terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Estética do Artifício



"A vida prejudica a expressão da vida. Se eu tivesse um grande amor nunca o poderia contar.

Eu próprio não sei se este eu, que vos exponho, por estas coleantes páginas fora, realmente existe ou é apenas um conceito estético e falso que fiz de mim próprio. Sim, é assim. Vivo-me esteticamente em outro. Esculpi a minha vida como a uma estátua de matéria alheia ao meu ser. Às vezes não me reconheço, tão exterior me pus a mim, e tão de modo puramente artístico empreguei a minha consciência de mim próprio. Quem sou por detrás desta irrealidade? Não sei. Devo ser alguém. E se não busco viver, agir, sentir, é - crede-me bem - para não perturbar as linhas feitas da minha personalidade suposta. Quero ser tal qual quis ser e não sou. Se eu cedesse destruir-me-ia. Quero ser uma obra de arte, da alma pelo menos, já que do corpo não posso ser. Por isso me esculpi em calma e alheamento e me pus em estufa, longe dos ares frescos e das luzes francas - onde a minha artificialidade, flor absurda, floresça em afastada beleza."


(Fernando Pessoa)


O que eu gosto de ler este Homem...

Até já.

Momento de relativa boa disposição




Hoje, ao assistir ao noticiário das 13:00H na SIC, ouvi mais uma coisa inqualificável por parte do leitor de teleponto de serviço a quem chamam apresentador ou, ainda mais pomposamente, pivot da informação.

Se aquilo é um pivot, vou ali e volto já.

No decurso da palração sobre um qualquer assunto o indivíduo declarou que a tal dita coisa teve um aumento de 50%, como tal aumentando para o dobro.
Ora, como todos sabemos, se tivermos duas maçãs e aumentarmos o nosso stock de fruta em 50% ficamos com três maçãs.

O pivot do noticiário da SIC fica com quatro. Sorte a dele...

Após me ter engasgado com o bife do meu repasto ao ouvir o Sr. Jornalista lembrei-me que também na SIC, numa fantástica previsão meteorológica, afirmaram que no dia seguinte iriam estar ZERO graus NEGATIVOS.

O que é óptimo. Se fossem zero graus positivos estaria concerteza um tempo muuuito mais quente...


Palavra puxa palavra, e após um jantar de Domingo, muito aprazível, em que este tema veio à baila, comecei a fazer um levantamento das "calinadas" mais habituais que vou ouvindo, seja, ou não, na SIC.

Deixo ao empirismo dos meus caríssimos leitores o desafio de aumentar a lista que se segue:

"Precaridade" em vez de Precariedade
"Runião" em vez de Reunião
"Navoeiro" em vez de Nevoeiro
"Tevisão" em vez de Televisão
"Tefone" em vez de Telefone
"Estório" em vez de Estore
"Salchicha" em vez de Salsicha
"Parteleira" em vez de Prateleira
"Cardeneta" em vez de Caderneta
"Ró X" (sim, já ouvi isto...) em vez de Raio-X
"Bajas" em vez de Vagens
"Pugrama" em vez de Programa
...
...
...


Continuem lá que já não posso mais!


Até já...

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Mistério do Mundo


"Ah, não poder tirar de mim os olhos,
Os olhos da minha alma [...]
(Disso a que alma eu chamo)
Só sei de duas coisas, nelas absorto
Profundamente: eu e o universo,
O universo e o mistério e eu sentindo
O universo e o mistério, apagados
Humanidade, vida, amor, riqueza.

Oh vulgar, oh feliz! Quem sonha mais,
Eu ou tu? Tu que vives inconsciente,
Ignorando este horror que é existir,
Ser, perante o [profundo] pensamento
Que o não resolve em compreensão, tu
Ou eu, que analisando e discorrendo
E penetrando [...] nas essências,
Cada vez sinto mais desordenado
Meu pensamento louco e sucumbido.
Cada vez sinto mais como se eu,
Sonhando menos, consciência alerta
Fosse apenas sonhando mais profundo."

(Fernando Pessoa in Primeiro Fausto)

Por diversas vezes no escuro da noite, naquele período em que não adormecendo só pensamos em coisas supostamente idiotas, dei por mim a pensar sobre a questão abordada neste excerto que aqui coloco da poesia de Fernando Pessoa.

Estou certo que, tal como eu, conhecem daqueles seres humanos simples. Entidades que se limitam ao mais básico da existência. Homens e mulheres cujas preocupações não ultrapassam a necessidade diária de alimento, sono e afins.
Essas pessoas que aparentemente não se pensam, não se questionam, não divagam, são mesmo assim?
É falta de capacidade de se abstrair do mundano ou simplesmente não se interessam por nada mais?
Não estou a elaborar uma crítica, apenas quero partilhar a dúvida.

Aos meus olhos são limitados porque não vislumbram sequer o que consigo sem dificuldade ver.

Aos olhos deles eu sou um tolo que só me lembro de coisas que não interessam a ninguém.

Talvez... mas tenho tanta dificuldade em imaginar viver sem o abstracto como eles sem o real.
A única diferença é que para mim o abstracto é real e a realidade apenas mundana e quase animalesca é demasiado abstracta e inalcançável.

Mas quem é mais feliz?

O que por pensar e viajar por vezes encontra sofrimento ou aquele que, por falta de apetência ou capacidade, nunca sai do seu casulo?
Não consigo quantificar a felicidade. Nem consigo defini-la como ente substancial e perene uma vez que a considero casuística.
Acredito no seguinte:
É uma vivência muito mais rica aquela que tem densidade. E todas as pedras que aparecem no meu caminho servem para me construir.
A dor que vem com a construção do meu abstracto e talvez idiótico ser é mil vezes mais reconfortante e edificante que a tranquilidade oca de nunca nada sofrer por em nada pensar.

É o que dá estar tanto tempo sem internet....

Até já!!

Obrigadinho, "tá"?




Queridos e fiéis amigos,
gostaria de apresentar as minhas desculpas por tão demorada ausência.
Por motivos de força maior fui impedido de me ligar ao mundo durante 10 dias.

É, pois, neste sentimento de profunda consternação, que desejo publicamente deixar os parabéns à rapidez, prontidão, preocupação, dedicação e profissionalismo que a equipa técnica da PT demonstrou ao só me deixar DEZ dias sem telefone e internet.

Poderiam, de facto ter sido 20 ou 30 dias!
Foram só 10...

Muito obrigado por tudo.

Até já! (acho eu...)

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Pequena derrocada no Muro


Após ler um post absolutamente soberbo no não menos soberbo blogue "Castelo d'Areia" (o link está mesmo aqui ao lado) resolvi cometer o que para mim é uma grande ousadia e, no comentário que lá deixei, destruir parte do muro que me cerca e me serve de defesa.

Se o fiz em casa alheia não encontro motivos, bem pelo contrário, para que aqui não o faça também.

O meu blogue é para onde descarrego o que me vai na alma.
Vocês os meus mais confidentes "contentores" e merecem, já que se dão ao trabalho de me ler, conhecer-me realmente.

Aqui vai:

«Nada era linear e fácil. No fundo sabia o que eu era, mas meticulosamente formei uma linha de defesa contra isso. Não aceitava durante as horas racionais do dia o que no sossego da noite a minha cabeça pensava. Argumentava e esgrimia argumentos comigo próprio. Sentia-me continuamente esmagado pela sensação de culpa e frustração. Não sabia o que decidir senão seguir o que a maioria fazia; enquanto me diluísse na multidão estaria a salvo, pensava eu. Mas, não tinha paz nem verdade»

Meu caro, está a falar de mim?
Claro que não, sei-o.
No entanto não resisto a partilhar consigo parte de mim (uma grande parte!!) apenas recorrendo às suas palavras. Estas, entre quase todas as outras, podiam ter sido pensadas e, sobretudo, sentidas por mim. Foram-no, enquanto as lia.
Acredito que cada pessoa tem um talento. Para alguns, como para o meu amigo (perdoe-me a ousadia...) é sem pejo utilizar as próprias palavras para dizer o que sente. No meu caso é utilizar as palavras dos outros para demonstrar o que cá vai dentro.
Porque o faço? Em primeira análise poder-se-ia pensar que é por preguiça, ou por falta de argúcia, mas tal não corresponde, minimamente, à verdade.
Trata-se de um último obstáculo.
Uma última defesa.
Um último Muro.
No meu sub-consciente algo me assegura que desta forma, em caso de mal-entendidos, como as palavras não são minhas, poderei, com mais ou menos facilidade desviar as atenções e dizer:
A culpa não é minha... Não fui eu que escrevi!!
Posso, ainda que involuntariamente, com este último subterfúgio desviar de mim o que de negativo de mim pensarem.
Apesar de tendencialmente egoístas todos nos preocupamos com o que pensam de nós.
Um abraço.


Até já!

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Contos Pequeníssimos



"esta grandeza de não a ter
é mais pequena que a de não desejar tê-la

e se o preço de participar é grandeza
não contem comigo
não participo
não participo nem contra grandeza

nasci ar
em forma de gente
nasci luz
em forma de gente

não me compreendo
e respiro-me
e vejo-me textual

a forma de gente faz-me agir fora do que nasci ar
fora do que nasci luz

e nasci ar para forma de gente
e nasci luz para forma de gente

nasci antes de mim
antes de forma de gente

era génio antes de nascer
em forma de gente
a forma de gente não me deixa ser o génio que nasci."


(José de Almada Negreiros)


Delicioso!
Digo eu...

Até já...

A primeira vez que entendi



"A primeira vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na infância
cortei o rabo de uma lagartixa
e ele continuou mexendo.

De lá para cá
fui percebendo que as coisas permanecem
vivas e tortas
que o amor não acaba assim
que é difícil extirpar o mal pela raiz.

A segunda vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na adolescência me arrancaram
do lado esquerdo três certezas
e eu tive que seguir em frente.

De lá pra cá
aprendi a achar no escuro o rumo
e sou capaz de decifrar mensagens
seja nas nuvens
ou no grafite de qualquer muro."

(Affonso Romano de Sant'Anna)


Meus queridos e fofinhos leitores:

Também eu, no escuro, encontro o meu rumo.
Não se preocupem.
Estas coisas vão e vêm mas que cá vou continuando!


Até já...

Leitura Natural



Tendo lido os jornais
- infectado a mente, enauseado os olhos -
descubro, lá fora, o azul do mar
e o verde repousante que começa nas samambaias da sala
e recrudesce nas montanhas.

Para que perco tantas horas do dia
nessas leituras necessárias e escarninhas?
Mais valeria, talvez, nas verdes folhas, ler
o que a vida anuncia.

Mas vivo numa época informada e pervertida.
Leio a vida que me imprimem
e só depois
o verde texto que me exprime.

(Affonso Romano de Sant'Anna)

Não podia concordar mais...

Até já...

Exausto



"Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes."

(Adélia Prado)


Não estou assim tão mal.
Mas já dormia...

Até já...

O Alfabeto no Parque



"Eu sei escrever.
Escrevo cartas, bilhetes, lista de compras,
composição escolar narrando o belo passeio
à fazenda da vovó que nunca existiu
porque ela era pobre como Jó.
Mas escrevo também coisas inexplicáveis:
quero ser feliz, isto é amarelo.
E não consigo, isto é dor.
Vai-te de mim, tristeza, sino gago,
pessoas dizendo entre soluços:
“não aguento mais”.
Moro num lugar chamado globo terrestre
onde se chora mais
que o volume das águas denominadas mar,
para onde levam os rios outro tanto de lágrimas.
Aqui se passa fome. Aqui se odeia.
Aqui se é feliz, no meio de invenções miraculosas.
Imagine que uma dita roda-gigante
propicia passeios e vertigens entre
luzes, música, namorados em êxtase.
Como é bom! De um lado os rapazes.
Do outro as moças, eu louca para casar
e dormir com meu marido no quartinho
de uma casa antiga com soalho de tábua.
Não há como não pensar na morte,
entre tantas delícias, querer ser eterno.
Sou alegre e sou triste, meio a meio.
Levas tudo a peito, diz a minha mãe,
dá uma volta, distrai-te, vai ao cinema.
A mãe não sabe, cinema é como diria o avô:
“cinema é gente passando.
Viu uma vez, viu todas”.
Com perdão da palavra, quero cair na vida.
Quero ficar no parque, a voz do cantor açucarando a tarde...
Assim escrevo: tarde. Não a palavra.
A coisa."

(Adélia Prado)
Ainda me encontro na penumbra...
Até já...

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Com um só fósforo ilumino o infinito



"Com um só fósforo ilumino o infinito.
E muitas vezes o infinito é algo
muito próximo, um livro, uma chávena
de chá, o teu rosto escondido
na penumbra, o retrato de alguém desconhecido
que de uma praça, acena,
um fio de tabaco, um monograma
num lenço muito branco.
O infinito o mais das vezes é
não mais do que o que toca o coração,
uma leve poeira pelo ar, um ponto fixo
que a mão ousa tocar, esta chama
que de repente amplia a escuridão
e me torna visível a quem passa
e no clarão acende o seu cigarro."

(Amadeu Baptista)

Hoje sinto-me assim. Com vontade de iluminar algo. Será vontade de me iluminar?
Em caso afirmativo significaria admitir que não estou luminoso.
Estarei sombrio?
A sombra não existe porquanto ela apenas é a falta de algo, mormente de luz.
Assim sendo por que se sente a sombra? Por que se sente algo que não existe por definição própria senão por ausência de algo mais?
Se se sente é porque existe.

Sinto.

Confirma-se.

Estou sombrio.

Seja lá o que isso quer dizer.


Até já...

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Dream


"Qualquer coisa de obscuro permanece
No centro do meu ser. Se me conheço,
É até onde, por fim mal, tropeço
No que de mim em mim de si se esquece.

Aranha absurda que uma teia tece
Feita de solidão e de começo
Fruste, meu ser anónimo confesso
Próprio e em mim mesmo a externa treva desce.

Mas, vinda dos vestígios da distância
Ninguém trouxe ao meu pálio por ter gente
Sob ele, um rasgo de saudade ou ânsia.

Remiu-se o pecador impenitente
À sombra e cisma. Teve a eterna infância,
Em que comigo forma um mesmo ente."

(Fernando Pessoa)
Os meus agradecimentos a quem "cedeu" a imagem...
O título do poema indicou-me o sítio indicado para a "pedir emprestada".
Obrigado.
Até já...

Brasil 6 - 2 Portugal


Na madrugada de ontem para hoje jogou-se um amigável entre as selecções Brasileira e Portuguesa que terminou com o resultado de 6-2.

SEIS a DOIS!

Trata-se do pior resultado de Portugal frente ao Brasil. De sempre.
Aquilo foi o que se chama "ser sodomizado à bruta"!

Nunca gostei muito de Scolari. Sempre achei que a selecção nacional sob o seu comando tinha a obrigação de jogar muito melhor e que o Felipão era mesmo "o burro".

Depois das recentes exibições da equipa lusa + nacionalizados na era Queiroz, fiquei a pensar que provavelmente Luiz Felipe Scolari fez um trabalho incomparável.

Apresento publicamente, e de forma assaz sentida, as minhas desculpas ao nosso ex-seleccionador.

Lá diz a sapiente sabedoria popular:
Atrás de mim virá quem de mim bom fará.

P.S. (Sem conotações políticas...): Relativamente à foto que ilustra este post, gostaria de explicitar que se Queiroz tivesse mais um dedo seria a cereja em cima do bolo... ;)


Até já...







quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Soneto de Amor



"Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma...
Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua..., - unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois... - abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!"

(José Régio)




Elevação da Trofa a Concelho



Hoje comemora-se o "não sei quantos" aniversário da elevação da Trofa a Concelho.

É um facto que não interessará a muitos, reconheço.

Para mim tem significado. Porquê?

Porque habitando nesta cidade posso usufruir do seu feriado municipal e resolver desta forma a falta de tempo que para estas lides que me vem afectando.

Até já.

Nada é meu


" O maior problema do Homem, como das nações, é a independência. Pode ser resolvido?
O que possuo parece meu, mas sou sempre possuído pelo que tenho. A única propriedade indiscutível devia ser o Eu, e, contudo, vendo bem, onde está o resíduo absoluto que não depende de ninguém?
Outros participam, ausentes ou presentes, da nossa vida interior e exterior. Não há forma de se salvar. Mesmo na solidão perfeita, sinto-me, com espanto, átomo de um monte, célula de uma colónia, gota de um mar. Há no meu espírito e na minha carne, a herança dos mortos; o meu pensamento é devedor dos defuntos e dos vivos; a minha conduta é guiada, mesmo contra a minha vontade, por seres que não conheço e que desprezo.
Tudo o que sei aprendi dos outros. Qualquer coisa que adquira é obra de outros, e - que importa que a tenha pago? - sem o operário, sem o artesão, sem o artista, estaria mais nu do que Caliban ou Robinson. Se quero deslocar-me, tenho necessidade de máquinas não fabricadas por mim.
Vejo-me obrigado a falar uma língua que não inventei; e os que vieram antes impõem-me, sem que me aperceba, os seus gostos, os seus sentimentos, os seus preconceitos.
Se desmonto o meu Eu peça a peça, encontro sempre fragmentos que procedem de fora; podia apor, em cada um, uma etiqueta de origem: Isto é de minha mãe, isto do meu primeiro amigo, isto de Emerson, isto de Rousseau, isto de Stirner. Se realizo a fundo o inventário das apropriações, o Eu converte-se numa forma vazia, numa palavra sem sentido próprio.
Pertenço a uma classe, a um povo, a uma raça; não consigo evadir-me, faça o que fizer, de certos limites que não foram traçados por mim. Cada ideia é um eco; cada acto um plágio. Posso tirar os homens da minha presença, mas uma grande parte deles continuará vivendo, invisível, na minha solidão.
Se tenho criados, devo suportá-los e obedecer-lhes; se tenho amigos, tolerá-los e servi-los; e os valores querem ser guardados, cultivados, protegidos, defendidos. Poder equivale a escravidão. Nada, na realidade, me pertence. As poucas alegrias que desfruto devo-as à inspiração e ao trabalho de homens que já não existem ou que nunca vi. Sei o que recebi, mas ignoro quem mo deu. (...)
Onde está, pois, o núcleo profundo e autónomo de que nenhum outro participa, que não foi gerado por nenhum outro e que se possa verdadeiramente chamar meu? Serei, na realidade, um coágulo de dívidas, a molécula escrava de um corpo gigantesco? E a única coisa que acreditamos verdadeiramente nossa - o Eu - talvez seja, como tudo o mais, um simples reflexo, uma alucinação do orgulho."
(Giovanni Papini in Gog)

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Mulher, Casa e Gato



"Uma pedra na cabeça da mulher; e na cabeça
da casa, uma luz violenta.
Anda um peixe comprido pela cabeça do gato.
A mulher senta-se no tempo e a minha melancolia
pensa-a, enquanto
o gato imagina a elevada casa.
Eternamente a mulher da mão passa a mão
pelo gato abstracto,
e a casa e o homem que eu vou ser
são minuto a minuto mais concretos.
A pedra cai na cabeça do gato e o peixe
gira e pára no sorriso
da mulher da luz. Dentro da casa,
o movimento obscuro destas coisas que não encontram
palavras.
Eu próprio caio na mulher, o gato
adormece na palavra, e a mulher toma
a palavra do gato no regaço.
Eu olho, e a mulher é a palavra.
Palavra abstracta que arrefeceu no gato
e agora aquece na carne
concreta da mulher.
A luz ilumina a pedra que está
na cabeça da casa, e o peixe corre cheio
de originalidade por dentro da palavra.
Se toco a mulher toco o gato, e é apaixonante.
Se toco (e é apaixonante)
a mulher, toco a pedra. Toco o gato e a pedra.
Toco a luz, ou a casa, ou o peixe, ou a palavra.
Toco a palavra apaixonante, se toco a mulher
com seu gato, pedra, peixe, luz e casa.
A mulher da palavra. A Palavra.

Deito-me e amo a mulher. E amo
o amor na mulher. E na palavra, o amor.
Amo com o amor do amor,
não só a palavra, mas
cada coisa que invade cada coisa
que invade a palavra.
E penso que sou total no minuto
em que a mulher eternamente
passa a mão da mulher no gato
dentro da casa.

No mundo tão concreto."

(Herberto Helder)

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Ditados Populares


A antiga sabedoria popular chega-nos de tempos já esquecidos com uma actualidade pungente.
Há frases com dezenas (centenas?) de anos que ditas hoje mantêm o sentido e ganham nova vida. Isto tudo sem apagar a nossa identidade nacional que também tarda em ser trocada por outra menos coitadinha, mas enfim isto são já contas de outro rosário...

Com base nas notícias que vou lendo e ouvindo tive conhecimento que o Estado Português nacionalizou o BPN. (e os seus prejuízos, para que sejamos todos a pagar a estupidez de alguns...)

Lá diz o ditado: "Onde todos ajudam nada custa!"


Com base nessas mesmas notícias tive conhecimento que o Estado Português pretende
privatizar a ANA. (e os seus lucros...)

Lá diz o ditado: "Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é burro ou não tem arte!"


Pagamos todos para que apenas alguns ganhem.
Assim se vai pondo o interesse de poucos acima do interesse da maioria...

O Governo dito Socialista de José Sócrates em 2009 vai-se esfarrapar na caça aos votos dos portugueses votantes. Com o meu escusa já de contar.

Lá dizia o Zé: "Queres fiado? Toma!!!"


Até já.

domingo, 9 de novembro de 2008

Enigma



"Rememoro as ausências que não tive
quando o amor a elas obrigava:
foram muitas chegadas sem partida
De comboio avião ou de navio
quantas ‘stações e quantos cais de embarque
quantos aeroportos: um desfile
de bilhetes comprados e viagens.
Estranha comunhão: amor/ausência
irmanavam em tal mesma presença
como se a dor beirasse as alegrias.
Nem sei porquê razões de tantas fugas:
levo as mão ao meu rosto, conto rugas,
mas não recordo agora o que seria."

(António Salvado)

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

A Palavra - Divagação a pedido


"Como podemos nos entender (...),
se nas palavras que digo coloco
o sentido e o valor das coisas
como se encontram dentro de mim;
enquanto quem as escuta
inevitavelmente as assume
com o sentido e o valor
que têm para si, do mundo que tem dentro de si?"

(Luigi Pirandello)


"O que é que há, pois, num nome?
Aquilo a que chamamos rosa,
mesmo com outro nome,
cheiraria igualmente bem"

(William Shakespeare)


"Se soubéssemos quantas e quantas vezes
as nossas palavras são mal interpretadas,
haveria muito mais silêncio neste mundo."

(Oscar Wilde)


"Quais são as tuas palavras essenciais?
As que restam depois de toda a tua agitação e projectos e realizações.
As que esperam que tudo em si se cale para elas se ouvirem.
As que talvez ignores por nunca as teres pensado.
As que podem sobreviver quando o grande silêncio se avizinha."

(Vergílio Ferreira)


"Nenhum de nós sabe o que existe e o que não existe.
Vivemos de palavras.
Vamos até à cova com palavras.
Submetem-nos, subjugam-nos.
Pesam toneladas, têm a espessura de montanhas.
São as palavras que nos contêm,
são as palavras que nos conduzem."

(Raul Brandão)


"Toda a palavra pronunciada é falsa.
Toda a palavra escrita é falsa.
Toda a palavra é falsa.
Mas o que existe sem palavras?"

(Elias Canetti)


"Não importa o que tenhamos a dizer,
existe apenas uma palavra para exprimi-lo,
um único verbo para animá-lo
e um único adjectivo para qualificá-lo."

(Guy Maupassant)


"O mais profundo duma palavra é o que há nela de sagrado.
Deus tê-la-á dessacralizado quando com ela criou o mundo.
Mas nós sacralizamo-la de novo quando o recriamos com ela."

(Vergílio Ferreira)


"As palavras são como lentes que obscurecem tudo o que não ajudam a ver melhor"

(Joseph Joubert)


"Tão pobres somos que as mesmas palavras
nos servem para exprimir a mentira e a verdade."

(Florbela Espanca)


"Não se retém quase nada sem o auxílio das palavras,
e as palavras quase nunca bastam para transmitir precisamente o que se sente."

(Denis Diderot)


"Não se lesa ninguém com simples palavras, mesmo falsas;
basta não acreditar nelas."

(Emmanuel Kant)


"Palavras, palavras, só palavras.
Tem-se acendido fogueiras em nome da caridade,
tem-se guilhotinado em nome da fraternidade.
No teatro das coisas humanas,
o cartaz é quase sempre o contrário da peça"

(Jules Goncourt)


Há já bastante tempo uma amiga lançou-me o desafio de divagar sobre a temática da palavra.
Comecei por pensar na palavra. Qual? Nela mesma.

Dei por mim pensando com palavras sobre palavras mas nunca atingindo a essência das ditas.
Em cima podemos encontrar as palavras de alguém mais capacitado do que eu para sobre elas opinar.
No entanto não encontro mais que um consenso: a subjectividade.

A palavra é o instrumento para pensar e comunicar.
Mas é mentirosa.
Por detrás de cada uma está um conceito.
Por detrás de cada conceito está um contexto.
Por detrás de cada contexto está um ser.
Um ser é demasiado complexo para ousar defini-lo.
Dois seres que comunicam são demasiado complexos para que ambos comunguem de uma só mensagem.

Assim socorremo-nos de uma ferramenta que devido a todas as variáveis intrínsecas à utilização da mesma (e até dela própria, da palavra) poderá não ser suficiente para o objectivo que nos propusemos.

Confuso?
É natural. Estou a articular a ferramenta mentirosa que não transcreve o que penso.
Embora pense através dela.

Até já!





quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Barraca Abana



Barack Obama (Barraca Abana, em Português) será o 44º Presidente dos EUA.

Não posso negar que comungo da ideia de que é o melhor dos candidatos (que concorreram) para tal cargo.

As esperanças do Mundo estão sobre os ombros deste homem.

Parece-me, sem dúvida, peso a mais para uma pessoa só.

Não lhe nego aparente potencial mas convém que não nos esqueçamos que Obama é apenas humano.

Ainda assim que as expectativas de todos não saiam muito defraudadas.

Afinal irá suceder a Bush... não será de todo difícil.

Até já.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

A Carta da Paixão



"Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os seus recessos negros
onde se forma
mas estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se: O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, essa lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a pontada figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheioda luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raizdos braços a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco.
A mudança.
Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas."

(Herberto Helder)
Esta semana está difícil ter tempo para estas andanças.
Com o fim da semana virá o terminar da falta de tempo.
Mil perdões!
Até já.

domingo, 2 de novembro de 2008

Lendo os outros


"Sócrates e a banha da cobra"

"SINTO-ME ENVERGONHADO ao ver o primeiro-ministro do meu país a desempenhar o papel de vendedor de banha da cobra numa cimeira de chefes de Estado e de Governo. De cada vez que a cena passa na televisão [v. aqui], sinto vontade de me enfiar num buraco. A cena revela falta de sentido de Estado, falta de bom senso e falta de vergonha.
Não é verdade que – como ele diz – o computador «Magalhães» seja um produto genuinamente português e, ainda menos, ibero-americano. Mas, mesmo que o fosse, um mínimo de pudor deveria ter impedido o primeiro-ministro de vestir a pele de um vulgar promotor de vendas de um produto comercial que está bem longe da excelência.
Para o engenheiro José Sócrates, a ausência de oposição à altura e de alternativa credível, em Portugal, convenceu-o de que tudo lhe é permitido aquém e além-mar – por cá, na Europa e na América Latina – sem medo de que o ridículo dê cabo dele.
De facto, não há situação mais lamentável do que aquela em que se encontra o PSD. Num país de comentadores «politicamente correctos», ainda não apareceu quem tenha coragem de apontar a dedo as medíocres prestações políticas da doutora Manuela Ferreira Leite, fazendo como o miúdo daquela velha história d’ «O Rei vai nu».
No fundo, o engenheiro Sócrates é como o computador «Magalhães»: está longe da excelência e não é genuíno, mas podem atirá-lo ao chão que ele nunca se parte."

(Alfredo Barroso) in Sorumbático


Por concordar com a visão de Alfredo Barroso acerca do impudor de José Sócrates não podia deixar de a partilhar connvosco. Ele há políticos descarados, mas o primeiro ministro português abusa. Digo eu!
Até já.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Falas de civilização


"Falas de civilização...Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as coisas humanas postas desta maneira,
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seriam melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as coisas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!"

(Alberto Caeiro)

Devido a excesso de trabalho não tenho prestado a devida atenção quer ao blogue quer aos meus amigos cibernautas. Não muito demorará até que a normalidade esteja retomada.

Até já.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Blindness - na voz do "próprio"


"A história da adaptação de Ensaio sobre a cegueira ao cinema passou por altos e baixos desde que Fernando Meirelles, aí pelo ano de 1997, perguntou a Luiz Schwarcz, meu editor brasileiro, se eu estaria interessado em ceder os respectivos direitos. Recebeu como resposta uma peremptória negativa: não. Entretanto, no escritório da minha agente literária em Bad Homburg, Frankfurt, começaram a chover, e choveram durante anos, cartas, correios electrónicos, chamadas telefónicas, mensagens de toda a espécie de produtores de outros países, em particular dos Estados Unidos, com a mesma pergunta. A todos mandei dar a resposta conhecida: não. Soberba minha? Não era questão de soberba, simplesmente não tinha a certeza, nem sequer a esperança, de que o livro fosse tratado com respeito naquelas paragens. E os anos passaram. Um dia, acompanhados pela minha agente, apareceram-me em Lanzarote, vindos directamente de Toronto, dois canadianos que pretendiam fazer o filme, Niv Fichman, o produtor, e Don McKellar, o guionista. Eram gente nova, nenhum deles me fazia recordar o Cecil B. de Mille, e, depois de uma conversa franca, sem portas falsas nem reservas mentais, entreguei-lhes o trabalho. Faltava saber quem seria o director. Outros anos tiveram de passar até ao dia em que me foi perguntado o que pensava eu de Fernando Meirelles. Completamente esquecido do que havia sucedido naquele já longínquo ano de 1997, respondi que pensava bem. Tinha visto e gostado da Cidade de Deus e do Fiel Jardineiro, mas continuava sem associar o nome deste director à pessoa do outro…
Finalmente, o resultado de tudo isto já está aqui. Traz o título de Blindness, com o qual se espera facilitar a sua relação com o livro no circuito internacional. Não vi qualquer motivo para discutir a escolha. Hoje, em Lisboa, foi a apresentação deste Ensaio sobre a cegueira em imagens e sons. A plateia estava bem servida de jornalistas que espero dêem boa conta do recado. Amanhã será a ante-estreia. Conversámos sobre estes episódios já históricos e, em dado momento, Pilar, a mais prática e objectiva de todas as subjectividades que conheço, lançou uma ideia: “No meu entender, o livro antecipou os efeitos da crise que estamos a sofrer. As pessoas, desesperadas, correndo por Wall Street, de banco em banco antes que o dinheiro se acabe, não são outras que as que se movem, cegas, sem rumo, no romance e agora no filme. A diferença é que não têm uma mulher do médico que as guie, que as proteja”. Reparando bem, a andaluza é capaz de ter razão."


(José Saramago)


Fui já acusado de "só poder ser um defensor" de Saramago.
Em resposta a essa acusação respondo: Orgulhosamente Culpado!

Tive já a oportunidade, e sobretudo o prazer, de ler «Ensaio sobre a Cegueira» deste "Sr.Mago".
Adorei. Não quero deixar passar o filme com base neste livro que começa a ser exibido pelos cinemas desse mundo fora e onde passa ninguém lhe fica indiferente.
Quando chegar aos cinemas deste nosso português mundo estarei na frente da fila para tirar bilhete.

Até já!


segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Choque tecnológico


Após visita ao Sorumbático descobri esta preciosidade.
Aqui temos um típico exemplo do choque tecnológico que este Governo tem levado a cabo.
A variedade de materiais é tanta que os professores até se podem dar ao luxo de utilizar peças de mobiliário para dar aulas de matemática...
Temos de ser positivos.
Na sua avaliação aquele professor terá certamente nota máxima no que a inovação diz respeito...
Bem vistas as coisas se calhar até não.
O professor não está a seguir as directrizes do Min. da Educação.
Aquele ângulo no quadro deveria ter sido executado com recurso ao Magalhães.
Qual cadeira? Magalhães em punho e vamos lá provar que o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos!
"- Oh senhor professor, posso trazer régua e esquadro para o exame?"
"- Não seja parvo, menino! Basta trazer uma esferográfica e o Magalhães. Não quero ver mais nada em cima da mesa!"
Até já.
P.S. Vou buscar um Magalhães e fazer tostas mistas para o jantar.
Ficam que é uma delícia!
(Foi o Chávez que me ensinou...)


FUMAR MATA



"Fumar mata. Com cinco inconclusos cigarros
morrerei decerto doutro motivo.
Cigarros escondidos, obrigatórios, demonstrativos, sexuais,
cigarros ocultos atrás de livros, fumados
na casa de banho que o vento depois não drenava,
cigarros amargos e engastados na garganta,
comprados, deitados fora,
cigarros infrutíferos como esses anos em tudo o mais,
nem rodapé biográfico mas erupção sociológica.
Fumar mata.

De não fumar nada direi."

(Pedro Mexia)

Vou fumar um cigarro.

Até já.

domingo, 26 de outubro de 2008

Grande jantar


Ontem à noite tive a sorte de defrutar de um saboroso jantar na companhia de amigos com quem não confraternizava havia já algum tempo.
Foi um encontro agradável onde, para além de uma óptima refeição, tive a doce sobremesa que nos foi servida à conta do Sr. Jesualdo Ferreira.
2-3 o resultado do jogo entre FCP e Leixões que fica para a História.
2-4 o resultado real do jogo entre FCP e Leixões que só não fica para a História porque a equipa de arbitragem não deixou!
Que grande noite. A do Leixões e a minha.
Até já.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Pára quieto, pá!!

"- Oh Sarkosinho, agora não! Tira a mão e senta-te no teu sítio!"
"Raio de chato que não pára quieto!!!"

Acho que não preciso acrescentar mais nada...
Até já...

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Gosto de ti porque... sim


Já ouvi por várias vezes a nova música de André Sardet.
É uma musiquinha gira e melodiosa que entra bem no ouvido.
Gostei de a ouvir.
Só hoje dei atenção ao que diz a letra...
Está cheia de versos profundos e elaborados.
De entre a panóplia de brilhantismo destaco:
"(...)Gosto de ti
desde aqui até à Lua
Gosto de ti
desde a Lua até aqui
Gosto de ti
simplesmente porque gosto (...)"
Ora bem, é como quem diz:
Gosto de ti bué
Gosto bué de ti
Gosto de ti... porque calhou seres tu a estar à minha frente no momento que estou a cantar esta cantilena!
Eis como nas coisas simples se pode encontrar a profundidade. Ou então não.
Esta cançoneta tem tudo para ser um êxito no estrangeiro. Basta traduzi-la para Inglês e temos um hit sem precedentes.
Estarei a implicar demasiado?
Provavelmente sim.
Já agora, experimentem traduzir para Português algumas das letras das canções que importamos, sobretudo as anglo-saxónicas...
Vamos ainda chegar à conclusão que a letra da música do meu homónimo não é assim tão má!
Meus queridos leitores,
Gosto de vocês
desde aqui até a Lua
Gosto de vocês
desde a Lua até aqui
Gosto de vocês
simplesmente porque gosto...
Até já...

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Identidade


"Todo o homem é diferente de mim e único no Universo;
não sou eu, por conseguinte,
quem tem de reflectir por ele,
não sou eu quem sabe o que é melhor para ele,
não sou quem tem de lhe traçar o caminho;
com ele só tenho o direito,
que é ao mesmo tempo um dever:
o de ajudar a ser ele próprio;
como o dever essencial que tenho comigo é o de ser o que sou,
por muito incómodo que tal seja,
e tem sido,
para mim mesmo e para os outros."

(Agostinho Silva)


Voltei só para partilhar connvosco algo que descobri e não poderia deixar de publicar.
Há palavras que lemos, batem no nosso Eu e fazem "click". Ou "toing". Ou "trunga!"
Bom... batem lá dentro e não nos deixam indiferentes.
Até já.

Um Adeus Português


"Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti."

(Alexandre O'Neill)

Por hoje é o que se pode arranjar.
Tenho o cérebro entupido com algo incontornavelmente incómodo e perturbador, por indizível que é.

Falta muito para o fim de semana? :-)

Beijinhos e abraços.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Porco Trágico

"conheço um poeta
que diz que não sabe se a fome dos outros
é fome de comer
ou se é só fome de sobremesa alheia.

a mim o que me espanta
não é a sua ignorância:
pois estou habituado a que os poetas saibam muito
de si
e pouco ou nada dos outros.

o que me espanta
é a distinção que ele faz:
como se a fome da sobremesa alheia
não fosse
fome de comer
também."

(Alberto Pimenta)

Assento de luxo


Foi também durante este onírico fim de semana que estive sentadinho em cima de um fofo, felpudo e quentinho... tapete. (Deixem para lá os pensamentos falsos e libidinosos)
O tal confortável tapete, em cuja macieza sentei as nádegas para ver o futebol tinha, para além do conforto, uma característica que muito me surpreendeu: o preço.
Debaixo do meu rabo estava uma verdadeira fortuna! (Não sejam maliciosos...)
Como sou curioso até à exaustão não descansei até levantar a beira daquela coisa fofinha e quente, (oh pá, vocês deixem-se disso!!!) e apanhar um susto descomunal. Estava ali o orçamento mensal de uma família com rendimento médio! E o objectivo é andar em cima daquelas coisas com os pés!!
Fiquei chocado.
Mas não me levantei. Fiz o sacrifício de continuar em cima do querido, fofinho, quentinho e descomunalmente caro tapete.
Enfim.

Moreira defende Benfica de vergonha

No passado Domingo, jogou-se no Estádio da Luz um "grande dérbi" do futebol nacional, o SL Benfica vs FC Penafiel.
Aproveitando um dos tais repastos com a família tive a oportunidade de ver o embate (e empate) entre o meu Glorioso e esses malandros Penafidelenses que iam apagando a Luz...
Apesar do treinador benfiquista ser Quique Florez foi um jogo pouco florido para o lado das águias. Se o treinador fosse Scolari teria, concerteza, dito que o melhor seria uma bola para cada jogador encarnado (a jogar de branco...) qual não era a avidez de cada um se agarrar ao esférico.
Valeu-nos o encostado Moreira que literalmente voou para a bola e defendendo-a salvou o Benfica de vergonha mais pronunciada.

Baterias Recarregadas


Após um fim de semana de retiro das lides "bloguísticas" cá estou de volta.
Foi um interregno revitalizador na companhia de família e amigos dedicado ao ócio e a refeições fartas, aprazíveis e bem regadas...
Com as baterias no máximo da carga dei um "chega para lá" na tristeza que o mundo me estava a causar e até remodelei o meu cantinho dando-lhe um pouco mais de cor.
Espero que gostem tanto como eu. Se não gostarem... temos pena mas para já é assim que permanecerá.
Beijinho e abraços!

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

A falência



Para quem se tenta manter minimamente informado é uma tortura incomensurável avaliar o que se tem vindo a passar na nossa sociedade.
Não tenho o propósito de me juntar aos profetas da desgraça e anunciar o fim do mundo. Não é crível que isso aconteça para já, até porque o fim de uma era não o é, nunca o foi. No entanto estamos perante uma época crítica e de falta de fundamentada esperança.
Nos confortáveis sofás das nossas confortáveis casas o que vemos?
A falência.
A inexorável falência deste paradigma social.
Não consigo contornar estas palavras: está podre.
Somos governados por lobotomizados que nada fazem porque nada sabem e nada querem. Pior. Não vejo alternativas credíveis. São todos farinha do mesmo saco. Na minha modesta opinião não há quem se destaque do Zero absoluto que resulta deste governo. Só vejo mais zeros em potência para onde quer que volte o olhar.
A Justiça? Não funciona. Os processos arrastam-se anos e anos e anos. Realmente tanto arrastar o melhor é mesmo arquivar. Pelo menos sabe-se em que ponto estão!
A Saúde? Deus nos livre de sofrermos de alguma maleita mais grave do que uma gripe. Horas e horas de espera em Serviços de Urgência ou Centros de Saúde em condições muitas vezes miseráveis. Podemos contar com a alegria e boa educação dos profissionais de saúde. Esperem lá... Em Portugal não. Estão demasiado ocupados e preocupados para que se permitam a atender pacientes... pacientemente.
A Educação? Não há. Sucessivas reformas esventraram o sistema educativo nacional. Tanto mudaram e alteraram que ninguém se entende. Ao menos podemos contar com os professores que fazem o melhor. Esperem lá... também não! Este governo considerou ser dos docentes a responsabilidade das passadas asneiras ministeriais. Vai daí fizeram outra bem pior: Guerra aos malvados "Stores". É correr com eles! Agora nem sistema nem actores. Mas podemos sorrir: o insucesso escolar está a baixar! Pois... é melhor não falar do grau de dificuldade dos exames.
A Economia? Manuel Pinho conseguiu durante quatro anos não ser remodelado. Só. E para ele foi já uma verdadeira proeza. Esperem lá... afinal também andou orgulhosamente a apregoar que em Portugal os ordenados são uma bosta! Pois... grande motivo de satisfação nacional.
Obras Públicas? Jamais!!
Cultura? Em Portugal há dessa peçonha?
Segurança Social? Neste momento as palavras "segurança" e "social" não têm uso prático no nosso país. Nem juntas nem separadas.
Mas há algo que nos anime?
Não.
A mim não.
Só vejo imbecilidade e incompetência, interesses e compadrio, falsidade e baboseira, trevas e incerteza.
Alguém me anime... se for capaz.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Sem brilho

Assistimos hoje a mais um desaire da nossa Selecção Nacional de Futebol.
Foi mais uma exibição pouco conseguida com muita lentidão nos processos pouco imaginativos de transição defesa-ataque, muito individualismo dos craques lusitanos, alguma falta de sorte e pouco brilho por parte do nosso Selecionador.
Vi por mais de uma vez o desespero nos olhos de Carlos Queiroz.
Vi o seu desespero na impotência que transparecia em cada ordem arremessada para dentro do relvado sem qualquer efeito prático.
Desespero quando o vi, qual "Felipão" enraivecido, discutir com um jogador albanês.
Desespero que senti quando contra a ALBÂNIA reduzida a DEZ jogadores se fazem substituições que nada arriscam e logo nada alteram. Foi receio do adversário?
Faltou brilho à nossa Selecção. Um brilho apagado desde a sombra que chegava do banco de suplentes.
Nada tenho contra Queiroz. Admiro-lhe estilo e educação.
Temo que isso não seja suficiente para ter o êxito que todos desejamos.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Um velho país


"É um velho país, de luz e sombras,
Onde o dia traz o pranto, e a noite a cisma;
Um país de orações e de blasfêmia,
Nele a crença na dúvida se abisma.

Aí mal nasce a flor o verme corta,
O mar é um escarcéu, e o sol sombrio;
Se a ventura num sonho transparece
A sufoca em seus braços o fastio.

Quando o amor, qual esfinge indecifrável,
Aí vai a bramir, perdido o siso...
Às vezes ri alegre, e outras vezes
É um triste soluço esse sorriso...

Vive-se nesse país com a mágoa e o riso;
Quem dele se ausentou treme e maldiz;
Mas aí, eu nele passo a mocidade,
Pois é meu coração esse país!"
(Machado de Assis), poeta brasileiro

domingo, 12 de outubro de 2008

Sobre Fernando Pessoa

"Era um homem que sabia idiomas e fazia versos. Ganhou o pão e o vinho pondo palavras no lugar de palavras, fez versos como os versos se fazem, como se fosse a primeira vez. Começou por se chamar Fernando, pessoa como toda a gente. Um dia lembrou-se de anunciar o aparecimento iminente de um super-Camões, um camões muito maior que o antigo, mas, sendo uma pessoa conhecidamente discreta, que soía andar pelos Douradores de gabardina clara, gravata de lacinho e chapéu sem plumas, não disse que o super-Camões era ele próprio. Afinal, um super-Camões não vai além de ser um camões maior, e ele estava de reserva para ser Fernando Pessoas, fenómeno nunca visto antes em Portugal. Naturalmente, a sua vida era feita de dias, e dos dias sabemos nós que são iguais mas não se repetem, por isso não surpreende que em um desses, ao passar Fernando diante de um espelho, nele tivesse percebido, de relance, outra pessoa. Pensou que havia sido mais uma ilusão de óptica, das que sempre estão a acontecer sem que lhes prestemos atenção, ou que o último copo de aguardente lhe assentara mal no fígado e na cabeça, mas, à cautela, deu um passo atrás para confirmar se, como é voz corrente, os espelhos não se enganam quando mostram. Pelo menos este tinha-se enganado: havia um homem a olhar de dentro do espelho, e esse homem não era Fernando Pessoa. Era até um pouco mais baixo, tinha a cara a puxar para o moreno, toda ela rapada. Com um movimento inconsciente, Fernando levou a mão ao lábio superior, depois respirou fundo com infantil alívio, o bigode estava lá. Muita coisa se pode esperar de figuras que apareçam nos espelhos, menos que falem. E porque estes, Fernando e a imagem que não era a sua, não iriam ficar ali eternamente a olhar-se, Fernando Pessoa disse: “Chamo-me Ricardo Reis”. O outro sorriu, assentiu com a cabeça e desapareceu. Durante um momento, o espelho ficou vazio, nu, mas logo a seguir outra imagem surgiu, a de um homem magro, pálido, com aspecto de quem não vai ter muita vida para viver. A Fernando pareceu-lhe que este deveria ter sido o primeiro, porém não fez qualquer comentário, só disse: “Chamo-me Alberto Caeiro”. O outro não sorriu, acenou apenas, frouxamente, concordando, e foi-se embora. Fernando Pessoa deixou-se ficar à espera, sempre tinha ouvido dizer que não há duas sem três. A terceira figura tardou uns segundos, era um homem daqueles que exibem saúde para dar e vender, com o ar inconfundível de engenheiro diplomado em Inglaterra. Fernando disse: “Chamo-me Álvaro de Campos”, mas desta vez não esperou que a imagem desaparecesse do espelho, afastou-se ele, provavelmente tinha-se cansado de ter sido tantos em tão pouco tempo. Nessa noite, madrugada alta, Fernando Pessoa acordou a pensar se o tal Álvaro de Campos teria ficado no espelho. Levantou-se, e o que estava lá era a sua própria cara. Disse então: “Chamo-me Bernardo Soares”, e voltou para a cama. Foi depois destes nomes e alguns mais que Fernando achou que era hora de ser também ele ridículo e escreveu as cartas de amor mais ridículas do mundo. Quando já ia muito adiantado nos trabalhos de tradução e poesia, morreu. Os amigos diziam-lhe que tinha um grande futuro na sua frente, mas ele não deve ter acreditado, tanto assim que decidiu morrer injustamente na flor da idade, aos 47 anos, imagine-se. Um momento antes de acabar pediu que lhe dessem os óculos: “Dá-me os óculos” foram as suas últimas e formais palavras. Até hoje nunca ninguém se interessou por saber para que os queria ele, assim se vêm ignorando ou desprezando as últimas vontades dos moribundos, mas parece bastante plausível que a sua intenção fosse olhar-se num espelho para saber quem finalmente lá estava. Não lhe deu tempo a parca. Aliás, nem espelho havia no quarto. Este Fernando Pessoa nunca chegou a ter verdadeiramente a certeza de quem era, mas por causa dessa dúvida é que nós vamos conseguindo saber um pouco mais quem somos."

(José Saramago)

sábado, 11 de outubro de 2008

Perfeitamente escusado


"Tudo evolui;
não há realidades eternas:
tal como não há verdades absolutas"
(Friedrich Nietzsche)
Caso tivesse conhecido o beneditino Ratzinger teria Nietzsche dito o mesmo?
Não consideram chocante a orientação da Igreja Católica, através do seu máximo representante, sobre o uso do preservativo?
Não consigo, provavelmente por deficiência cognitiva, encontar justificativo para esta tomada de posição.
Não estaremos já num tempo em que não se deveriam dizer coisas destas?
Sou da opinião de que mesmo sentindo o Catolicismo dificuldade em mostrar abertura ao uso do preservativo, poderia muito simplesmente, como em tantas outras matérias, remeter-se ao silêncio. No presumível interesse de procurar o melhor para os seus fiéis não teria esse silêncio sido a opção (muito) menos má?
No fundo acaba tudo por não ter consequências. Não quero acreditar que algum católico deixe de usar o preservativo e coloque a sua saúde em risco só porque o Papa quer...

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Hemi


"O mal não deve ser imputado apenas àqueles que o praticam,
mas também àqueles que poderiam tê-lo evitado e não o fizeram."
(Tucídedes)
Se as nádegas que consecutivamente se têm sentado nas cadeiras deste hemi-ciclo ao longo de três décadas tivessem pertencido a entes com apenas "hemi" competência ou "hemi" profissionalismo (porque de políticos de profissão estamos, regra geral, a falar) não teríamos, crises internacionais à parte, "hemi" da total barafunda que irremediavelmente nos sufoca.

Tempo em que vivemos

Podes, e deves, ter ideias políticas,
mas, por favor, as «tuas» ideias políticas,
não as ideias do teu partido;
o «teu» comportamento, não o comportamento dos teus líderes;
os interesses de «toda» a Humanidade, não os interesses de uma «parte» dela.
E lembra-te de que «parte» é a etimologia de «partido»

Agostinho Silva dixit

Já não há idealogias políticas.
Há ideologias de poder, sem intenção a não ser o interesse próprio.
Este paradigma está irreversivelmente esgotado e os sinais são mais que evidentes.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Deus e Ratzinger by José Saramago



"Que pensará Deus de Ratzinger?
Que pensará Deus da igreja católica apostólica romana de que este Ratzinger é soberano papa? Que eu saiba (e escusado será dizer que sei bastante pouco), até hoje ninguém se atreveu a formular estas heréticas perguntas, talvez por saber-se, de antemão, que não há nem haverá nunca resposta para elas. Como escrevi em horas de vã interrogação metafísica, há uns bons quinze anos, Deus é o silêncio do universo e o homem o grito que dá sentido a esse silêncio. Está nos Cadernos de Lanzarote e tem sido frequentemente citado por teólogos do país vizinho que tiveram a bondade de me ler. Claro que para que Deus pense alguma coisa de Ratzinger ou da igreja que o papa anda a querer salvar de uma morte mais do que previsível, seja por inanição, seja por não encontrar ouvidos que a escutem nem fé que lhe reforce os alicerces, será necessário demonstrar a existência do dito Deus, tarefa entre todas impossível, não obstante as supostas provas arquitectadas por S. Boaventura, como a de esvaziar os oceanos com um balde furado ou mesmo sem furo nenhum. Do que Deus, caso exista, deve estar agradecido a Ratzinger é pela preocupação que este tem manifestado nos últimos tempos sobre o delicado estado da fé católica. A gente não vai à missa, deixou de acreditar nos dogmas e cumprir preceitos que para os seus antepassados, na maior parte dos casos, constituíram a base da própria vida espiritual, senão também da vida material, como sucedeu, por exemplo, com muitos dos banqueiros dos primórdios do capitalismo, severos, calvinistas, e, tanto quanto é possível supor, de uma honestidade pessoal e profissional à prova de qualquer tentação demoníaca em forma de subprime. O leitor estará talvez a pensar que esta súbita inflexão no transcendente assunto que me havia proposto abordar, o sínodo episcopal reunido em Roma, se destinaria, afinal, a introduzir, com mais ou menos jeito dialéctico, uma crítica ao comportamento irregular (é o mínimo que se pode dizer) dos banqueiros nossos contemporâneos. Não foi essa a minha intenção nem essa é a minha competência, se alguma tenho.
Voltemos então a Ratzinger. A este homem, decerto inteligente e informado, com uma vida activíssima nos âmbitos vaticanais e adjacentes (baste dizer que foi prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, continuadora, por outros métodos, do ominoso Tribunal do Santo Ofício, mais conhecido por Inquisição), ocorreu-lhe algo que não se esperaria de alguém com a sua responsabilidade, cuja fé devemos respeitar, mas não a expressão do seu pensamento medieval. Escandalizado com os laicismos, frustrado pelo abandono dos fiéis, abriu a boca na missa com que abriu o sínodo para soltar enormidades como estas: “Se olhamos a História, vemo-nos obrigados a admitir que não são únicos este distanciamento e esta rebelião dos cristãos incoerentes. Em consequência disso, Deus, embora não faltando nunca à sua promessa de salvação, teve de recorrer amiúde ao castigo”. Na minha aldeia dizia-se que Deus castiga sem pau nem pedra, por isso é de temer que venha por aí outro dilúvio que afogue de uma vez os ateus, os agnósticos, os laicos em geral e outros fautores de desordem espiritual. A não ser, sendo os desígnios de Deus infinitos e ignotos, que o actual presidente dos Estados já tenha sido parte do castigo que nos está reservado. Tudo é possível se o quer Deus. Com a imprescindível condição de que exista, claro está. Se não existe (pelo menos nunca falou com Ratzinger), então tudo isto são histórias que já não assustam ninguém. Que Deus é eterno, dizem, e tem tempo para tudo. Eterno será, admitamo-lo para não contrariar o papa, mas a sua eternidade é só a de um eterno não-ser."

(José Saramago)

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Morte do leiteiro

"Há pouco leite no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.
Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
Sua lata, suas garrafas
e seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.
Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignaro,
morados na Rua Namur,
empregado no entreposto,
com 21 anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.
E já que tem pressa, o corpo
vai deixando à beira das casa
suma apenas mercadoria.
E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro...
Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve.
Meu leiteiro tão sutil
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.
Mas este acordou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.
Mas o homem perdeu o sono
de todo, e foge pra rua.
Meu Deus, matei um inocente.
Bala que mata gatuno
também serve pra furtar
a vida de nosso irmão.
Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade.
A noite geral prossegue,
a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro
estatelado, ao relento,
perdeu a pressa que tinha.
Da garrafa estilhaçada,
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue... não sei.
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora."
(Carlos Drummond de Andrade)

domingo, 5 de outubro de 2008

Os ombros suportam o mundo

"Os ombros suportam o mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação."

(Carlos Drummond de Andrade)

sábado, 4 de outubro de 2008


"Não sei de que cor são os navios
quando naufragam no meio dos teus braços
sei que há um corpo nunca encontrado algures no mar
e que esse corpo vivo é o teu corpo imaterial
a tua promessa nos mastros de todos os veleiros
a ilha perfumada das tuas pernas
o teu ventre de conchas e corais
a gruta onde me esperas
com teus lábios de espuma e de salsugem
os teus naufrágios
e a grande equação do vento e da viagem
onde o acaso floresce com seus espelhos
seus indícios de rosa e descoberta.
Não sei de que cor é essa linha
onde se cruza a lua e a mastreação
mas sei que em cada rua há uma esquina
uma abertura entre a rotina e a maravilha.
há uma hora de fogo para o azul
a hora em que te encontro e não te encontro
há um ângulo ao contrário
uma geometria mágica onde tudo pode ser possível
há um mar imaginário aberto em cada página
não me venham dizer que nunca mais
as rotas nascem do desejo
e eu quero o cruzeiro do sul das tuas mãos
quero o teu nome escrito nas marés
nesta cidade onde no sítio mais absurdo
num sentido proibido ou num semáforo
todos os poentes me dizem quem tu és."
(Manuel Alegre)

Sexo e dinheiro


Fiquei hoje a saber, com tremenda surpresa, que Portugal é o sexto país do mundo com menor diferença salarial entre sexos.
É isso mesmo. O sexto em todo o planeta. Estou pasmado.
Mas a surpresa continua. Quem está melhor do que nós? Estamos todos a pensar em países nórdicos, justos e desenvolvidos?
Pois bem: Errado!
Os melhores são:
Malta
Panamá
Filipinas
Sri Lanka
Bélgica
Eslovénia
Surpreendidos?
Não fiquem. Após o espanto inicial, se pensarmos bem , encontramos deveras facilmente a fórmula que explica estes resultados estatísticos:
No nosso país ganha-se tão pouco que se torna impossível existir GRANDES diferenças de vencimento entre Homem e Mulher.
É a vida! Ou melhor: É a vidinha!

O regresso (outra vez???)

Por mais natural que fosse pensar que a carreira política de Pedro Santana Lopes, a ter continuação, seria impossível sem um looooooongo período de reciclagem, aí está de novo "L'enfant terrible" a provar que ainda pensa ter aspirações no panorama político português.
Vemos noticiada em vários meios de comunicação social a provável candidatura de PSL à Câmara Municipal de Lisboa, com o incontornável aval de Manuel ferreira Leite.
Podemos ler ainda em vários jornais que a aposta do PSD em Santana Lopes é pelo seu partido considerada a melhor para derrotar António Costa.
Acham mesmo?
A minha opinião é a que se segue:
Pedro Santana Lopes continua na sua demanda desesperada e cega de ter algum tipo de protagonismo e poder. Desesperada porque está sem margem de manobra e não há muito por onde se agarrar. Cega porque é incapaz de observar que a sua imagem já não transmite (para aqueles que alguma vez transmitiu) credibilidade e competência.

O PSD de MFL parece assim sem pudor abdicar de disputar a vitória nas autárquicas Lisboetas para ser cúmplice no suicídio político de Santana Lopes e daí tirar dividendos.

Enfim, politiquices.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Quando estou só reconheço





"Quando estou só reconheço
Se por momentos me esqueço
Que existo entre outros que são
Como eu sós, salvo que estão
Alheados desde o começo.


E se sinto quanto estou
Verdadeiramente só,
Sinto-me livre mas triste.
Vou livre para onde vou,
Mas onde vou nada existe.

Creio contudo que a vida
Devidamente entendida
É toda assim, toda assim.
Por isso passo por mim
Como por cousa esquecida."

(Fernando Pessoa)

IN(Justiça) 2



"Não procures tornar-te juiz
se não tens força para extirpar a injustiça,
caso contrário irás intimidar-te diante de um poderoso
e mancharás a tua integridade"
In Textos Bíblicos

(IN)Justiça


Esta "coisinha" que podemos observar no topo do texto trata-se de uma representação do vírus da Sida. (ou HIV-SIDA como parece ser o que amiúde lhe chamam por estes dias.)
Esta "coisinha" está na corrente sanguínea de um cavalheiro que viu hoje confirmada as supostas justeza e legalidade do seu despedimento em virtude de estar doente.
Não concordo (mas NÃO concordo mesmo) que haja qualquer tipo de justificação para alguém perder seja o que for só porque carrega esta "coisinha" no seu sangue.
Apesar de até poder compreender o receio que levou à decisão judicial não me compadeço dela.
Todos conhecemos as formas de contágio do HIV Sida e no desempenho da função de cozinheiro não me parece que seja um risco incontornável ter esta doença.
Doença é terem-no despedido.
Doença é a Lei Portuguesa permitir-se a este tipo de barbaridades.
A opinião não será unânime. Mas é a minha.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Tenho pena e não respondo


"Tenho pena e não respondo.
Mas não tenho culpa enfim
De que em mim não correspondo
Ao outro que amaste em mim.

Cada um é muita gente.
Para mim sou quem me penso,
Para outros --- cada um sente
O que julga, e é um erro imenso.

Ah, deixem-me sossegar.
Não me sonhem nem me outrem.
Se eu não me quero encontrar,
Quererei que outros me encontrem?

(Fernando Pessoa)