quarta-feira, 24 de setembro de 2008

O que há em mim é sobretudo cansaço

"O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço..."

Álvaro de Campos

5 comentários:

Tiago R Cardoso disse...

toda a razão, sem duvida.

Muito bem escolhido outra vez.

antonio - o implume disse...

Reconheço, por vezes sinto um cansaço assim, mas sem estas palavras...

Ferreira-Pinto disse...

Nada como um Álvaro de Campos a esta hora para me revigorar a mente, mesmo que cansada!

Carol disse...

E como eu me sinto assim...

Muito obrigada pelo poema que me deixaste (se me permites a ousadia do tratamento por tu) lá no meu cantinho. Confesso que conheço pouco da obra de HH, mas cada vez tenho mais vontade de a descobrir.

Joaninha disse...

É lindo!

"Porque eu amo infinitamente o finito,"

compreendo...

beijos e obrigada pela passagem lá no cantinho :)