terça-feira, 16 de setembro de 2008

Estagnação histórica de tempos modernos

Estamos perdidos há muito tempo...
O país perdeu a inteligência e a consciência moral.
Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada.
Os carácteres corrompidos.
A prática da vida tem por única direcção a conveniência.
Não há princípio que não seja desmentido.
Não há instituição que não seja escarnecida.
Ninguém se respeita.
Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos.
Ninguém crê na honestidade dos homens públicos.
Alguns agiotas felizes exploram.
A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia.
O povo está na miséria.
Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente.
O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.
A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências.
Diz-se por toda a parte: “o país está perdido!
”Algum opositor do actual governo?... Não!»

Eça de Queirós

2 comentários:

Tiago R Cardoso disse...

permita-me os parabéns pela escolha, de uma actualidade cortante...

The scientist disse...

Como não hei-de admirar o Eça?! Um homem sem dúvida à frente no seu tempo.
E que palavras tão acertadas para fazer o retrato dos tempos que correm (ou andam lentamente)... É a desgraça, é a crise, é a miséria dizem por aí... Enquanto esta nação, outrora apelidada de valente, se vai chicoteando e afundando numa depressão colectiva, à espera que numa "sebastionesca" manhã de nevoeiro o sol volte a brilhar, os cofres trasbordem de ouro e que reinventemos um novo caminho marítimo, bem... Parece-me que se assim for apenas podemos meros espectadores da crise à espera que ela passe, desejando que seja uma curta metragem... Questiono-me: será que gostamos mesmo de sofrer? Que espécie de prazer advem de um pensamento tão pequeno?
Eu dou-me por feliz, e não, não me contento com pouco... Simplesmente sinto, e faço-o com todo o goz(t)o, que tiro prazer e alegria nas pequenas coisas. E quando olho à minha volta e ouço certos discursos, penso: "Que infelizes são". Até poderia ensiná-los a ser como eu... Mas, e tempo? Precisam de tempo para viver apaixonadamente a crise, investirem no útimo grito em tecnologia e comprarem um carro novinho em folha melhor que o do vizinho.. Eis os desígnios de tempos modernos!
Comentários algo ásperos estes, tendo o Eça como inspiração.
Bem, fico-me por aqui.. Tenho que ir viver apaixonadamente a vida.

Até e continua...