sábado, 20 de setembro de 2008

Génese da mentira


Após várias tentativas de ler a Bíblia venho publicamente afirmar que desisto.
Como acredito que se deve começar pelo princípio, iniciei a leitura pelo Livro do Génesis.
Nunca consegui chegar ao fim deste "capítulo", quanto mais ao fim do calhamaço inteiro...
Não me considero pessoa de perspicácia inigualável, no entanto encontro no próprio âmago do Génesis tanta aparente parvoíce e contradição que isso me impede de, quer continuar a leitura da história do povo de Israel, quer de considerar a Bíblia mais do que um qualquer romance volumoso e de qualidade duvidosa. Demasiado duro? "Creio" que não.
Neste assombroso capítulo que irá definir o papel da Mulher até aos nossos dias como fraca, traiçoeira e pecadora vejo que logo à partida estamos perante um logro descomunal. Se não vejamos:
Deus, criatura soberba na sua omnipotência, omnisciência e omnipresença, depois de tudo ter criado(se ele tudo criou não percebo onde ele existia; se já existia então não criou tudo; se já existia, quem o criou???) propõe-se criar um determinado ser. Ser esse que, à sua imagem, teria, necessariamente, de sair perfeito. Como Deus até é um gajo porreiro lembrou-se de arranjar uma companheira para a sua criação, feita de uma costela de Adão (porque não do pâncreas?) e também ela à Sua gloriosa imagem. Até aqui já seria de parar, mas como sou obstinado, continuei.
Após criar essa maravilha que é o ser humano o Sr. Deus, para determinar a obediência da sua obra impõe uma proibição, com o correspondente castigo em caso de incumprimento. Como o inocente do Adão foi enganado pela maldosa Eva, pimba! Acabou o paraíso. Rua!!
PAROU TUDO!!!
Se Deus nos quis criar à sua imagem não sabia à partida se tinha conseguido ou não? Teve de se socorrer da ideia brilhante de um teste? Quando o ser humano falhou (terrível Eva...) ainda foi capaz de os castigar? Porquê?
Deus, se é omnipotente e o seu propósito era criar o Homem à sua imagem (perfeita, logo o fruto tinha também de o ser) tinha a obrigação de o ter conseguido. Se não conseguiu então é porque a omnipotência afinal não é assim tão potente. Muita parra e pouca uva...
Deus, se é omnisciente, devia não só saber que a sua obra não era nada daquilo que Ele tinha previsto, como, fruto do Seu falhanço, o Homem não iria passar na porcaria do teste, como devia ainda ter a noção que tinha cometido um erro e portanto a culpa não deveria ser imputada ao elo mais fraco.
Mais... E sobretudo:
Porque raio castigou o Homem???
Pois se foi Ele, Deus Todo Poderoso que não foi capaz de fazer o bom do Adão perfeito, porque carga de água castigou o fruto do seu trabalho (o seu erro) e para (quase) todo o sempre atribuiu a culpa à Mulher?
Parece-me perfeitamente óbvio que quem falhou foi Deus e que por isso é um Deus mau e asqueroso este que erra e põe a culpa nos outros, ao bom estilo do menino mimado que atira a pedra e esconde a mão.
Se isto é assim logo no início, então não vale mesmo a pena ler o resto.
EnFim.
André Couto

6 comentários:

Fa menor disse...

André...

... desculpa desiludir-te mas... acho que não começaste bem!

A Bíblia não é um livro que se comece a ler assim, pelo que achas que é o princípio, nem se entende facilmente como quem lê um qualquer outro livro. Nem pode ser entendido no sentido literal. Nem é um livro científico.

A Bíblia é antes, uma biblioteca, um conjunto de livros, e o Génesis nem foi o primeiro a ser escrito.

Sem entrar em pormenores, acho que deverias começar pelo Novo Testamento, a segunda parte da Bíblia...

Não vou dizer mais nada, agora, até porque não sei como vais aceitar as minhas palavras...

Boa semana

antonio - o implume disse...

André, como dizia Einstein, Deus é subtil, e tu descobristes que não se O vê à luz da razão, e seguramente nunca à luz da cultura dos povos.

Existe um desafio muito para além da leitura de fio a pavio, mas esso só o teu coração o pode fazer.

Mas, acima de tudo nunca desistas de ser sincero.

Carol disse...

Finalmente! Já tinha perdido as esperanças de encontrar alguém que pensasse de uma forma muito semelhante à minha e que não tivesse pejo de o afirmar!

André Couto disse...

O Génesis, apesar de poder não ter sido o primeiro livro a ser escrito, é o início da história relatada na bíblia e portanto faz, para mim, sentido começar por aí. Sendo a Bíblia um conjunto de livros escritos por homens, e ao contrário do que quis que o post transparecesse, tendo já lido várias partes daquilo que chama "biblioteca", posso afirmar que as interpretações do que lá está escrito são tantas quantas as pessoas que a lerem. E as contradições também.

"Não podemos entender a Bíblia no sentido literal."
Concerteza que não. Após inúmeras traduções e alterações ao longo dos séculos nem sequer podemos ter a certeza de que estamos a olhar para o que originalmante foi escrito, quanto mais daí tirar qualquer conclusão, a favor ou contra... Mas mesmo fazendo fé no texto temos ainda a dificuldade de estar a ler e a tentar perceber algo através dos olhos de quem uma prosaica trovoada poderia parecer uma exaltação divina...
Luis Vaz de Camões também narrou, com mais ou menos tropelias, com mais ou menos parábolas, a história dos feitos portugueses nos Lusíadas.Também têm a sua componente histórica. Mas ninguém faz da sua obra um dogma incontestável.
Relativamente ao Novo Testamento ainda me deixa mais reservas. Narra a história de um homem de quatro formas parecidas mas com algumas diferenças. Os quatro Livros do Novo testamento foram escritos muito depois da suposta acção se ter passado. Ainda por cima foram escolhidos aqueles quatro num universo de vários mais que continham visões diversas do que se pode ler Bíblia. Foram escolhidos no concílio de Niceia sob a supervisão de Constantino. Um imperador romano tão católico que decidiu ser baptizado só no leito de morte para assim morrer sem pecado após uma vida de conscientes atrocidades. "Olha para o que digo. Não olhes para o que faço."
O Natal é a 25 de Dezembro sabe porquê?
Porque era um dia de festividade pagã que, por decreto, foi acolhida pelo cristianismo no sentido de que assim mais facilmente este fosse adoptado pelos romanos.
Poderia ir por aí adiante... Mas fico por aqui.
Antes que este post e este comentário sirva para que cataloguem erradamente termino com o seguinte:
Acredito em Deus. Não acredito na Igreja do Homens.

Cumprimentos.

Carol disse...

Mais uma vez, estou completamente de acordo!
Quando me perguntam qual a religião que professo, costumo responder tão somente: "A minha!"

Fa menor disse...

André,
A Bíblia, não sendo um livro cientifico, também não é um livro histórico, muito embora os contenha.
Mas, e pagando na questão do Natal. Ignora-se o dia e a hora do nascimento de Jesus. só no séc IV se começou a celebrar o Natal em 25 de Dezembro por ser, no império romano, o dia em que se celebrava a solenidade do Sol, o astro-rei. Era o "dies Natalis Solis invicti".
É evidente que se tratou de cristianizar uma festa pagã, em que se aponto para JESUS CRISTO, nascido em Belém, como o "Novo e verdadeiro Sol" que veio iluminar a humanidade.
São questões de Fé. Tal como a Bìblia o é - um livro de fé - em que tanto o Antigo como o Novo Testamento foram escritos à volta de um acontecimento fundador, central, daí terem sido escritos muitos anos mais tarde desses acontecimentos, à volta deles, como uma bola de neve, depois de toda uma tradiçaõ oral.
E, assim, só acessível a quem lê com os olhos do coração, ou da Fé, e mesmo assim, muitas vezes, são necessárias outras "muletas".
Por isso, amigos, estamos conversados... que isto não é um curso Bíblico e ainda mais para quem não ousa CRER.
Abraço