sábado, 6 de setembro de 2008

Alexandre O' Neill

SENTENÇAS DELIRANTES DUM POETA PARA SI PRÓPRIO EM TEMPO DE CABEÇAS PENSANTES

"1 Não te ataques com os atacadores dos outros.
Deixa a cada sapato a sua marcha e a sua direcção. O mesmo deves fazer com os açaimos.
E com os botões.

2 Não te candidates, nem te demitas. Assiste. Mas não penses que vais rir impunemente a sessão inteira. Em todo o caso fica o mais perto possível da coxia.

3 Tira as rodas ao peixe congelado, mas sempre na tua mão.
Depois, faz um berreiro. Quando tiveres bastante gente à tua volta, descongela a posta e oferece um bocado a cada um.

4 Não te arrimes tanto à ideia de que haverá sempre um caixote com serradura à tua espera. Pode haver. Se houver, melhor...
Esta deve ser a tua filosofia.

5 Tudo tem os seus trâmites, meu filho!Não faças brincos de cerejas sem te darem, primeiro, as orelhas.
Era bom que esta fosse, de facto, a tua filosofia.

6 Perguntas-me o que deves fazer com a pedra que te puseram em cima da cabeça? Não penses no que fazer com. Cuida no que fazer da.
É provável que te sintas logo muito melhor.
Sai, então, de baixo da pedra.

7 Onde houver obras públicas não deponhas a tua obra. Poderias atrapalhar os trabalhos. Os de pedra sobre pedra, entenda-se.
Mas dá sempre um «Bom dia!» ao pessoal do estaleiro. Uma palavra é, às vezes, a melhor argamassa.

8 Deves praticar os jogos de palavras, mas sempre com a modéstia do cientista que enxertou em si mesmo a perna da rã, e que enquanto não coaxa, coxeia. Oxalá o consigas!

9 Tens um glorioso passado futurível, mas não fiques de colher suspensa, que a sopa arrefece.

10 Se tiveres de arranjar um nome para uma personagem de tua criação, nunca escolhas o de Fradique Mendes. A criação literária não frequenta o guarda-roupa, muito menos quando a roupa tem gente dentro.

11 Resume todas estas sentenças delirantes numa única sentença: Um escritor deve poder mostrar sempre a língua portuguesa."

in Poesias Completas, Assírio & ALvim, 2000

1 comentário:

The scientist disse...

Uma subtil espreitadela para la do teu muro fez-me reflectir...
"Deves praticar os jogos de palavras"...E é isto q m encanta, o q as palavras podem fazer (e por vezes tb desfazer.O caminho do autor vai mais além da importância da palavra. mas eu gostava d ficar p aqui... e já agora d ler as tuas reflexões acerca disso. Imagina uma composição na escola primária: "O que eu posso fazer com a palavra".
Para mim, palavra dita ou escrita podem ser perenes ou efemeras.Por isso, enqt podemos e somos capazes podemos voltar a ser crianças e brincar, n com barbies ou action men, mas c palavras. N será essa a forma d no fundo voltarmos a ser crianças,ao mesmo tempo que somos responsavelmente adultos?!
Bem,cm tal devemos dar asas à infância através d blogs e tal e coiso... E já agora, vamos usá-la pa comunicar com os amigos. Pode ser?
Beijinho e continua a blogar*