terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Estética do Artifício



"A vida prejudica a expressão da vida. Se eu tivesse um grande amor nunca o poderia contar.

Eu próprio não sei se este eu, que vos exponho, por estas coleantes páginas fora, realmente existe ou é apenas um conceito estético e falso que fiz de mim próprio. Sim, é assim. Vivo-me esteticamente em outro. Esculpi a minha vida como a uma estátua de matéria alheia ao meu ser. Às vezes não me reconheço, tão exterior me pus a mim, e tão de modo puramente artístico empreguei a minha consciência de mim próprio. Quem sou por detrás desta irrealidade? Não sei. Devo ser alguém. E se não busco viver, agir, sentir, é - crede-me bem - para não perturbar as linhas feitas da minha personalidade suposta. Quero ser tal qual quis ser e não sou. Se eu cedesse destruir-me-ia. Quero ser uma obra de arte, da alma pelo menos, já que do corpo não posso ser. Por isso me esculpi em calma e alheamento e me pus em estufa, longe dos ares frescos e das luzes francas - onde a minha artificialidade, flor absurda, floresça em afastada beleza."


(Fernando Pessoa)


O que eu gosto de ler este Homem...

Até já.

Momento de relativa boa disposição




Hoje, ao assistir ao noticiário das 13:00H na SIC, ouvi mais uma coisa inqualificável por parte do leitor de teleponto de serviço a quem chamam apresentador ou, ainda mais pomposamente, pivot da informação.

Se aquilo é um pivot, vou ali e volto já.

No decurso da palração sobre um qualquer assunto o indivíduo declarou que a tal dita coisa teve um aumento de 50%, como tal aumentando para o dobro.
Ora, como todos sabemos, se tivermos duas maçãs e aumentarmos o nosso stock de fruta em 50% ficamos com três maçãs.

O pivot do noticiário da SIC fica com quatro. Sorte a dele...

Após me ter engasgado com o bife do meu repasto ao ouvir o Sr. Jornalista lembrei-me que também na SIC, numa fantástica previsão meteorológica, afirmaram que no dia seguinte iriam estar ZERO graus NEGATIVOS.

O que é óptimo. Se fossem zero graus positivos estaria concerteza um tempo muuuito mais quente...


Palavra puxa palavra, e após um jantar de Domingo, muito aprazível, em que este tema veio à baila, comecei a fazer um levantamento das "calinadas" mais habituais que vou ouvindo, seja, ou não, na SIC.

Deixo ao empirismo dos meus caríssimos leitores o desafio de aumentar a lista que se segue:

"Precaridade" em vez de Precariedade
"Runião" em vez de Reunião
"Navoeiro" em vez de Nevoeiro
"Tevisão" em vez de Televisão
"Tefone" em vez de Telefone
"Estório" em vez de Estore
"Salchicha" em vez de Salsicha
"Parteleira" em vez de Prateleira
"Cardeneta" em vez de Caderneta
"Ró X" (sim, já ouvi isto...) em vez de Raio-X
"Bajas" em vez de Vagens
"Pugrama" em vez de Programa
...
...
...


Continuem lá que já não posso mais!


Até já...

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Mistério do Mundo


"Ah, não poder tirar de mim os olhos,
Os olhos da minha alma [...]
(Disso a que alma eu chamo)
Só sei de duas coisas, nelas absorto
Profundamente: eu e o universo,
O universo e o mistério e eu sentindo
O universo e o mistério, apagados
Humanidade, vida, amor, riqueza.

Oh vulgar, oh feliz! Quem sonha mais,
Eu ou tu? Tu que vives inconsciente,
Ignorando este horror que é existir,
Ser, perante o [profundo] pensamento
Que o não resolve em compreensão, tu
Ou eu, que analisando e discorrendo
E penetrando [...] nas essências,
Cada vez sinto mais desordenado
Meu pensamento louco e sucumbido.
Cada vez sinto mais como se eu,
Sonhando menos, consciência alerta
Fosse apenas sonhando mais profundo."

(Fernando Pessoa in Primeiro Fausto)

Por diversas vezes no escuro da noite, naquele período em que não adormecendo só pensamos em coisas supostamente idiotas, dei por mim a pensar sobre a questão abordada neste excerto que aqui coloco da poesia de Fernando Pessoa.

Estou certo que, tal como eu, conhecem daqueles seres humanos simples. Entidades que se limitam ao mais básico da existência. Homens e mulheres cujas preocupações não ultrapassam a necessidade diária de alimento, sono e afins.
Essas pessoas que aparentemente não se pensam, não se questionam, não divagam, são mesmo assim?
É falta de capacidade de se abstrair do mundano ou simplesmente não se interessam por nada mais?
Não estou a elaborar uma crítica, apenas quero partilhar a dúvida.

Aos meus olhos são limitados porque não vislumbram sequer o que consigo sem dificuldade ver.

Aos olhos deles eu sou um tolo que só me lembro de coisas que não interessam a ninguém.

Talvez... mas tenho tanta dificuldade em imaginar viver sem o abstracto como eles sem o real.
A única diferença é que para mim o abstracto é real e a realidade apenas mundana e quase animalesca é demasiado abstracta e inalcançável.

Mas quem é mais feliz?

O que por pensar e viajar por vezes encontra sofrimento ou aquele que, por falta de apetência ou capacidade, nunca sai do seu casulo?
Não consigo quantificar a felicidade. Nem consigo defini-la como ente substancial e perene uma vez que a considero casuística.
Acredito no seguinte:
É uma vivência muito mais rica aquela que tem densidade. E todas as pedras que aparecem no meu caminho servem para me construir.
A dor que vem com a construção do meu abstracto e talvez idiótico ser é mil vezes mais reconfortante e edificante que a tranquilidade oca de nunca nada sofrer por em nada pensar.

É o que dá estar tanto tempo sem internet....

Até já!!

Obrigadinho, "tá"?




Queridos e fiéis amigos,
gostaria de apresentar as minhas desculpas por tão demorada ausência.
Por motivos de força maior fui impedido de me ligar ao mundo durante 10 dias.

É, pois, neste sentimento de profunda consternação, que desejo publicamente deixar os parabéns à rapidez, prontidão, preocupação, dedicação e profissionalismo que a equipa técnica da PT demonstrou ao só me deixar DEZ dias sem telefone e internet.

Poderiam, de facto ter sido 20 ou 30 dias!
Foram só 10...

Muito obrigado por tudo.

Até já! (acho eu...)