitamente o que delas esperamos.
Escorrem.

Nesta semana que hoje termina vi nas notícias um homem a ficar gravemente ferido apenas porque é terrivelmente (para ele) estúpido.
No seu brilhante cérebro surgiu a não menos luminosa ideia de tentar assustar o seu amigo que abastecia o automóvel. Como o fez?
Acendeu um fósforo.
Resultado: O amigo apanhou um susto dos diabos. Ele foi internado com queimaduras graves.
Ao escrever esta palavras não posso deixar de partilhar convosco o que penso:
Se ele pagou com o corpo o facto de ser incomensuravelmente idiota, porque não acontece o mesmo a alguns políticos portugueses??

Chove ainda. Nem vou falar nas gotas porque já enerva falar no assunto.

Logo à noite irei a um jantar de aniversário de uma amiga e irei rever um amigo que veio dos Açores, trabalha na Graciosa, para passar as festas da Páscoa. Quero dizer... Não veio para as festas. Vem para as férias!

Sim ainda cai água do céu e as p#"@$ das gotas ainda escorrem!!

O meu pai, que tem 54 anos, inscreveu-se por estes dias num Centro Novas Oportunidades para concluir o 9º ano de escolaridade e poder ter um computador quase de borla (não, o não é minúsculo Magalhães).
Para lhe atribuam o Certificado que lhe reconheça as competências tem que elaborar uma série de trabalhos, todos eles envolvendo o uso do computador que nunca teve.
Como filho pródigo (e único...) tenho ajudado o meu pai a aprender a trabalhar com um computador. Tem sido magnífico!
Imaginem explicar ao meu querido pai o que é um rato e como funciona, que pode tocar e mexer nele sem receio.
Pedir-lhe para fechar uma janela que não tem interesse e ele responder: "Queres que feche o quê???"
Para além de todo este enternecimento que sinto ao ajudar o meu progenitor fico ainda verdadeiramente tocado ao ler e transcrever para o ecrã as palavras que ele manuscreveu num caderno e que contam toda a sua vida, tudo o que passou, tudo o que sentiu, todas as suas tristezas...

Estou com as lágrimas nos olhos.

O meu pai não teve uma vida fácil, mas é um grande Homem e um pai fenomenal.
Tenho um orgulho inqualificável por tudo o que ele é, por tudo o que teve de ultrapassar, pelo carinho e amizade que sente por mim.

Choro copiosamente baba, ranho e afins.

No texto que escreveu e que conta a sua vida houve uma parte que nunca esquecerei e que tudo farei para que não mude nunca.
O meu pai escreveu:
"O que dizer sobre o meu filho? É o meu orgulho e sem dúvida o meu melhor amigo."

Soluço incontrolavelmente.

Pai, adoro-te!!!

domingo, 22 de março de 2009

Sem destino


Sinto o lúgubre lamento que a treva me trouxe sem que nada lhe pedisse.
A sua sombra gela-me a alma e cega-me a possibilidade de fuga.
Esconder-me. Preciso desesperadamente de me esconder.
Esconder-me como?

Não vejo.
Um só milímetro desta escuridão é mais denso do que toda a minha coragem.
Avançar às cegas é mais desconfortável do que permanecer imóvel.
Deixo-me ficar. Obrigo-me a ficar.

E para onde fugiria eu?
O frio que me invade
é já terrivelmente familiar.
Não se afugentam velhos amigos.

Para onde quer que fosse nunca seria
capaz de escapar de mim mesmo.
Levaria comigo a treva porque ela faz parte
do que sou e eu faço parte dela.
Irmãos.
Um só.

Sei lá eu bem.
Se sou tantos como sei qual deles sou eu?
Se mil vidas habitam a minha história,
novecentas e noventa e nove inexoráveis mortes
me acompanham perenemente.

Uma mais para equilibrar a balança.
Uma mais para que possa renascer e
novamente o desiquilíbrio se iniciar.

Terei mil mortes mas mil e uma vidas.
Todas elas me seguirão.
Todas em um só.
Serei todas elas a todo o tempo.

Pesam-me todas estas vidas.
Esmagam-me todas estas almas.

Porque corre o parvo hamster na sua estúpida roda?
Para quê??

Abro os olhos.
A luz volta com o nascer da manhã.
Os raios solares iluminam e aquecem toda a praia.

Gaivotas barulhentas buscam uma nova refeição.
A primeira deste dia.
Talvez a primeira da vida delas.

São já horas de me mover.
Sacudo a areia e calço as sapatilhas.

Olho em meu redor.
Para onde ir?

Talvez o destino não tenha assim tanta importância.

Recomeço a correr.
Talvez o destino não tenha assim tanta importância.


Até já.


terça-feira, 17 de março de 2009

Tempo


Respondendo à solicitação da Sofia Loureiro dos Santos aqui publico o poema sobre o Tempo que escolhi de um livro de Miguel Torga.
De facto, cara Sofia, não seria possível esperar pela pág. 161...


"Tempo — definição da angústia.
Pudesse ao menos eu agrilhoar-te
Ao coração pulsátil dum poema!
Era o devir eterno em harmonia.
Mas foges das vogais, como a frescura
Da tinta com que escrevo.
Fica apenas a tua negra sombra:
— O passado,
Amargura maior, fotografada.



Tempo...
E não haver nada,
Ninguém,
Uma alma penada
Que estrangule a ampulheta duma vez!



Que realize o crime e a perfeição
De cortar aquele fio movediço
De areia
Que nenhum tecelão
É capaz de tecer na sua teia!"


Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'
Coimbra Editora, Lda.


Um enorme bem haja.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Slumdog Millionaire


O último filme que vi foi o "Slumdog Millionaire", "Quem quer ser Bilionário" na tradução que entenderam fazer e que não percebi porquê. Mas adiante.

Estava com receio de não gostar do filme. Foi muito badalado, andava nas bocas do mundo e tinha ganho imensos Óscares, o que nem sempre é sinónimo de filme que aprecie.

Mereceu cada uma daquelas estatuetas douradas e por mim ganhava mais ainda!

Adorei o argumento aparentemente simples mas que era simplesmente genial.
Não tenho o intuito de revelar grandes pormenores da película uma vez que podem desejar vê-la e se forem como eu não iriam achar grande piada a conhecer partes do filme, no entanto aconselho-o convicto de que irão gostar tanto como eu.
Basicamente é uma história de vida com um concurso como pano de fundo. Cada pergunta um episódio. Cada resposta um reviver de todo o atribulado passado do personagem.
Quem gostar de cinema de consumir e deitar fora pode perfeitamente visionar o filme que não se arrependerá.
Quem gostar de ficar a pensar e decorridos alguns dias lembrar uma vez mais um ou outro aspecto, por vezes elaborando ainda conclusões que lhe tinham escapado, deve também assistir.

Quem aceitar a minha sugestão e não achar a mínima piada... Temos pena!!

Eu adorei.

Um enorme bem haja.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Uma História Verdadeira (de verdadeiro amor)

Recebi um mail de um colega meu sobre a relação entre um pai e o seu filho.
Ao ler o texto fiquei com uma óptima opinião sobre a disponibilidade do senhor para com o seu rebento.

Ao ver o vídeo, com as lágrimas tentando forçar passagem, testemunhei um amor que roça muito de perto o incomparável.

Esta história será até conhecida por vós mas como me tocou bastante não deixo de a publicar.


Um dia o filho pergunta ao pai:
"Papá, vens correr comigo a maratona?" O pai responde que sim, e ambos correm a primeira maratona juntos.
Um outro dia, volta a perguntar ao pai se quer voltar a correr a maratona com ele, ao que o pai responde novamente que sim.
Correm novamente os dois.

Certo dia, o filho pergunta ao pai:
"Papá, queres correr comigo o Ironman?
(O Ironman é o mais difícil...exige nadar 4 km, andar de bicicleta 180 km e correr 42km)
E o pai diz que sim.
Isto é tudo muito simples...até que se vejam estas imagens...
http://www.youtube.com/watch?v=VJMbk9dtpdY

Até já...

quinta-feira, 12 de março de 2009

Poema do Silêncio



"Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.

Foi em meu nome que fiz,
A carvão, a sangue, a giz,
Sátiras e epigramas nas paredes
Que não vi serem necessárias e vós vedes.

Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
-Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
Eis a razão das épi trági-cómicas empresas
Que, sem rumo,
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo...

O que buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.

Que só por me ser vedado
Sair deste meu ser formal e condenado,
Erigi contra os céus o meu imenso Engano
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!

Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
Procurei fugir de mim,
Mas sei que sou meu exclusivo fim."

José Régio


Não fossem começar todos a perguntar pela poesia a que já vos habituei, aqui fica a escolha de hoje.

Um enorme bem haja!

quarta-feira, 11 de março de 2009

Homicídio múltiplo seguido de suicídio.

Tive hoje conhecimento de que na Alemanha um jovem muniu-se de uma arma de fogo e achou bem por termo à vida de 15 pessoas tendo seguidamente cometido o suicídio.

Este tipo de notícias tem, infelizmente, sido cada vez mais frequente.
O crime quase tipicamente americano está a sofrer uma globalização muito indesejável.

É evidente que este tipo de crimes me choca e tenho sérias dificuldades em entender como alguém pode fazer algo deste tipo.
Dir-me-ão que cada pessoa tem os seus motivos...
Pois.

Mas e se...
neste tipo de situações, uma vez que o culminar é sempre o mesmo,
porque não se suicidam primeiro e matam os outros depois??

Ia dar no mesmo e seria bem mais benéfico para a sociedade.
Não acham?

Um enorme bem haja...

terça-feira, 10 de março de 2009

Mil visitas


Só agora notei que este meu/vosso espaço recebeu já mais de 1000 visitas.

O facto nada tem de substancial, é verdade. No entanto gostaria de o assinalar.

Assinalo-o porque no início nunca pensei que alguém tivesse interesse em ler algo que eu tivesse para dizer.

Assinalo-o porque 1000 visitas para muitos de vós são muito poucas mas para mim são sobretudo muito gratificantes.


Obrigado a todos por terem paciência para me aturar.


(Se já estou com estas coisas com 1000 visitas quando o blogue fizer um ano vou chorar baba e ranho.)

Confiança


"A confiança é um acto de fé, e esta dispensa raciocínio."
Carlos Drummond de Andrade



"A vida, para os desconfiados e os temerosos, não é vida, mas uma morte constante."
Juan Vives





Nestes últimos dias fui impelido a debruçar-me sobre o significado da palavra "confiança".

Como não podia deixar de ser fui ao dicionário e encontrei o seguinte:
"ânimo; ousadia; segurança íntima ou convicção do próprio valor;
bom conceito de pessoa estranha; crédito (...)"

Ora bem, sendo esta a definição de "confiança", o que será "confiar"?

No mesmo dicionário (Dicionário da Língua Portuguesa, 8ª edição revista e actualizada da Porto Editora, pág.404) podemos encontrar:
"(...) entregar ou comunicar alguma coisa a alguém sem receio de a perder ou sofrer dano;"


Em suma não posso dizer que tenha encontrado nada de novo.
O conceito está bem inculcado em todos nós e não me parece difícil entender o que é confiar e como se faz.

Tendo em mente esta aparente simplicidade e transpondo-a para algo prático e que conheço bem como por exemplo..... a minha vida, consigo ainda ficar surpreendido com algumas atitudes.

Como já todos pudemos ver, e concerteza concordamos, confiar em alguém implica dar-lhe algum crédito.
Implica que em caso de dúvida a confiança faça pender os braços da balança para um dos lados.
Implica inexoravelmente que não se julgue alguém sem uma justificação forte.
Implica o princípio subjacente ao ideal de justiça da nossa sociedade de que alguém é de facto inocente até prova em contrário.

Confiar implica acreditar em alguém mais do que o natural receio de ser enganado.


Consigo perceber que a confiança tenha limites e que haja casos em que não seja possível dar-se mais crédito a outrem.
No entanto há uma questão de inultrapassável importância:
Quanto maior for a proximidade com a pessoa em quem confiamos, mais cuidado temos de ter quando, por algum motivo, começamos a colocar em causa a confiança dada.

Penso que o passo correcto será sempre tirar qualquer dúvida com o próprio.
Dar-lhe a oportunidade de se explicar.
Dar-lhe a hipótese de restaurar a confiança depositada.

Parece-me razoável... ou não?

Um alerta para as pessoas que se achem muito expeditas:
Quando considerarem que em quem confiam não merece mais e decidirem "ir à volta", tentar fazer investigações de iniciativa própria e fazer tudo sem olhar a meios, certifiquem-se que não o dão a entender à outra pessoa.

É que...
ela pode estar a ser julgada por algo que não fez e ficar aborrecida.

Diria mesmo... ficar fula da vida,
por estarem a desconfiar dela e não terem a coragem de o admitir.

Chegaria a acrescentar...
ficar muito, mas mesmo muito, lixado por, mais uma vez, não lhe darem qualquer benefício de dúvida e estarem a cometer uma, só mais uma, injustiça.


Peço desculpa por estar a ocupar o vosso espaço intelectual com desabafos corriqueiros e evidentemente pessoais, mas tinha mesmo de ser.
Além disso, se não posso aqui, posso onde?

Um enorme bem haja.

Resposta ao desafio


Caro Daniel,

Caso tenhas pensado que me esqueci do teu repto cá estou eu a provar o contrário.

Solicitaste-me que dissesse 9 coisas sobre a minha pessoa, sendo 6 delas verdade e falsas as restantes 3.


Deturpando o objectivo da coisa (peço desculpa mas em minha casa faço destas coisas que não lembra ao Mafarrico) e como compensação pelo tempo que demorei na resposta passo a enumerar nove verdades sobre mim:

- Sou casado

- Não tenho filhos

- Sou reservado

- Sou impulsivo

- Gosto de fazer rir os outros

- Tenho um talento inato para detectar tiques nos outros

- Tenho talento de igual calibre para imitar esses tiques

- Adoro ler

- Detesto hipocrisias e contradições


Continuando na senda da vil deturpação da tua ilustríssima solicitação, não irei pedir a ninguém que continue a corrente, desde já pedindo desculpa por esse facto.


Um abraço.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Passagem das Horas





"Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

(...)

Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei...
Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos...
Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti,
Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir
E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.

A certos momentos do dia recordo tudo isto e apavoro-me,
Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge,
Desta entrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso,
Desta turbulência tranquila de sensações desencontradas,
Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada,
Deste desassossego no fundo de todos os cálices,
Desta angústia no fundo de todos os prazeres,
Desta sociedade antecipada na asa de todas as chávenas,
Deste jogo de cartas fastiento entre o Cabo da Boa Esperança e as Canárias.

Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
Consanguinidade com o mistério das coisas, choque
Aos contactos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
Ou se há outra significação para isto mais cómoda e feliz.

Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.

Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços,
É preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas...
Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro,
Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca...
Que há de ser de mim? Que há de ser de mim?

Correram o bobo a chicote do palácio, sem razão,
Fizeram o mendigo levantar-se do degrau onde caíra.
Bateram na criança abandonada e tiraram-lhe o pão das mãos.
Oh mágoa imensa do mundo, o que falta é agir...
Tão decadente, tão decadente, tão decadente...
Só estou bem quando ouço música, e nem então.
Jardins do século dezoito antes de 89,
Onde estais vós, que eu quero chorar de qualquer maneira?

Como um bálsamo que não consola senão pela ideia de que é um bálsamo,
A tarde de hoje e de todos os dias pouco a pouco, monótona, cai.
Acenderam as luzes, cai a noite, a vida substitui-se.
Seja de que maneira for, é preciso continuar a viver.
Arde-me a alma como se fosse uma mão, fisicamente.
Estou no caminho de todos e esbarram comigo.
Minha quinta na província,
Haver menos que um comboio, uma diligência e a decisão de partir entre mim e ti.
Assim fico, fico... Eu sou o que sempre quer partir,
E fica sempre, fica sempre, fica sempre,
Até à morte fica, mesmo que parta, fica, fica, fica...

Torna-me humano, ó noite, torna-me fraterno e solícito.
Só humanitariamente é que se pode viver.
Só amando os homens, as acções, a banalidade dos trabalhos,
Só assim – ai de mim! -, só assim se pode viver.
Só assim, ó noite, e eu nunca poderei ser assim!

Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo,
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco – não sei qual – e eu sofri.
Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse.
Amei e odiei como toda gente,
Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo,
E para mim foi sempre a excepção, o choque, a válvula, o espasmo.

(...)

Não sei sentir, não sei ser humano, conviver
De dentro da alma triste com os homens meus irmãos na terra.
Não sei ser útil mesmo sentindo, ser prático, ser quotidiano, nítido,
Ter um lugar na vida, ter um destino entre os homens,
Ter uma obra, uma força, uma vontade, uma horta,
Unia razão para descansar, uma necessidade de me distrair,
Uma cousa vinda directamente da natureza para mim.

(...)

Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.

Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,
Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,
Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,
Seja uma flor ou uma ideia abstracta,
Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.
E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.
São-me simpáticos os homens superiores porque são superiores,
E são-me simpáticos os homens inferiores porque são superiores também,
Porque ser inferior é diferente de ser superior,
E por isso é uma superioridade a certos momentos de visão.
Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de carácter,
E simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidades,
E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles,
E há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens.
Sim, como sou rei absoluto na minha simpatia,
Basta que ela exista para que tenha razão de ser.
Estreito ao meu peito arfante, num abraço comovido,
(No mesmo abraço comovido)
O homem que dá a camisa ao pobre que desconhece,
O soldado que morre pela pátria sem saber o que é pátria,
E o matricida, o fratricida, o incestuoso, o violador de crianças,
O ladrão de estradas, o salteador dos mares,
O gatuno de carteiras, a sombra que espera nas vielas —Todos são a minha amante predilecta pelo menos um momento na vida.

Beijo na boca todas as prostitutas,
Beijo sobre os olhos todos os souteneurs,
A minha passividade jaz aos pés de todos os assassinos
E a minha capa à espanhola esconde a retirada a todos os ladrões.
Tudo é a razão de ser da minha vida.

(...)

Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-me,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.
(...)

Fui para a cama com todos os sentimentos,
Fui souteneur de todas ás emoções,
Pagaram-me bebidas todos os acasos das sensações,
Troquei olhares com todos os motivos de agir,
Estive mão em mão com todos os impulsos para partir,
Febre imensa das horas!
Angústia da forja das emoções!
Raiva, espuma, a imensidão que não cabe no meu lenço,
A cadela a uivar de noite,
O tanque da quinta a passear à roda da minha insónia,
O bosque como foi à tarde, quando lá passeamos, a rosa,
A madeixa indiferente, o musgo, os pinheiros,
Toda a raiva de não conter isto tudo, de não deter isto tudo,
Ó fome abstracta das coisas, cio impotente dos momentos,
Orgia intelectual de sentir a vida!

(...)

Dói-me a imaginação não sei como, mas é ela que dói,
Declina dentro de mim o sol no alto do céu.
Começa a tender a entardecer no azul e nos meus nervos.
Vamos ó cavalgada, quem mais me consegues tornar?
Eu que, veloz, voraz, comilão da energia abstracta,
Queria comer, beber, esfolar e arranhar o mundo,
Eu, que só me contentaria com calcar o universo aos pés,
Calcar, calcar, calcar até não sentir.
Eu, sinto que ficou fora do que imaginei tudo o que quis,
Que embora eu quisesse tudo, tudo me faltou."


Álvaro de Campos, 22-5-1916



Existem textos que não sendo escritos por nós transcrevem de forma inexplicávelmente clara o que nunca conseguiriamos dizer por palavras nossas.

Hoje é assim que me sinto.
Bom fim de semana a todos.


Até já.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Um daqueles dias


Hoje tive um daqueles dias.
Hoje tive um daqueles dias insuportáveis e intermináveis.

Mas cá estou.

A minha presença diante de vós significa a negação das minhas palavras.
A minha presença diante de vós significa que suportei o dia e que este terminou.

Venha outro que este já foi e enquanto me prostro diante de tão nobre audiência folgaram já as dores que o dito dia me infligiu.

Nada de grave, portanto.


Partilho ainda convosco um poema que há muito pouco revi e não resisto a publicar:

"A minha sombra sou eu,
ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo a luz,
sombra atrelada ao que eu nasci,
distância imutável de minha sombra a mim,
toco-me e não me atinjo,
só sei do que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me
e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e não que me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim!"


Almada Negreiros


Até já!

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

União entre pessoas do mesmo sexo


Vi ontem parte do programa "Prós e Contras" cujo tema foi o reconhecimento legal da união entre pessoas do mesmo sexo.
Senti uma certa resistência em assistir ao programa porque as discussões deste tipo facilmente partem para "peixeiradas" e insultos, coisas que não me agradam de forma alguma.

Vencendo a minha relutância em dar a opinião sobre o assunto irei nas próximas linhas tecer algumas considerações sobre o tema e sobre o que vi no programa em causa.
Como habitualmente havia em cena os dois lados da questão: aqueles que defendiam o reconhecimento legal da união entre pessoas do mesmo sexo e os outros estavam contra.
Ambos os "lados" esgrimiram argumentos da forma que lhes pareceu a mais correcta no sentido de defender o seu ponto de vista.

As matérias que os defensores do "Sim" consideraram mais importantes foram de um âmbito muito prático mas simultaneamente muito humano. Falaram da possibilidade de verem reconhecido um direito que lhes é vedado com base apenas na discriminação da sua sexualidade. Gostariam que a lei consagrasse coisas tão simples, mais ao mesmo tempo tão importantes, como o direito de visitar o seu companheiro num hospital; o direito de, após toda uma vida em conjunto, poderem ter acesso legal e sucessório, aos bens dos seus "cônjuges", etc.
Não tendo por objectivo dissecar todas as reivindicações destes diria apenas que os homossexuais desejam a igualdade legal de tratamento no que toca aos mais variados pressupostos de uma união de tipo matrimonial.

No lado oposto os argumentos enunciados foram, na minha opinião, de um âmbito mais vago, mais subjectivo. Quase que me pareceu ler nas entrelinhas que não importava o motivo, desde que tal coisa não fosse aprovada. Estava patente nas suas palavras o preconceito e, não o entendam como prerrogativa minha para defender um ponto de vista, a ausência de justificações válidas, plausíveis e concretas.
Uma das atoardas que ouvi foi a falta de relevância social que esta ambição dos homossexuais tem e, como tal, não caberia ao legislador prever este tipo de coisas na Lei, que não cabe ao Estado legislar sobre tudo (Ai não??). Parece-me evidente, ainda para mais neste nosso rico país, que os legisladores não criam leis apenas com base na sua relevância social (antes o fizessem...), não tendo por isso qualquer sentido terem-na invocado. Não deverá ser um muito difícil exercício de memória recordar umas quantas Leis que interessam a muito poucos, logo não me soa nada lógico esperar que o Estado legisle apenas para a maioria ou que faça de conta que certas questões não existem.
Outra barbaridade que ouvi, da boca de um Padre convidado, foi que da mesma forma que o casamento incestuoso não é possível ser consagrado na Lei também a união entre pessoas do mesmo sexo não deve o deverá ser. Não tendo a mínima intenção de envolver a religião nesta discussão parece-me absurdo que alguém seja capaz de estabelecer comparações desta pseudo simplicidade idiota e ofensiva...
Um outro argumento mais que traduz a natureza das justificações do lado do "Não" foi o de que existem poucos países a prever este tipo de situações nos seu normativos e que Portugal não deveria ser pioneiro. Se isto não é mais uma mão cheia de nada, não sei o que será! Quando a escravatura e a pena de morte foram abolidas também no início eram poucos os aderentes!
Quando (finalmente!) decidiram que as mulheres lá teriam direito a votar foi um escândalo! Quando reconheceram a união entre pessoas de cor diferente era o fim do mundo que aí vinha..

E hoje em dia, meus senhores?

Resumindo, gostaria apenas de dizer que, pessoalmente, não vejo o mais pequeno inconveniente para a minha cidadania ou para a minha heterossexualidade no reconhecimento legal da união entre pessoas com o mesmo sexo.

Como alguém disse no decorrer do programa de ontem, um homossexual pode ter o mais alto papel na nossa sociedade. Pode ser juiz e garantir a aplicação das leis; pode ser médico e ter a responsabilidade de uma vida nas suas mãos; pode até ser político e ter os destinos de toda uma nação a seu cargo.

Só não pode ter uma união legalmente reconhecida...


Até já.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A minha Primavera


"Hoje corri todos os jardins da terra
e estou ao pé de ti de mãos vazias meu amor,
os jardins só respiram esse fulgor desnudado
a rutilar caligrafias mesmo no centro da pedra.

Amanhã voltarei a correr todos os jardins
ao ritmo quase imóvel de um segredo,
num murmúrio que preserve o alento
para mergulhá-lo numa boca de mulher.

Hei-de correr todos os jardins sagrados
que habitam subtis e espessos labirintos,
e encontrar os vocábulos das pétalas da rosa
que unem o interdito ao centro das palavras.

E é como se as rosas nascessem dos dedos
como uma raiz imitando os frutos meu amor."


João Rasteiro

O regresso...


"Sofremos muito com o pouco que nos falta e gozamos pouco o muito que temos"


William Shakespeare


Meus fiéis e queridos leitores,


gostaria de agradecer a vossa persistência nas visitas ao meu blogue quando a periodicidade das minhas publicações tem sido inexistente. Fico-vos sinceramente grato e reconhecido.

Atravessei uma fase de alheamento pessoal em que vir cá colocar qualquer coisita que valesse a pena ser lida teria sido um sacrifício e teria-o feito por obrigação e não por vontade. Todos os que me lêm merecem o melhor de mim. Foi, pois, no meu entender preferível nada escrever do que cá "chapar" qualquer coisa para que se entretivessem e comentassem.

Foi por necessidade pessoal de me afastar que cá não vim, não tenhamos a mais microscópica dúvida. No entanto penso ter sido incomensuravelmente mais honesto da minha parte ter-vos obrigado a visitarem-me em vão do que estar aqui sem o querer.

Retemperei o espírito e a vontade de gritar o que na minha alma pulula.

Muito obrigado por estarem desse lado. Mesmo.

Por cá irei estar também.

Até já!!!!