terça-feira, 30 de setembro de 2008

Nos campos o vilão sem susto passa

"Nos campos o vilão sem susto passa
inquieto na corte o nobre mora;
o que é ser infeliz aquele ignora,
este encontra nas pompas a desgraça;

aquele canta e ri, não se embaraça
com essas coisas vãs que o mundo adora;
este (oh cega ambição!) mil vezes chora,
porque não acha bem que o satisfaça;

aquele dorme em paz no chão deitado,
este no ebúrneo leito precioso nutre,
exaspera velador cuidado,

triste, sai do palácio majestoso.
Se hás-de ser cortesão mas desgraçado,
anter ser camponês e venturoso."

(Bocage)

É, não é?


"Abalar a nação para consolidar o trono;
saber suscitar uma guerra;
foi o conselho de Alcibíades a Péricles"
(Denis Diderot)
Tão mais apropriado seria se o gesto fosse destinado ao senhor que precisa
750 000 000 000 dólares...

É, não é?


"Quanto mais instruído o povo, tanto mais difícil de o governar."
(Textos taoístas)

É, não é?


"O melhor governo é aquele em que há o menor número de homens inúteis."

(Voltaire)

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Orgulhosamente ingovernáveis

"Há nos confins da Ibéria um povo que
nem se governa
nem se deixa governar"

(Júlio César)

Não sei quantas almas tenho

"Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: <>
Deus sabe, porque o escreveu."

(Fernando Pessoa)

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Estorva-me a terra


"Estorva-me a terra por causa do sonho
estorva-me o sonho por causa da terra
eu ando na guerra do sonho com a terra.

Senhores empregados do mundo
tenham santa paciência
vale mais a vida do que a existência"

(Almada Negreiros)

Muito actual. Não acham?

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

O Amor e a Morte


"Canção cruel

Corpo de ânsia.
Eu sonhei que te prostrava,
E te enleava
Aos meus músculos!

Olhos de êxtase,
Eu sonhei que em vós bebia
Melancolia
De há séculos!

Boca sôfrega,
Rosa brava
Eu sonhei que te esfolhava
Pétala a pétala!

Seios rígidos,
Eu sonhei que vos mordia
Até que sentia
Vómitos!

Ventre de mármore,
Eu sonhei que te sugava,
E esgotava
Como a um cálice!

Pernas de estátua,
Eu sonhei que vos abria,
Na fantasia,
Como pórticos!

Pés de sílfide,
Eu sonhei que vos queimava
Na lava
Destas mãos ávidas!

Corpo de ânsia,
Flor de volúpia sem lei!
Não te apagues, sonho! mata-me
Como eu sonhei."

(José Régio)

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

O que há em mim é sobretudo cansaço

"O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço..."

Álvaro de Campos

IGNOTO DEO

"Desisti de saber qual é o Teu nome,
Se tens ou não tens nome que Te demos,
Ou que rosto é que toma, se algum tome,
Teu sopro tão além de quanto vemos.

Desisti de Te amar, por mais que a fome
Do Teu amor nos seja o mais que temos,
E empenhei-me em domar, nem que os não dome,
Meus, por Ti, passionais e vãos extremos.

Chamar-Te amante ou pai... grotesco engano
Que por demais tresanda a gosto humano!
Grotesco engano o dar-te forma! E enfim,
Desisti de Te achar no quer que seja,
De Te dar nome, rosto, culto, ou igreja...

– Tu é que não desistirás de mim!"

José Régio

domingo, 21 de setembro de 2008

Quando eu nasci

"Quando eu nasci,
ficou tudo como estava,
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais…
Somente,esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém…

P’ra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe…"

Sebastião da Gama ou José Régio?

sábado, 20 de setembro de 2008

Génese da mentira


Após várias tentativas de ler a Bíblia venho publicamente afirmar que desisto.
Como acredito que se deve começar pelo princípio, iniciei a leitura pelo Livro do Génesis.
Nunca consegui chegar ao fim deste "capítulo", quanto mais ao fim do calhamaço inteiro...
Não me considero pessoa de perspicácia inigualável, no entanto encontro no próprio âmago do Génesis tanta aparente parvoíce e contradição que isso me impede de, quer continuar a leitura da história do povo de Israel, quer de considerar a Bíblia mais do que um qualquer romance volumoso e de qualidade duvidosa. Demasiado duro? "Creio" que não.
Neste assombroso capítulo que irá definir o papel da Mulher até aos nossos dias como fraca, traiçoeira e pecadora vejo que logo à partida estamos perante um logro descomunal. Se não vejamos:
Deus, criatura soberba na sua omnipotência, omnisciência e omnipresença, depois de tudo ter criado(se ele tudo criou não percebo onde ele existia; se já existia então não criou tudo; se já existia, quem o criou???) propõe-se criar um determinado ser. Ser esse que, à sua imagem, teria, necessariamente, de sair perfeito. Como Deus até é um gajo porreiro lembrou-se de arranjar uma companheira para a sua criação, feita de uma costela de Adão (porque não do pâncreas?) e também ela à Sua gloriosa imagem. Até aqui já seria de parar, mas como sou obstinado, continuei.
Após criar essa maravilha que é o ser humano o Sr. Deus, para determinar a obediência da sua obra impõe uma proibição, com o correspondente castigo em caso de incumprimento. Como o inocente do Adão foi enganado pela maldosa Eva, pimba! Acabou o paraíso. Rua!!
PAROU TUDO!!!
Se Deus nos quis criar à sua imagem não sabia à partida se tinha conseguido ou não? Teve de se socorrer da ideia brilhante de um teste? Quando o ser humano falhou (terrível Eva...) ainda foi capaz de os castigar? Porquê?
Deus, se é omnipotente e o seu propósito era criar o Homem à sua imagem (perfeita, logo o fruto tinha também de o ser) tinha a obrigação de o ter conseguido. Se não conseguiu então é porque a omnipotência afinal não é assim tão potente. Muita parra e pouca uva...
Deus, se é omnisciente, devia não só saber que a sua obra não era nada daquilo que Ele tinha previsto, como, fruto do Seu falhanço, o Homem não iria passar na porcaria do teste, como devia ainda ter a noção que tinha cometido um erro e portanto a culpa não deveria ser imputada ao elo mais fraco.
Mais... E sobretudo:
Porque raio castigou o Homem???
Pois se foi Ele, Deus Todo Poderoso que não foi capaz de fazer o bom do Adão perfeito, porque carga de água castigou o fruto do seu trabalho (o seu erro) e para (quase) todo o sempre atribuiu a culpa à Mulher?
Parece-me perfeitamente óbvio que quem falhou foi Deus e que por isso é um Deus mau e asqueroso este que erra e põe a culpa nos outros, ao bom estilo do menino mimado que atira a pedra e esconde a mão.
Se isto é assim logo no início, então não vale mesmo a pena ler o resto.
EnFim.
André Couto

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Cântico Negro

«"Vem por aqui" --- dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
--- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
--- Sei que não vou por aí.»

José Régio

Deus

"Às vezes sou o Deus que trago em mim
E então eu sou o Deus e o crente e a prece
E a imagem de marfim
Em que esse deus se esquece.
Às vezes não sou mais do que um ateu
Desse deus meu que eu sou quando me exalto.
Olho em mim todo um céu
E é um mero oco céu alto."

Fernando Pessoa

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Estagnação histórica de tempos modernos

Estamos perdidos há muito tempo...
O país perdeu a inteligência e a consciência moral.
Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada.
Os carácteres corrompidos.
A prática da vida tem por única direcção a conveniência.
Não há princípio que não seja desmentido.
Não há instituição que não seja escarnecida.
Ninguém se respeita.
Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos.
Ninguém crê na honestidade dos homens públicos.
Alguns agiotas felizes exploram.
A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia.
O povo está na miséria.
Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente.
O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.
A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências.
Diz-se por toda a parte: “o país está perdido!
”Algum opositor do actual governo?... Não!»

Eça de Queirós

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

A língua Portuguesa é estupenda...

A língua Portuguesa é estupenda e presta-se a estas coisas...

Se o Mário Mata, a Florbela Espanca,
o Jaime Gama e o Jorge Palma, o que é que a Rosa Lobato Faria?
E, já agora: alguém acredita que a Zita Seabra para o António Peres Metello ?

Separação do Corpo

"O corpo tem abóbadas onde soam os
sentidos se tocados de leve ecoando longamente
como memórias de outra vida.
O passado não está ainda pronto para nós,
nem o futuro; é certo que
temos um corpo, mas é um corpo inerte,
feito mais de coisas como esperança e desejo
do que de carne, sangue e nervos,
e desabitado de línguas e de astros
e de noites escuras, e nenhuma beleza o tortura
mas a morte, a dor e a certeza de que
não está aqui nem tem para onde ir.
Lemos de mais e escrevemos de mais,
e afastámo-nos de mais. Pois o preço
era muito alto para o que podíamos pagar.
Do silêncio das línguas. Ficaram estreitas
passagens entre frio e calor
e entre certo e errado
por onde entramos como num quarto de pensão
com um nome suposto. E, quanto a
tragédia, e mesmo quanto a drama moral,
foi o mais que conseguimos.
A beleza do corpo amado é, eu sei,
lixo orgânico; e usura, de novo usura;
com o oiro e com o mármore
dos dias harmoniosos construímos
quartos de banho e balcões de bancos;
e grandes gestos, agora, nem nos romances,
quanto mais nos versos! E de amor
melhor é não falar porque as línguas
tornaram-se objecto de estudo médico
e nenhuma palavra é já suficientemente secreta.
Corpo, corpo, porque me abandonaste?
«Tomai, comei», pois sim, mas quando
a química não chega para adormecer
a que divindades nos acolheremos
senão àquelas últimas do passado soterradas
sob tanta chuva ácida e tanta História,
tanta Psicologia e tanta Antropologia?
A memória, sem o corpo, não cintila nem exalta
e, sem ela, o corpo é incapaz de nudez
e de amor. Agora podemos enfim calar-nos
sem temer a solidão nem a culpa
porque já não há tais palavras."

Manuel António Pina

domingo, 14 de setembro de 2008

Big Brother

"O Ministério da Administração Interna vai rever o regime jurídico da video-vigilância de forma a tornar mais fácil a instalação de câmaras em locais públicos"

Parece que a Comissão Nacional de Protecção de Dados dá às autarquias muitos pareceres negativos à instalação deste tipo de equipamentos. Como estes pareceres têm carácter vinculativo... MUDA-SE A LEI!
É um paradigma nefasto. E perigoso...

Insegurança (outra vez...)

Desta feita foi Jerónimo de Sousa a incluir o tema no discurso de rentrée do PCP, o que parece ter causado algum desconforto ao BE, a julgar pela reacção que se fez sentir através de João Semedo, que terá mesmo considerado que "o PCP colou-se escandalosamente à extrema-direita"

Por vezes fico absolutamente atónito com as notícias que vou lendo.
Então o PCP não se pode preocupar com segurança interna?
Na minha óptica não só pode como deve. Provavelmente o Bloco de Esquerda também deveria! "Digo eu..."

Se ter preocupações com a segurança dos portugueses em geral, e com a das nossas famílias em particular é ser de extrema-direita então eu assumo-me como extremista. E radical!!

Congresso extraordinário do PSD fora de hipótese

Foi excluida pela Direcção do PSD a realização de um congresso extraordinário no início de 2009, como era desejo de Luis Filipe Menezes.

Não dá para entender, pelo menos por mim, como é que há políticos que não têm a noção de quando termina o seu prazo de validade.

Outro congresso para quê?? O Dr. Menezes até tinha prometido que não abria a boca até 2009!!
"Não havia necessidade..."

Eanes recusa rectroactivos

O general Ramalho Eanes, recusou ao Engº. Sócrates a indemnização a que supostamente teria direito por não ter auferido da reforma de General acumulada com o vencimento que recebe na qualidade de ex-presidente da república, devido a uma mudança na lei levada a cabo por Mário Soares.
O Dr. Mário Soares fez, em 1984, uma alteração à lei então em vigor que passou a impossibilitar que ex-presidentes da república acumulem o vencimento que recebem por terem ocupado essa função com outras fontes de rendimento ou reforma provenientes do Estado. Lei essa que em Junho de 2008 foi rectificada, desta feita pelo executivo de Sócrates, devido a suposta insistência de Cavaco Silva nesta matéria e a um parecer do Provedor de Justiça, como se pode ler na edição de ontem do Sol. Com esta nova alteração na lei seria já possível acumular rendimentos.

Sobre a recusa do General Ramalho Eanes não me pronuncio.
Sobre a alegada pressão do Prof. Cavaco Silva para que se voltasse a mexer na lei, também não digo palavra. Cada um que tire as elações que bem entender.

A única questão que me causa um desconforto real é mesmo saber que parte do dinheiro que sem escolha entrego ao Estado em forma de impostos é aplicado em vencimentos e outras regalias a políticos por funções que já não desempenham. Mas o que é isto??
Não me venham, por favor, falar em crise. Pelos vistos o que não falta é dinheiro. Até para dar de mão beijada por "dá cá aquela palha".

Fundação Respublica

O Partido Socialista pretende criar grupo de trabalho com o fim de adaptar a sua agenda política de forma a convencer novo eleitorado, tanto do interior do partido, como do exterior.
O ex-ministro Vera Jardim considera que "O grande debate de esquerda hoje é como manter um Estado social com as novas condições da globalização" e ainda que o PS " precisa fazer essa reflexão interna".
Pois...
Só me faz espécie o seguinte: Não era suposto o PS, na qualidade de partido de esquerda, ter essas ideias sempre (e de génese!) bem presentes? Não seria de esperar que as tivesse posto já em prática ao longo dos três anos que leva neste Governo? Não me digam que o Sr. Engº. Sócrates não esteve atento à "cadeira" de políticas sociais? Só neste momento reparou que as pessoas estavam à espera que um Governos Socialista tivesse uma política de esquerda de cariz social? Deve de facto ter sido uma grande surpresa... Quem diria!
"E o burro sou eu???"
Ou será que são os votos oriundos desse quadrante ideológico que precisa para nova maioria absoluta?
E mesmo com esses, será que lá chega?
Pois...
Já agora refiro que Manuel Alegre, reconhecido por ser um político de esquerda que ainda se lembra o que isso significa, não foi convidado para integrar o grupo de oitenta fundadores da Respublica.
"E o ruim, sou eu???"

sábado, 13 de setembro de 2008

Esplanada

"Naquele tempo falavas muito de pefeição
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu , eu e a discussão.

Agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro de mim.

O café agora é um banco, tu professora de liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas inúteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes."

Manuel António Pina

Escreve-me muitas vezes

"Escreve-me muitas vezes
como os percursos ininterruptos das formigas
o ritmo dos girassóis devolvidos à condição de flor
e o reflexo das nuvens no lado interior dos rios
guardados nas minhas mãos
Escreve-me tantas vezes
quantos os nocturnos quase-vazios entre as estrelas
os quebrantos de mar aos pés prateados da lua
e as intuições anunciadas na respiração dos dedos dos amantes
Nunca deixes de me escrevercomo se o tempo das palavras fosse o dos regressos
confirmado na existência e docilidade das pedras
Nunca deixes de me sentir"

Sandra Costa

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

A miséria do meu ser

"A miséria do meu ser,
Do ser que tenho a viver,
Tornou-se uma coisa vista.

Sou nesta vida um qualquer
Que roda fora da pista.


Ninguém conhece quem sou
Nem eu mesmo me conheço
E, se me conheço, esqueço,
Porque não vivo onde estou.
Rodo, e o meu rodar apresso.


É uma carreira invisível,
Salvo onde caio e sou visto,
Porque cair é sensível
Pelo ruído imprevisto...
Sou assim. Mas isto é crível?"


Fernando Pessoa

terça-feira, 9 de setembro de 2008

É preciso que saibam

"É preciso que saibam: este rosto
não está à venda. Há quarenta
e cinco anos que o trago apenas
para dar e receber o espanto
do amor e do tempo, do eco e da rosa
e a violenta companhia
insubstituível do mundo.

Os amigos mortos e sepultados
sob este sorriso, também não estão à venda – é com eles que entro
na força dos versos em que falo
de nós todos. Estes olhos já leram Platão (entre outros)
já viram chegar a noite
nas grandes cidades, corpos proibidos
homens e mulheres sem paixão
moribundos face a face com o absurdo
de um tempo já maior de quanto há neles

e casais cumpridores que não gastaram nunca
um tostão de amor a mais.

Já todos dormimos em má companhia
(mesmo se nos limitamos a dormir
inteiramente sós – e até por isso)

Meus prósperos e
devotos irmãos atarefados, deixai-me
em paz. Ou então dêem-me um pouco
de tabaco ou mandem-me de férias um postal (mesmo
que morra). Um póstumo
postal. E sem remorso.
Já que não se morre apenas
de falta de correspondência..."

Victor Matos e Sá

Capuchinho Vermelho

(Uma história recontada em tempos "modernos"...)


"Tás a ver uma dama com um gorro vermelho? Yah, essa cena! A pita foi obrigada pela kota dela a ir à toca da velha levar umas cenas, pq a velha tava a bater mal, tázaver? E então disse-lhe:
- Ouve, nem te passes! Népia dessa cena de ires pelo refundido das árvores, que salta-te um meco marado dos cornos para a frente e depois tenho a bófia à cola!
Pá, a pita enfia a carapuça e vai na descontra pela estrada, mas a toca da velha era bué longe, e a pita cagou na cena da kota dela e enfiou-se pelo bosque. Népia de mitra, na boa e tal, curtindo o som do iPod...
É então que, ouve lá, salta um baita dog marado, todo chinado e bué ugly mêmo, que vira-se pa ela e grita:
- Yoo, tá td? Dd tc?
- Tásse... do gueto ali! E tu... tásse? - Disse a pita
- Yah! E atão, q se faz?
- Seca, man! Vou levar o pacote à velha que mora ao fundo da track, que tá kuma moka do camano!
- Marado, marado!... Bute ripar uma até lá?
- Epá, má onda, tázaver? A minha cota não curte dessas cenas e põe-me de pildra se me cata...
- Dasse, a cota não tá aqui, dama! Bute ripar até à casa da tua velha, até te dou avanço, só naquela da curtição. Sem guita ao barulho nem nada.
- Yah prontes, na boa. Vais levar um baile katéte passas!!!
E lá riparam. Só que o dog enfiou-se por um short no meio do mato e chegou à toca da velha na maior, com bué avanço, tázaver? Manda um toque na porta, a velha "quem é e o camano" e ele "ah e tal, e não sei quê, que eu sou a pita do gorro vermelho, e na na na...". A velha abre a porta e PIMBA, o dog papa-a toda... Mas mesmo, abre a bocarra e o camano e até chuchou os dedos...
O mano chega, vai ao móvel da velha, saca uma shirt assim mêmo à velha que a meca tinha lá, mete uns glasses na tromba e enfia-se no VL... o gajo tava bué abichanado mêmo, mas a larica era muita e a pita era à maneira, tásaver?
A pita chega, e tal, e malha na porta da velha.
- Basa aí cá pa dentro! - Grita o dog.
- Yo velhita, tásse?
- Tásse e tal, cuma moca do camâno... mas na boa...
- Toma esta cena, pa mamares-te toda aí...
- Bacano, pa ver se trato esta cena.
- Pá, mica uma cena: pa ké esses baita olhos, man?
- Pá, pa micar melhor a cena, tázaver?
- Yah, yah... E os abanos, bué da bigs, pa ke é?
- Pá, pa poder controlar melhor a cena à volta, tázaver?
- Yah, bacano... e essa cremalheira toda janada e bué big? Pa que é a cena?
- É PA CHINAR ESSE CORPO TODO!!! GRRRRRRRR!!!!
E o dog manda-se à pita, naquela mêmo de a engolir, né? Só que a pita dá-lhe à brava na capoeira e saca um back-kick mesmo directo aos tomates do man e basa porta fora! Vai pela rua aos berros e tal, o dog vem atrás e dá-lhe um ganda-baite, pimba, mêmo nas nalgas, e quando vai pa engolir a gaja aparece um meco daqueles que corta as cenas cum serrote, saca de machado e afinfa-lhe mêmo nos cornos. O dog kinou logo ali, o mano china a belly do dog e saca de lá a velha toda cheia da nhanha. Ina man, e a malta a gregoriar-se toda!!!
E prontes, já tá... "

(Autor desconhecido)

Agradecimentos a The Scientist.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Tempos

Nasci depois do tempo.
Vim ao mundo numa época a que não pertenço.
Colocaram-me num lugar que me é estranho e ao qual não me adapto porque desconheço as regras deste faz-de-conta.

Tenho saudades das manhãs de "sport" no Grémio.
Dos "shake-hands", dos formalismos e das tipóias reles cheias de pó cinzento.
Sinto falta dos repastos no Ramalhete e no Hotel Central. Das escapadelas até Sintra...
Que nostalgia a lembrança das noites no camarote do S. Carlos...
Lembro as vozes adoçicadas de roliças donzelas com as suas indumentárias espartilhadas. Os seus sorrisos maliciosos disfarçados por leques de ocasião. Os seus quentes aromas que quebravam o ar sério e fidalgo dos cavalheiros fumadores de charuto...
Quanta circunstância, é facto! Quanto cochicho e troça!!
No entanto... quanta simplicidade... quanta inocência! Quanta vida!!
E que vida...

Tenho saudades do que o tempo me roubou só pelo triste infortúnio... de nascer depois do tempo.

André Couto

Carlos Drummond de Andrade

A Flor e A Náusea


"Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cizenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que triste são as coisas, consideradas em ênfase.

Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam pra casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens macias avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio."

domingo, 7 de setembro de 2008

Paulo Pedroso vai ser indemnizado

O estado da Justiça em Portugal.

Aqui deixo excerto que "pesquei" em blogue vizinho (A Natureza do Mal) de uma discussão travada na "In Verbis", na qual dou destaque a três pontos de vista muito interessantes:


"O ex-dirigente socialista Paulo Pedroso ganhou a acção que interpôs contra o Estado por prisão ilegal no âmbito do processo da Casa Pia, anunciou esta terça-feira o seu advogado.

ADITAMENTO: Para Pedro Namora, ex-aluno da Casa Pia, esta indemnização «é inaceitável».
Sentença do Tribunal de Primeira Instância 228.00 Kb
A sentença é passível de recurso e por isso não transitou em julgadoFicheiro disponibilizado no sítio da ASJP (www.asjp.pt)

De acordo com Celso Cruzeiro, o juiz considerou que a detenção do ex-dirigente socialista foi um 'erro grosseiro', no entanto a indemnização atribuída, de cerca de 100 mil euros, ficou 'bastante aquém' do pedido na acção contra o Estado.
Paulo Pedroso pedia uma indemnização de 600 mil euros ao Estado por ter permanecido preso cerca de cinco meses, beneficiando posteriormente da decisão de Ana Teixeira Pinto de não o pronunciar, não sendo presente a julgamento.
Recorde-se que o ex-dirigente socialista cumpriu quatro meses e meio de prisão preventiva em 2003, por suspeitas de abuso de menores no âmbito do processo Casa Pia.
À data da detenção, a 23 de Maio de 2003, Paulo Pedroso era deputado à Assembleia da República, com vínculo de professor universitário no ISCTE, mas cujo contrato se encontrava suspenso por imposição legal.
Ao ser decretada a prisão preventiva deixou de ser deputado, reassumindo a função de funcionário público (assistente do ISCTE) para não ficar sem rendimentos, tendo ficado com os seus vencimentos reduzidos «em um sexto», refere o texto da sentença.
Como deputado, tinha a remuneração-base mensal de 3.448 euros por mês, acrescidos de um subsídio de deslocação por ser eleito pelo distrito de Setúbal e que, de 22 de Maio a 8 de Outubro de 2003, no valor de 2.507 euros.
Além disso, escrevia um artigo de opinião para o Jornal de Notícias pelo qual ganhava 200 euros por semana e era comentador político na SICNotícias no programa Frente-a-Frente, auferindo por cada participação 250 euros.
O seu vencimento mensal como assistente do ISCTE era de 1.274 euros. No primeiro mês, foram-lhe descontados vários dias, no valor líquido de 761 euros. Além disso, em virtude da sua prisão Pedroso perdeu a remuneração dos meses de Junho, Julho, Agosto e Setembro de 2003 relativamente à remuneração de exercício do ISCTE e à remuneração base de deputado. Perdeu ainda parte do subsídio de férias e de Natal, na ordem dos 846 euros cada
PORTUGAL DIÁRIO 02.09.2008


ADITAMENTO
INDEMNIZAÇÃO É INACEITÁVEL
Correio da Manhã – O que pensa de Paulo Pedroso ter ganho a acção interposta contra o Estado por prisão ilegal no processo Casa Pia?Pedro Namora – É uma decisão inaceitável, embora já a tivesse antecipado a partir do momento em que o caso foi julgado à porta fechada, além de que o Governo exerceu pressões para que o dr. Paulo Pedroso fosse indemnizado.
– O Ministério Público vai recorrer da decisão.– O Governo tem o dever de interpor recurso, estamos a falar do dinheiro dos contribuintes. E há milhares de presos preventivamente que nunca foram indemnizados pelo Estado.
– Durante o dia de ontem, foram várias as manifestações de apoio a PauloPedroso, incluindo do primeiro-ministro.– É uma vergonha o primeiro-ministro afirmar publicamente que está satisfeito com uma decisão que ainda não transitou em julgado e que envie mensagens indirectas para o ministro da Justiça.
– Como é que a mesma Justiça age de forma oposta?– A prisão preventiva foi decidida pelo juiz RuiTeixeira, que enfrentou fortes pressões. A indemnização foi decidida por uma única juíza de primeira instância, nem sequer foi um colectivo de juízes.
– Esta acção abre um precedente para outros presos?– Todo o processo abriu precedentes. O dr.Paulo Pedroso tutelou a Casa Pia e espero que seja coerente e que indemnize todos os jovens que o seu antigo ministério permitiu que fossem violados.
CORREIO DA MANHÃ 03.09.2008

Comentários:

... : Álvaro
Quantos políticos já pagaram pelos seus muitos erros ? Quantos directores-gerais já pagaram pelos seus muitos erros ? O princípio mundial da irresponsabilidade pelas decisões judiciais já foi revogado apenas neste país à beira lama política plantado ? O medo de decidir é pior do que o risco do erro na decisão. Pois a decisão tem fundamentos. Se os fundamentos que são apresentados ao juiz estão errados e só podem ser contrariados posteriormente, que culpa tem o juiz de decidir com base naquilo que naquele momento lhe é apresentado ? Se não querem que os juízes decidam, ponham um computador a processar sentenças.


... : Hegel Lusitano
O que foi escrito pelo «Descontente» e pelo «Álvaro» encerra duas vertentes contraditórias, passíveis de perigar o bom exercício da administração da justiça, com uma inaceitável "cautela temerária" por parte do aplicador do direito. Por um lado, os cidadãos vivendo em estado de insegurança pretendem que seja aplicada prisão preventiva a qualquer suspeito da prática do crime, mesmo que o acto supostamente praticado se enquadre fora dos requisitos fixados na lei. Mas, ao governo, interessa (e por isso apresentou proposta de lei nesse sentido) que haja a aplicação, pelo mínimo, de prisão preventiva, até por questões de natureza económica (os elevados encargos dos serviços prisionais). O juiz, por seu turno, sendo-lhe apresentado um arguido e com base apenas no que consta do auto de notícia e da inquirição que faz ao arguido, até pode ter fundamentos para ordenar a prisão preventiva. Mas, porque é elevado o risco de um tribunal superior decidir que naquele caso em concreto, considerando outros factos que só depois se vieram a ter conhecimento (e que não são do conhecimento do juiz de instrução quando aplica a prisão preventiva), que não deveria ter sido aplicada a prisão preventiva, o juiz então, temerário, não aplica a prisão preventiva e concede liberdade ao arguido. Conclusões: 1) O juiz é sempre culpado por não aplicar prisão preventiva. 2) O juiz é sempre culpado por aplicar prisão preventiva e até pode correr o risco de pagar do seu bolso por ter decidido dessa forma. Resultado "à cautela" (para usar as palavras do Descontente) É melhor o arguido ficar em liberdade. ... Certo ? Será que o povo quer juízes temerários ? Pelas palavras do Descontente, parece que sim. O poder político agradece.

... : Barracuda
Ai ai ai. Que falta faz o estudo aprofundado da filosofia, incluindo o da lógica. É nosso defeito a incapacidade de discorrer sem pisar tudo. Não sei o que a sentença que apelida de erro grosseiro a a medida de prisão preventiva. Esta tem pressupostos e qualquer deles deve ser passível de juizo fundado, isto é, não basta que o juiz se diga este indivíduo fica privado de liberdade desde já porque os indícios já apurados são de molde a não admitir dúvida razoável de que não cometeu a infracção de que é suspeito e, acrescendo a isto, há também sérios indícios do preenchimento dos pressupostos da prisão preventiva, essa medida cautelar que manda para as urtigas o princípio da presunção de inocência e pode ter como resultado a violação dos mais elementares direitos humanos . Nestas condições não se pode falar de posteriores razões factuais de que resulta a ilegalidade da prisão preeventiva. Esse raciocínio é perverso. Esta só pode ser aplicada se existirem os respectivos pressuposto naquele momento. Se existirem, haja o que houver depois, a medida nunca pode ser considerada erro grosseiro por razões só verificáveis posteriormente. Estas podem determinar a sua alteração ou revogação mas não a viciam. Sendo assim aquela afirmação significa ou que não havia quaisquer indícios que justificassem a suspeita séria da prática do ilícito ou que os que existiam eram de molde a não justificar de modo algum a medida cautelar aplicada que pode muito bem resultar de cedência à pressão mediática, à sede de circo da populaça carenciada de sangue e de vingança contra os poderosos, de índole do juiz que pretendeu dar uma imagem de justiceiro a torto e a direito, etc. etc. O que me parece é que, conhecendo o prurido dos magistrados em por em causa a bondade dos seus juizos o qualificativo não pode assentar em leviandade dada ainda a delicadeza da afirmação em termos de imagem da magistratura judicial que parece ser agora a responsável de todos os males da nossa justiça quando tenho a convicção segura de que, embora ali exerçam nulidades mal formadas academicamente e que é urgente expurgar de lá, a grande, grande maioria é vítima duma situação política e social para que n contribuiram em nada. Posto isto, acho justo aue o autor ou autora do erro grosseiro seja por ele responsabilizado (a) de forma a que não sejamos nós a pagar por erros grosseiros de agentes do Estado, sejam eles quais forem. De outra forma, se levarmos a irresponsabilidade pelas decisões ao extremo de excluir o erro grosseiro, estamos caídos no arbítrio que é a mais humilhanta forma de ditadura. Se tudo ficar em águas de bacalhau, o mais certo, a magistratura sai enfraquecida e desprestigiada pela convicção de que os seus mmembros podem fazer o que quiserem, ignorar a lei e os factos, por e dispor da nossa liberdade e até da nossa vida pois prender um inocente de forma grosseira equivale a esfolá-lo vivo, a matar por dentro, a arrancar as vísceras deixando um corpo vazio. Era o que me aconteceria se tal me acontecesse. Não colhe o argumento do medo de decidir. A lei é clara e há princípios há muito firmados que balizam o caminho. Por isso o erro raramente será desculpável e se for grosseiro é criminoso."



Para terminar deixo-vos o essencial de um comentário que fiz a um post de Sofia Loureiro dos Santos, no blogue Defender o Quadrado:

"Com toda a mediatização do processo em causa, dos seus recúos e avanços, dos seus erros e das suas virtudes já ninguém sabe muito bem em que pensar. Será que todos os acusados o estão a ser com base em indícios suficientemente fortes que se aguentem em tribunal? Será que aos acusados com base apenas em indícios testemunhais foi salvaguardada a credibilidade e veracidade desses testemunhos? Será que todos os que deviam ter sido acusados o foram? E os que foram... deveriam ter sido? Reparem que estou a falar em suposições. Agradecia muito que ninguém me pusesse um processo em troca da minha opinião...
Mas se no fim do processo houver mais inocentes haverá lugar a mais indemnizações... A que custo? Com que moral se destrói a honra de alguém, se mata a vida de um ser com base em provas que afinal podem não passar de erros grosseiros? Como se compensa alguém disso?? Até se me arrepiam os ossos em pensar que esta parte má que parece existir no sistema judicial pode um dia cair em cima de mim...
Hoje em dia é sem dúvida cada vez mais difícil ter confiança nas instituições do nosso país."

sábado, 6 de setembro de 2008

Alexandre O' Neill

SENTENÇAS DELIRANTES DUM POETA PARA SI PRÓPRIO EM TEMPO DE CABEÇAS PENSANTES

"1 Não te ataques com os atacadores dos outros.
Deixa a cada sapato a sua marcha e a sua direcção. O mesmo deves fazer com os açaimos.
E com os botões.

2 Não te candidates, nem te demitas. Assiste. Mas não penses que vais rir impunemente a sessão inteira. Em todo o caso fica o mais perto possível da coxia.

3 Tira as rodas ao peixe congelado, mas sempre na tua mão.
Depois, faz um berreiro. Quando tiveres bastante gente à tua volta, descongela a posta e oferece um bocado a cada um.

4 Não te arrimes tanto à ideia de que haverá sempre um caixote com serradura à tua espera. Pode haver. Se houver, melhor...
Esta deve ser a tua filosofia.

5 Tudo tem os seus trâmites, meu filho!Não faças brincos de cerejas sem te darem, primeiro, as orelhas.
Era bom que esta fosse, de facto, a tua filosofia.

6 Perguntas-me o que deves fazer com a pedra que te puseram em cima da cabeça? Não penses no que fazer com. Cuida no que fazer da.
É provável que te sintas logo muito melhor.
Sai, então, de baixo da pedra.

7 Onde houver obras públicas não deponhas a tua obra. Poderias atrapalhar os trabalhos. Os de pedra sobre pedra, entenda-se.
Mas dá sempre um «Bom dia!» ao pessoal do estaleiro. Uma palavra é, às vezes, a melhor argamassa.

8 Deves praticar os jogos de palavras, mas sempre com a modéstia do cientista que enxertou em si mesmo a perna da rã, e que enquanto não coaxa, coxeia. Oxalá o consigas!

9 Tens um glorioso passado futurível, mas não fiques de colher suspensa, que a sopa arrefece.

10 Se tiveres de arranjar um nome para uma personagem de tua criação, nunca escolhas o de Fradique Mendes. A criação literária não frequenta o guarda-roupa, muito menos quando a roupa tem gente dentro.

11 Resume todas estas sentenças delirantes numa única sentença: Um escritor deve poder mostrar sempre a língua portuguesa."

in Poesias Completas, Assírio & ALvim, 2000

Bolt volta aos 100 metros com vitória

Triplo campeão olímpico, o jamaicano Usain Bolt regressou aos 100m com uma vitória, no meeting de Bruxelas. O velocista jamaicano, que tem nos 200m a sua distância preferida, terminou com o tempo de 9,77s. Bolt bateu Asafa Powell (9,83s) nos derradeiros dez metros, depois de um mau arranque, e falhou o objectivo de bater novamente o recorde mundial, depois do fantástico tempo de 9,69 nos Jogos Olímpicos de Pequim."

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

" Se eu quisesse enlouquecia"

- Herberto Helder (1930 -


"Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caindo sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida."

também In "a manh'ser"

"Lembro-me de naquele tempo não haver sequer vento, de não se agitar uma árvore lá fora e de haver um terraço apenas com roupa estendida e o cheiro do sabão espalhado nos tecidos. Lembro-me apenas de coisas mínimas. Do cheiro das laranjas que apodreciam no chão irisadas na luz que se entornava então sobre a terra. Lembro-me de naquele tempo sentir que cada palavra era uma distância. De sentir as coisas espalhadas no chão do meu quarto e de sofrer por só lentamente me poder aperceber de que tudo estava radicalmente só e dividido. Lembro-me, aliás, de naquele tempo ter dividido pela primeira vez as coisas do mundo: o chão e os frutos, as árvores e o céu, as ondas e o mar. Lembro-me de ter visto pela primeira vez o mundo representado nas asas de uma borboleta: cada asa é uma pessoa, murmurei, e cada borboleta é o pequeno prodígio de haver um mundo. Pensei que as asas de cada borboleta poderiam ser duas pessoas que ora se encontravam ora se perdiam para uma distância que na tensão da presença jamais poderia ser infinita. Pensei que o equílibrio de haver borboletas era justamente este ofício do encontro: no meio da borboleta estava o labirinto de haver um possível, de haver um animal sozinho na viagem das pessoas que o construíam para a sua morte. Não havia vento naquele tempo: as borboletas repousavam sem perturbações nos círculos de água da minha face. Lembro: cada asa tem o seu duplo como cada lábio tem o seu par, disse. Pela areia do sono descia ao fundo do meu coração e lembro-me, recordo-me muito bem de no interior do meu quarto ter construído uma margem de silêncio onde mais tarde entrancei o teu cabelo e casei o movimento dos teus pés descalços na areia das praias. De tudo isto fiz borboletas. Das ondas e do mar, do teu cabelo, dos teus olhos nos meus. Do teu corpo em ti própria. Cada borboleta regressa a si mesma como uma flor ao nascer da luz: fixando o sol, das asas nasce o animal e do animal nascem as casas, as palavras e o amor. Depois a borboleta faz uma escada para trás, para o seu deserto, para o fim do poema, para o fim de todos os poemas. Eu apago os passos: cada borboleta apaga então o que deixou pela areia: uma escama de luz, um pedaço de asa. E se chegou ao céu por voar, regressará a casa porque consegue pisar por amor o coração sem asas nem animal que lhe resta. Naquele tempo era tudo como me lembro hoje: a casa lá fora estava deitada sobre a luz, cá dentro não se agitavam as árvores e as palavras beijavam-se entre o silêncio. As coisas continuavam espalhadas pelo chão do meu quarto. E eu? Recomeçava, eu."

In a manh'ser

"Dentro de mim há uma baleia negra e magra de morte. ela respira quando eu grito fora do meu poço. quando eu penso: estou perdido no caminho e sou uma baleia de borboletas e pássaros queimados como palavras lançadas e tecidas ao vento. eu estou tantas vezes morto, digo. e logo acordo. e venho à superfície lenta da cidade: existe alguém desse lado? e acordo novamente. o que há de haver outro em mim, desnuda-se no centro da minha pobreza e eu sou uma linha que se apaga, um semáforo de mão fechada para o trânsito minúsculo na grande estrada da vida. dentro de mim há esta baleia unida ao conceito de um pássaro cheio de raízes e borboletas. é uma ideia borboleta e interior feita de uma estrela imensa. dentro de mim. eu esvoaço. esvoaço na luz. eu desteço-me. palavra a palavra na malha negra do Verbo. como o corpo branco da minha amada. e depois fecho os olhos. atravessa-me o tempo. e posso fechar as mãos, posso então abeirar-me da luz e ser só dentro de mim."

Desabafo

É curioso como por vezes encontramos nas palavras dos outros mais proximidade do que com as nossas próprias...
"A pouco e pouco tomo-me um velho, rezingão e ciumento, apenas a sua distracção explica que ainda não o tenha descoberto (...) não consigo evitar modificações que não se restringem a nós, (...), sinto a vida a fugir ao meu controlo (...)"
Republicanos molhados por Gustav
"Convenção Republicana é a primeira a sofrer fúria do furacão Gustav" In Público.

Acham que isto pode ser intervenção divina? Será Deus a querer dizer: -"Parem de se comportar como americanos fascizóides ou sintam a fúria de Deus!"

Era tão chato depois de tanto tempo descobrir que Deus afinal se chama Gustav... não tem lá muito estilo!


Agradecimentos a "Um pelo Público".
"Sinto-me defraudado"

Descobri num anúncio do BES que "quem sabe, sabe, e a Maria é que sabe", "o Paulo é que sabe", "o Génio da Bola é que sabe". Aparentemente toda a gente sabe.
E eu que durante anos acreditei que Marco Bellini é que sabe.


Agradecimentos ao Arcebispo de Cantuária...
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Olá... Dado que o fenómeno da blogosfera não pára de aumentar, não poderia ficar alheio.
Será neste espaço que colocarei as minhas dúvidas, as minhas angústias, algumas das minhas alegrias..
Enfim deixarei que passe para fora um pouco do que se está "Por detrás do (meu) muro."