segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Mistério do Mundo


"Ah, não poder tirar de mim os olhos,
Os olhos da minha alma [...]
(Disso a que alma eu chamo)
Só sei de duas coisas, nelas absorto
Profundamente: eu e o universo,
O universo e o mistério e eu sentindo
O universo e o mistério, apagados
Humanidade, vida, amor, riqueza.

Oh vulgar, oh feliz! Quem sonha mais,
Eu ou tu? Tu que vives inconsciente,
Ignorando este horror que é existir,
Ser, perante o [profundo] pensamento
Que o não resolve em compreensão, tu
Ou eu, que analisando e discorrendo
E penetrando [...] nas essências,
Cada vez sinto mais desordenado
Meu pensamento louco e sucumbido.
Cada vez sinto mais como se eu,
Sonhando menos, consciência alerta
Fosse apenas sonhando mais profundo."

(Fernando Pessoa in Primeiro Fausto)

Por diversas vezes no escuro da noite, naquele período em que não adormecendo só pensamos em coisas supostamente idiotas, dei por mim a pensar sobre a questão abordada neste excerto que aqui coloco da poesia de Fernando Pessoa.

Estou certo que, tal como eu, conhecem daqueles seres humanos simples. Entidades que se limitam ao mais básico da existência. Homens e mulheres cujas preocupações não ultrapassam a necessidade diária de alimento, sono e afins.
Essas pessoas que aparentemente não se pensam, não se questionam, não divagam, são mesmo assim?
É falta de capacidade de se abstrair do mundano ou simplesmente não se interessam por nada mais?
Não estou a elaborar uma crítica, apenas quero partilhar a dúvida.

Aos meus olhos são limitados porque não vislumbram sequer o que consigo sem dificuldade ver.

Aos olhos deles eu sou um tolo que só me lembro de coisas que não interessam a ninguém.

Talvez... mas tenho tanta dificuldade em imaginar viver sem o abstracto como eles sem o real.
A única diferença é que para mim o abstracto é real e a realidade apenas mundana e quase animalesca é demasiado abstracta e inalcançável.

Mas quem é mais feliz?

O que por pensar e viajar por vezes encontra sofrimento ou aquele que, por falta de apetência ou capacidade, nunca sai do seu casulo?
Não consigo quantificar a felicidade. Nem consigo defini-la como ente substancial e perene uma vez que a considero casuística.
Acredito no seguinte:
É uma vivência muito mais rica aquela que tem densidade. E todas as pedras que aparecem no meu caminho servem para me construir.
A dor que vem com a construção do meu abstracto e talvez idiótico ser é mil vezes mais reconfortante e edificante que a tranquilidade oca de nunca nada sofrer por em nada pensar.

É o que dá estar tanto tempo sem internet....

Até já!!

6 comentários:

Socrates daSilva disse...

Excelente e sentida reflexão!
É bom ver como, além de citares a outros, também deixas que vejamos, com palavras tuas, o mundo por detrás do teu muro.
As questões - muito bem colocadas - são essenciais e certeiras.

Abraço!

sonhos/pesadelos disse...

mas que bem... finalmente a partilhar ideias tuas,e quem fala assim não é gago!eu sou do tipo que prefere viver e quem sabe até sofrer a simplesmente não sentir por medo do que pode vir. isto aplica-se a tudo, com tanto que podemos pensar, indagar, questionar e apreciar, é um desperdício de vida quem não faz usufruto disso mesmo.
bjs endiabrados

Ferreira-Pinto disse...

Presumo que seja sempre tempo de emendar uma injustiça.
A qual, ao caso, se traduz na ausência de o ler.
Li este seu texto e aqueloutro a propósito da queda dos muros e achei-os notáveis.
Voltarei.

Blondewithaphd disse...

TU és certamente mais feliz!!!!

XS disse...

Muitíssmo bom. Se fôssemos todos como a pobre ceifeira, talvez fosse mais fácil. Às vezes pensar doi imenso...

Anjo Negro disse...

Voltei ...

Fernando Pessoa, é Fernando Pessoa, mas ... Não lhe ficas atrás, a tua escolha de palavras, o que pensas, o que mostraste do teu muro é de valor e vale a pena ler e pensar ...

Sabes, prefiro sofrer e viver, do que não saber os 2 sabores da vida: O da DERROTA e o da VITÓRIA!

Beijos Anjo Negro