quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Nada é meu


" O maior problema do Homem, como das nações, é a independência. Pode ser resolvido?
O que possuo parece meu, mas sou sempre possuído pelo que tenho. A única propriedade indiscutível devia ser o Eu, e, contudo, vendo bem, onde está o resíduo absoluto que não depende de ninguém?
Outros participam, ausentes ou presentes, da nossa vida interior e exterior. Não há forma de se salvar. Mesmo na solidão perfeita, sinto-me, com espanto, átomo de um monte, célula de uma colónia, gota de um mar. Há no meu espírito e na minha carne, a herança dos mortos; o meu pensamento é devedor dos defuntos e dos vivos; a minha conduta é guiada, mesmo contra a minha vontade, por seres que não conheço e que desprezo.
Tudo o que sei aprendi dos outros. Qualquer coisa que adquira é obra de outros, e - que importa que a tenha pago? - sem o operário, sem o artesão, sem o artista, estaria mais nu do que Caliban ou Robinson. Se quero deslocar-me, tenho necessidade de máquinas não fabricadas por mim.
Vejo-me obrigado a falar uma língua que não inventei; e os que vieram antes impõem-me, sem que me aperceba, os seus gostos, os seus sentimentos, os seus preconceitos.
Se desmonto o meu Eu peça a peça, encontro sempre fragmentos que procedem de fora; podia apor, em cada um, uma etiqueta de origem: Isto é de minha mãe, isto do meu primeiro amigo, isto de Emerson, isto de Rousseau, isto de Stirner. Se realizo a fundo o inventário das apropriações, o Eu converte-se numa forma vazia, numa palavra sem sentido próprio.
Pertenço a uma classe, a um povo, a uma raça; não consigo evadir-me, faça o que fizer, de certos limites que não foram traçados por mim. Cada ideia é um eco; cada acto um plágio. Posso tirar os homens da minha presença, mas uma grande parte deles continuará vivendo, invisível, na minha solidão.
Se tenho criados, devo suportá-los e obedecer-lhes; se tenho amigos, tolerá-los e servi-los; e os valores querem ser guardados, cultivados, protegidos, defendidos. Poder equivale a escravidão. Nada, na realidade, me pertence. As poucas alegrias que desfruto devo-as à inspiração e ao trabalho de homens que já não existem ou que nunca vi. Sei o que recebi, mas ignoro quem mo deu. (...)
Onde está, pois, o núcleo profundo e autónomo de que nenhum outro participa, que não foi gerado por nenhum outro e que se possa verdadeiramente chamar meu? Serei, na realidade, um coágulo de dívidas, a molécula escrava de um corpo gigantesco? E a única coisa que acreditamos verdadeiramente nossa - o Eu - talvez seja, como tudo o mais, um simples reflexo, uma alucinação do orgulho."
(Giovanni Papini in Gog)

1 comentário:

sonhos/pesadelos disse...

texto escolhido a dedo, com um conteúdo soberbo.só sei que nada sei,e o que sei aprendi de outros, a unica coisa que possuo minha, serão os sonhos? tb eles sonhados sobre algo que já alguém descobriu?sentiu?escreveu?descreveu?igual ou diferente mas equivalente em emoções...a unica coisa que é mesmo nossa é a alma, e o poder de a iluminar e fazer sorrir, pois sorriso nenhum é igual a outro, como um quadro, uma obra prima que não se consegue cópia fidedigna...brilhante!
bjs endiabrados