domingo, 5 de outubro de 2008

Os ombros suportam o mundo

"Os ombros suportam o mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação."

(Carlos Drummond de Andrade)

4 comentários:

Carol disse...

E como ele pesa neste momento...

_E se eu fosse puta...Tu lias?_ disse...

Sarava!


Grande poeta!


beijinhosssss

Tiago R Cardoso disse...

cada vez é mais pesado, algumas vezes achamos que no esmagará.

Agulheta disse...

André. Nada mais real nos tempos de hoje este poema,cai lindamente no actual.
Agradeço visita,abraço