quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Pequena derrocada no Muro


Após ler um post absolutamente soberbo no não menos soberbo blogue "Castelo d'Areia" (o link está mesmo aqui ao lado) resolvi cometer o que para mim é uma grande ousadia e, no comentário que lá deixei, destruir parte do muro que me cerca e me serve de defesa.

Se o fiz em casa alheia não encontro motivos, bem pelo contrário, para que aqui não o faça também.

O meu blogue é para onde descarrego o que me vai na alma.
Vocês os meus mais confidentes "contentores" e merecem, já que se dão ao trabalho de me ler, conhecer-me realmente.

Aqui vai:

«Nada era linear e fácil. No fundo sabia o que eu era, mas meticulosamente formei uma linha de defesa contra isso. Não aceitava durante as horas racionais do dia o que no sossego da noite a minha cabeça pensava. Argumentava e esgrimia argumentos comigo próprio. Sentia-me continuamente esmagado pela sensação de culpa e frustração. Não sabia o que decidir senão seguir o que a maioria fazia; enquanto me diluísse na multidão estaria a salvo, pensava eu. Mas, não tinha paz nem verdade»

Meu caro, está a falar de mim?
Claro que não, sei-o.
No entanto não resisto a partilhar consigo parte de mim (uma grande parte!!) apenas recorrendo às suas palavras. Estas, entre quase todas as outras, podiam ter sido pensadas e, sobretudo, sentidas por mim. Foram-no, enquanto as lia.
Acredito que cada pessoa tem um talento. Para alguns, como para o meu amigo (perdoe-me a ousadia...) é sem pejo utilizar as próprias palavras para dizer o que sente. No meu caso é utilizar as palavras dos outros para demonstrar o que cá vai dentro.
Porque o faço? Em primeira análise poder-se-ia pensar que é por preguiça, ou por falta de argúcia, mas tal não corresponde, minimamente, à verdade.
Trata-se de um último obstáculo.
Uma última defesa.
Um último Muro.
No meu sub-consciente algo me assegura que desta forma, em caso de mal-entendidos, como as palavras não são minhas, poderei, com mais ou menos facilidade desviar as atenções e dizer:
A culpa não é minha... Não fui eu que escrevi!!
Posso, ainda que involuntariamente, com este último subterfúgio desviar de mim o que de negativo de mim pensarem.
Apesar de tendencialmente egoístas todos nos preocupamos com o que pensam de nós.
Um abraço.


Até já!

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Contos Pequeníssimos



"esta grandeza de não a ter
é mais pequena que a de não desejar tê-la

e se o preço de participar é grandeza
não contem comigo
não participo
não participo nem contra grandeza

nasci ar
em forma de gente
nasci luz
em forma de gente

não me compreendo
e respiro-me
e vejo-me textual

a forma de gente faz-me agir fora do que nasci ar
fora do que nasci luz

e nasci ar para forma de gente
e nasci luz para forma de gente

nasci antes de mim
antes de forma de gente

era génio antes de nascer
em forma de gente
a forma de gente não me deixa ser o génio que nasci."


(José de Almada Negreiros)


Delicioso!
Digo eu...

Até já...

A primeira vez que entendi



"A primeira vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na infância
cortei o rabo de uma lagartixa
e ele continuou mexendo.

De lá para cá
fui percebendo que as coisas permanecem
vivas e tortas
que o amor não acaba assim
que é difícil extirpar o mal pela raiz.

A segunda vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na adolescência me arrancaram
do lado esquerdo três certezas
e eu tive que seguir em frente.

De lá pra cá
aprendi a achar no escuro o rumo
e sou capaz de decifrar mensagens
seja nas nuvens
ou no grafite de qualquer muro."

(Affonso Romano de Sant'Anna)


Meus queridos e fofinhos leitores:

Também eu, no escuro, encontro o meu rumo.
Não se preocupem.
Estas coisas vão e vêm mas que cá vou continuando!


Até já...

Leitura Natural



Tendo lido os jornais
- infectado a mente, enauseado os olhos -
descubro, lá fora, o azul do mar
e o verde repousante que começa nas samambaias da sala
e recrudesce nas montanhas.

Para que perco tantas horas do dia
nessas leituras necessárias e escarninhas?
Mais valeria, talvez, nas verdes folhas, ler
o que a vida anuncia.

Mas vivo numa época informada e pervertida.
Leio a vida que me imprimem
e só depois
o verde texto que me exprime.

(Affonso Romano de Sant'Anna)

Não podia concordar mais...

Até já...

Exausto



"Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes."

(Adélia Prado)


Não estou assim tão mal.
Mas já dormia...

Até já...

O Alfabeto no Parque



"Eu sei escrever.
Escrevo cartas, bilhetes, lista de compras,
composição escolar narrando o belo passeio
à fazenda da vovó que nunca existiu
porque ela era pobre como Jó.
Mas escrevo também coisas inexplicáveis:
quero ser feliz, isto é amarelo.
E não consigo, isto é dor.
Vai-te de mim, tristeza, sino gago,
pessoas dizendo entre soluços:
“não aguento mais”.
Moro num lugar chamado globo terrestre
onde se chora mais
que o volume das águas denominadas mar,
para onde levam os rios outro tanto de lágrimas.
Aqui se passa fome. Aqui se odeia.
Aqui se é feliz, no meio de invenções miraculosas.
Imagine que uma dita roda-gigante
propicia passeios e vertigens entre
luzes, música, namorados em êxtase.
Como é bom! De um lado os rapazes.
Do outro as moças, eu louca para casar
e dormir com meu marido no quartinho
de uma casa antiga com soalho de tábua.
Não há como não pensar na morte,
entre tantas delícias, querer ser eterno.
Sou alegre e sou triste, meio a meio.
Levas tudo a peito, diz a minha mãe,
dá uma volta, distrai-te, vai ao cinema.
A mãe não sabe, cinema é como diria o avô:
“cinema é gente passando.
Viu uma vez, viu todas”.
Com perdão da palavra, quero cair na vida.
Quero ficar no parque, a voz do cantor açucarando a tarde...
Assim escrevo: tarde. Não a palavra.
A coisa."

(Adélia Prado)
Ainda me encontro na penumbra...
Até já...

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Com um só fósforo ilumino o infinito



"Com um só fósforo ilumino o infinito.
E muitas vezes o infinito é algo
muito próximo, um livro, uma chávena
de chá, o teu rosto escondido
na penumbra, o retrato de alguém desconhecido
que de uma praça, acena,
um fio de tabaco, um monograma
num lenço muito branco.
O infinito o mais das vezes é
não mais do que o que toca o coração,
uma leve poeira pelo ar, um ponto fixo
que a mão ousa tocar, esta chama
que de repente amplia a escuridão
e me torna visível a quem passa
e no clarão acende o seu cigarro."

(Amadeu Baptista)

Hoje sinto-me assim. Com vontade de iluminar algo. Será vontade de me iluminar?
Em caso afirmativo significaria admitir que não estou luminoso.
Estarei sombrio?
A sombra não existe porquanto ela apenas é a falta de algo, mormente de luz.
Assim sendo por que se sente a sombra? Por que se sente algo que não existe por definição própria senão por ausência de algo mais?
Se se sente é porque existe.

Sinto.

Confirma-se.

Estou sombrio.

Seja lá o que isso quer dizer.


Até já...

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Dream


"Qualquer coisa de obscuro permanece
No centro do meu ser. Se me conheço,
É até onde, por fim mal, tropeço
No que de mim em mim de si se esquece.

Aranha absurda que uma teia tece
Feita de solidão e de começo
Fruste, meu ser anónimo confesso
Próprio e em mim mesmo a externa treva desce.

Mas, vinda dos vestígios da distância
Ninguém trouxe ao meu pálio por ter gente
Sob ele, um rasgo de saudade ou ânsia.

Remiu-se o pecador impenitente
À sombra e cisma. Teve a eterna infância,
Em que comigo forma um mesmo ente."

(Fernando Pessoa)
Os meus agradecimentos a quem "cedeu" a imagem...
O título do poema indicou-me o sítio indicado para a "pedir emprestada".
Obrigado.
Até já...

Brasil 6 - 2 Portugal


Na madrugada de ontem para hoje jogou-se um amigável entre as selecções Brasileira e Portuguesa que terminou com o resultado de 6-2.

SEIS a DOIS!

Trata-se do pior resultado de Portugal frente ao Brasil. De sempre.
Aquilo foi o que se chama "ser sodomizado à bruta"!

Nunca gostei muito de Scolari. Sempre achei que a selecção nacional sob o seu comando tinha a obrigação de jogar muito melhor e que o Felipão era mesmo "o burro".

Depois das recentes exibições da equipa lusa + nacionalizados na era Queiroz, fiquei a pensar que provavelmente Luiz Felipe Scolari fez um trabalho incomparável.

Apresento publicamente, e de forma assaz sentida, as minhas desculpas ao nosso ex-seleccionador.

Lá diz a sapiente sabedoria popular:
Atrás de mim virá quem de mim bom fará.

P.S. (Sem conotações políticas...): Relativamente à foto que ilustra este post, gostaria de explicitar que se Queiroz tivesse mais um dedo seria a cereja em cima do bolo... ;)


Até já...







quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Soneto de Amor



"Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma...
Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua..., - unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois... - abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!"

(José Régio)




Elevação da Trofa a Concelho



Hoje comemora-se o "não sei quantos" aniversário da elevação da Trofa a Concelho.

É um facto que não interessará a muitos, reconheço.

Para mim tem significado. Porquê?

Porque habitando nesta cidade posso usufruir do seu feriado municipal e resolver desta forma a falta de tempo que para estas lides que me vem afectando.

Até já.

Nada é meu


" O maior problema do Homem, como das nações, é a independência. Pode ser resolvido?
O que possuo parece meu, mas sou sempre possuído pelo que tenho. A única propriedade indiscutível devia ser o Eu, e, contudo, vendo bem, onde está o resíduo absoluto que não depende de ninguém?
Outros participam, ausentes ou presentes, da nossa vida interior e exterior. Não há forma de se salvar. Mesmo na solidão perfeita, sinto-me, com espanto, átomo de um monte, célula de uma colónia, gota de um mar. Há no meu espírito e na minha carne, a herança dos mortos; o meu pensamento é devedor dos defuntos e dos vivos; a minha conduta é guiada, mesmo contra a minha vontade, por seres que não conheço e que desprezo.
Tudo o que sei aprendi dos outros. Qualquer coisa que adquira é obra de outros, e - que importa que a tenha pago? - sem o operário, sem o artesão, sem o artista, estaria mais nu do que Caliban ou Robinson. Se quero deslocar-me, tenho necessidade de máquinas não fabricadas por mim.
Vejo-me obrigado a falar uma língua que não inventei; e os que vieram antes impõem-me, sem que me aperceba, os seus gostos, os seus sentimentos, os seus preconceitos.
Se desmonto o meu Eu peça a peça, encontro sempre fragmentos que procedem de fora; podia apor, em cada um, uma etiqueta de origem: Isto é de minha mãe, isto do meu primeiro amigo, isto de Emerson, isto de Rousseau, isto de Stirner. Se realizo a fundo o inventário das apropriações, o Eu converte-se numa forma vazia, numa palavra sem sentido próprio.
Pertenço a uma classe, a um povo, a uma raça; não consigo evadir-me, faça o que fizer, de certos limites que não foram traçados por mim. Cada ideia é um eco; cada acto um plágio. Posso tirar os homens da minha presença, mas uma grande parte deles continuará vivendo, invisível, na minha solidão.
Se tenho criados, devo suportá-los e obedecer-lhes; se tenho amigos, tolerá-los e servi-los; e os valores querem ser guardados, cultivados, protegidos, defendidos. Poder equivale a escravidão. Nada, na realidade, me pertence. As poucas alegrias que desfruto devo-as à inspiração e ao trabalho de homens que já não existem ou que nunca vi. Sei o que recebi, mas ignoro quem mo deu. (...)
Onde está, pois, o núcleo profundo e autónomo de que nenhum outro participa, que não foi gerado por nenhum outro e que se possa verdadeiramente chamar meu? Serei, na realidade, um coágulo de dívidas, a molécula escrava de um corpo gigantesco? E a única coisa que acreditamos verdadeiramente nossa - o Eu - talvez seja, como tudo o mais, um simples reflexo, uma alucinação do orgulho."
(Giovanni Papini in Gog)

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Mulher, Casa e Gato



"Uma pedra na cabeça da mulher; e na cabeça
da casa, uma luz violenta.
Anda um peixe comprido pela cabeça do gato.
A mulher senta-se no tempo e a minha melancolia
pensa-a, enquanto
o gato imagina a elevada casa.
Eternamente a mulher da mão passa a mão
pelo gato abstracto,
e a casa e o homem que eu vou ser
são minuto a minuto mais concretos.
A pedra cai na cabeça do gato e o peixe
gira e pára no sorriso
da mulher da luz. Dentro da casa,
o movimento obscuro destas coisas que não encontram
palavras.
Eu próprio caio na mulher, o gato
adormece na palavra, e a mulher toma
a palavra do gato no regaço.
Eu olho, e a mulher é a palavra.
Palavra abstracta que arrefeceu no gato
e agora aquece na carne
concreta da mulher.
A luz ilumina a pedra que está
na cabeça da casa, e o peixe corre cheio
de originalidade por dentro da palavra.
Se toco a mulher toco o gato, e é apaixonante.
Se toco (e é apaixonante)
a mulher, toco a pedra. Toco o gato e a pedra.
Toco a luz, ou a casa, ou o peixe, ou a palavra.
Toco a palavra apaixonante, se toco a mulher
com seu gato, pedra, peixe, luz e casa.
A mulher da palavra. A Palavra.

Deito-me e amo a mulher. E amo
o amor na mulher. E na palavra, o amor.
Amo com o amor do amor,
não só a palavra, mas
cada coisa que invade cada coisa
que invade a palavra.
E penso que sou total no minuto
em que a mulher eternamente
passa a mão da mulher no gato
dentro da casa.

No mundo tão concreto."

(Herberto Helder)

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Ditados Populares


A antiga sabedoria popular chega-nos de tempos já esquecidos com uma actualidade pungente.
Há frases com dezenas (centenas?) de anos que ditas hoje mantêm o sentido e ganham nova vida. Isto tudo sem apagar a nossa identidade nacional que também tarda em ser trocada por outra menos coitadinha, mas enfim isto são já contas de outro rosário...

Com base nas notícias que vou lendo e ouvindo tive conhecimento que o Estado Português nacionalizou o BPN. (e os seus prejuízos, para que sejamos todos a pagar a estupidez de alguns...)

Lá diz o ditado: "Onde todos ajudam nada custa!"


Com base nessas mesmas notícias tive conhecimento que o Estado Português pretende
privatizar a ANA. (e os seus lucros...)

Lá diz o ditado: "Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é burro ou não tem arte!"


Pagamos todos para que apenas alguns ganhem.
Assim se vai pondo o interesse de poucos acima do interesse da maioria...

O Governo dito Socialista de José Sócrates em 2009 vai-se esfarrapar na caça aos votos dos portugueses votantes. Com o meu escusa já de contar.

Lá dizia o Zé: "Queres fiado? Toma!!!"


Até já.

domingo, 9 de novembro de 2008

Enigma



"Rememoro as ausências que não tive
quando o amor a elas obrigava:
foram muitas chegadas sem partida
De comboio avião ou de navio
quantas ‘stações e quantos cais de embarque
quantos aeroportos: um desfile
de bilhetes comprados e viagens.
Estranha comunhão: amor/ausência
irmanavam em tal mesma presença
como se a dor beirasse as alegrias.
Nem sei porquê razões de tantas fugas:
levo as mão ao meu rosto, conto rugas,
mas não recordo agora o que seria."

(António Salvado)

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

A Palavra - Divagação a pedido


"Como podemos nos entender (...),
se nas palavras que digo coloco
o sentido e o valor das coisas
como se encontram dentro de mim;
enquanto quem as escuta
inevitavelmente as assume
com o sentido e o valor
que têm para si, do mundo que tem dentro de si?"

(Luigi Pirandello)


"O que é que há, pois, num nome?
Aquilo a que chamamos rosa,
mesmo com outro nome,
cheiraria igualmente bem"

(William Shakespeare)


"Se soubéssemos quantas e quantas vezes
as nossas palavras são mal interpretadas,
haveria muito mais silêncio neste mundo."

(Oscar Wilde)


"Quais são as tuas palavras essenciais?
As que restam depois de toda a tua agitação e projectos e realizações.
As que esperam que tudo em si se cale para elas se ouvirem.
As que talvez ignores por nunca as teres pensado.
As que podem sobreviver quando o grande silêncio se avizinha."

(Vergílio Ferreira)


"Nenhum de nós sabe o que existe e o que não existe.
Vivemos de palavras.
Vamos até à cova com palavras.
Submetem-nos, subjugam-nos.
Pesam toneladas, têm a espessura de montanhas.
São as palavras que nos contêm,
são as palavras que nos conduzem."

(Raul Brandão)


"Toda a palavra pronunciada é falsa.
Toda a palavra escrita é falsa.
Toda a palavra é falsa.
Mas o que existe sem palavras?"

(Elias Canetti)


"Não importa o que tenhamos a dizer,
existe apenas uma palavra para exprimi-lo,
um único verbo para animá-lo
e um único adjectivo para qualificá-lo."

(Guy Maupassant)


"O mais profundo duma palavra é o que há nela de sagrado.
Deus tê-la-á dessacralizado quando com ela criou o mundo.
Mas nós sacralizamo-la de novo quando o recriamos com ela."

(Vergílio Ferreira)


"As palavras são como lentes que obscurecem tudo o que não ajudam a ver melhor"

(Joseph Joubert)


"Tão pobres somos que as mesmas palavras
nos servem para exprimir a mentira e a verdade."

(Florbela Espanca)


"Não se retém quase nada sem o auxílio das palavras,
e as palavras quase nunca bastam para transmitir precisamente o que se sente."

(Denis Diderot)


"Não se lesa ninguém com simples palavras, mesmo falsas;
basta não acreditar nelas."

(Emmanuel Kant)


"Palavras, palavras, só palavras.
Tem-se acendido fogueiras em nome da caridade,
tem-se guilhotinado em nome da fraternidade.
No teatro das coisas humanas,
o cartaz é quase sempre o contrário da peça"

(Jules Goncourt)


Há já bastante tempo uma amiga lançou-me o desafio de divagar sobre a temática da palavra.
Comecei por pensar na palavra. Qual? Nela mesma.

Dei por mim pensando com palavras sobre palavras mas nunca atingindo a essência das ditas.
Em cima podemos encontrar as palavras de alguém mais capacitado do que eu para sobre elas opinar.
No entanto não encontro mais que um consenso: a subjectividade.

A palavra é o instrumento para pensar e comunicar.
Mas é mentirosa.
Por detrás de cada uma está um conceito.
Por detrás de cada conceito está um contexto.
Por detrás de cada contexto está um ser.
Um ser é demasiado complexo para ousar defini-lo.
Dois seres que comunicam são demasiado complexos para que ambos comunguem de uma só mensagem.

Assim socorremo-nos de uma ferramenta que devido a todas as variáveis intrínsecas à utilização da mesma (e até dela própria, da palavra) poderá não ser suficiente para o objectivo que nos propusemos.

Confuso?
É natural. Estou a articular a ferramenta mentirosa que não transcreve o que penso.
Embora pense através dela.

Até já!





quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Barraca Abana



Barack Obama (Barraca Abana, em Português) será o 44º Presidente dos EUA.

Não posso negar que comungo da ideia de que é o melhor dos candidatos (que concorreram) para tal cargo.

As esperanças do Mundo estão sobre os ombros deste homem.

Parece-me, sem dúvida, peso a mais para uma pessoa só.

Não lhe nego aparente potencial mas convém que não nos esqueçamos que Obama é apenas humano.

Ainda assim que as expectativas de todos não saiam muito defraudadas.

Afinal irá suceder a Bush... não será de todo difícil.

Até já.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

A Carta da Paixão



"Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os seus recessos negros
onde se forma
mas estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se: O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, essa lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a pontada figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheioda luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raizdos braços a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco.
A mudança.
Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas."

(Herberto Helder)
Esta semana está difícil ter tempo para estas andanças.
Com o fim da semana virá o terminar da falta de tempo.
Mil perdões!
Até já.

domingo, 2 de novembro de 2008

Lendo os outros


"Sócrates e a banha da cobra"

"SINTO-ME ENVERGONHADO ao ver o primeiro-ministro do meu país a desempenhar o papel de vendedor de banha da cobra numa cimeira de chefes de Estado e de Governo. De cada vez que a cena passa na televisão [v. aqui], sinto vontade de me enfiar num buraco. A cena revela falta de sentido de Estado, falta de bom senso e falta de vergonha.
Não é verdade que – como ele diz – o computador «Magalhães» seja um produto genuinamente português e, ainda menos, ibero-americano. Mas, mesmo que o fosse, um mínimo de pudor deveria ter impedido o primeiro-ministro de vestir a pele de um vulgar promotor de vendas de um produto comercial que está bem longe da excelência.
Para o engenheiro José Sócrates, a ausência de oposição à altura e de alternativa credível, em Portugal, convenceu-o de que tudo lhe é permitido aquém e além-mar – por cá, na Europa e na América Latina – sem medo de que o ridículo dê cabo dele.
De facto, não há situação mais lamentável do que aquela em que se encontra o PSD. Num país de comentadores «politicamente correctos», ainda não apareceu quem tenha coragem de apontar a dedo as medíocres prestações políticas da doutora Manuela Ferreira Leite, fazendo como o miúdo daquela velha história d’ «O Rei vai nu».
No fundo, o engenheiro Sócrates é como o computador «Magalhães»: está longe da excelência e não é genuíno, mas podem atirá-lo ao chão que ele nunca se parte."

(Alfredo Barroso) in Sorumbático


Por concordar com a visão de Alfredo Barroso acerca do impudor de José Sócrates não podia deixar de a partilhar connvosco. Ele há políticos descarados, mas o primeiro ministro português abusa. Digo eu!
Até já.